Fazer os próprios produtos de limpeza, deixar os restos de comida se decomporem, carregar o próprio copo: eis algumas das medidas tomadas pelos praticantes do Zero Waste (que pode ser traduzido como Lixo ou Desperdício Zero). O movimento, que promove gerar o mínimo possível de descarte, tem crescido no Brasil e conquistado novos mercados no quarto país que mais joga fora plástico no mundo, de acordo com a ONG WWF.

Os adeptos do movimento carregam sempre um kit, composto por um copo ou garrafinha, talheres, saquinho para colocar alimentos, guardanapo de pano e uma sacola reutilizável. O kit pode variar de acordo com a necessidade da pessoa: algumas levam também canudo ou potes para compras a granel. Sites especializados já vendem kits, mas é possível montá-lo com utensílios que se tem em casa.

Em um ano, são usados 720 milhões de copos descartáveis no país, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos. A marca de copos retráteis Menos1lixo estima que um brasileiro economizaria 1.600 copinhos se usar o seu próprio.

Kit zero waste usado em viagem pela adepta do Desperdício Zero, Karin Rodrigues Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
Kit zero waste usado em viagem pela adepta do Desperdício Zero, Karin Rodrigues Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

A ativista Karin Rodrigues tirou o ano de 2015 para mudar seus hábitos e parar de produzir lixo, tanto na rua quanto em casa. Criadora do blog “Por favor, menos lixo”, ela foi uma das pioneiras em criar conteúdo em português sobre Desperdício Zero no Brasil.

— Para mim, ser Desperdício Zero é não ver o mundo como uma fonte de recurso inesgotável. Não existe lixo, mas sim matéria prima e descarte, que vira poluição. As pessoas mudariam de concepção se ouvissem “Ó, joga aquela poluição ali” — diz a ativista.

Os produtos de higiene pessoal também são adaptados. Shampoo e condicionador sólido, sabonete em barra e até perfume em creme costumam ser usados para evitar o uso de embalagens plásticas. Desodorante e pasta de dente são feitos em casa com ingredientes naturais, como leite de magnésio e óleos essenciais.

Para lidar com a menstruação, absorventes reutilizáveis, coletor menstrual e calcinha impermeável estão entre as opções. Karin enfatiza, porém, que o preservativo íntimo é um descartável indispensável.

Nicole Brendt e a filha Nina, de 4 anos, fazendo pasta de dente caseira Foto: Divulgação
Nicole Brendt e a filha Nina, de 4 anos, fazendo pasta de dente caseira Foto: Divulgação

O movimento, fundado pela francesa Béa Johnson em 2013, é guiado por cinco “erres”: recusar, reduzir, reutilizar, reciclar e rot (compostar), priorizados nesta ordem. Segundo Lourenço Capriglione, criador do projeto urbe.rio, que mapeia as áreas sustentáveis do Rio, o Desperdício Zero começa com a pergunta “Eu realmente preciso disso?”.

— É uma varredura no seu cotidiano. Eu era bem consumista antes. Uma vez, comprei um marcador de torrada que escrevia “Tenha um dia feliz” no pão. Para que eu preciso disso?! — lembra Lourenço.

Em média, quem decide ‘virar desperdício zero’ demora um ano para conseguir adaptar toda sua rotina. As estratégias mais comuns são substituir os produtos à medida que acabam, ou transformar cada cômodo da casa por vez.

 

Lourenço Capriglione usa bucha vegetal e sabão de coco para lavar louça Foto: Fernando Lemos/ Agência O Globo
Lourenço Capriglione usa bucha vegetal e sabão de coco para lavar louça Foto: Fernando Lemos/ Agência O Globo

Os adeptos do Brasil preferem o termo “Desperdício Zero” em vez de “Lixo Zero”, pois consideram que não gerar lixo algum é uma utopia. A questão, justamente, é repensar o que se consome para evitar o desperdício.

Além do banheiro, um dos setores com mais mudanças é a cozinha. O quinto “erre” do movimento é rot (compostar), que significa estimular a decomposição orgânica dos restos de alimentos que comemos, como cascas de banana.

De acordo com os Planos Estaduais de Resíduos Sólidos, 50% do lixo gerado nas cidades é composto de matéria orgânica. Ao ser misturado com outros materiais nos aterros sanitários, frequentemente este material não entra em contato com oxigênio suficientemente, o que impede o processo de decomposição.

Este resíduo é usado para virar adubo. O processo de compostagem pode ser feito em casa, mas existem empresas que oferecem o serviço. Uma das pioneiras no ramo é a Ciclo Orgânico, que faz compostagem de resíduos gerados em residências e funciona por meio de assinatura. O assinante recebe um balde para colocar todos os seus resíduos, que são depois recolhidos pela empresa de bicicleta. O material coletado é encaminhado para Nova Iguaçu, onde ocorre a compostagem, em escala industrial, com galhos, folhas secas e minhocas no processo.

 

Os adeptos do movimento zero waste se organizam para não gerarem lixo nas compras de casa Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
Os adeptos do movimento zero waste se organizam para não gerarem lixo nas compras de casa Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Na cozinha, outras mudanças são o uso de bucha vegetal ao invés da esponja artificial e a troca por produtos biodegradáveis, como sabão de coco. Na hora de fazer o supermercado, as compras são colocadas em sacos reaproveitáveis ou potes, e evita-se os produtos industrializados, em embalagens descartáveis. Quando necessário, são preferíveis as embalagens recicláveis.

Desde junho deste ano, os supermercados e lojas de varejo do Rio de Janeiro foram obrigados a trocar as bolsas de plástico por modelos feitos com material renovável, graças a Lei Estadual n° 8.006/18.

Nicole Berndt, que registra sua rotina no Instagram Casa Sem Lixo, convenceu toda a sua família a embarcar no Zero Waste. Os filhos, Theo, de 8 anos, e Nina, de 4 anos, já têm seus próprios kits. Os Berndt vivem em Florianópolis, primeira capital brasileira que se comprometeu a ser lixo zero até 2030.

Da esquerda para direita: Paulo, Nicole, Theo e Nina Brendt, adeptos do movimento zero waste Foto: Divulgação
Da esquerda para direita: Paulo, Nicole, Theo e Nina Brendt, adeptos do movimento zero waste Foto: Divulgação

— Não sou extremamente radical com eles, pois quero conquistá-los. Nem sempre conseguem recusar descartáveis, mas a Nina já chega em casa de uma festinha e comenta: “Nossa mamãe, tinha muito plástico lá!” — conta Nicole.

Nicole e seu marido, Paulo, sempre conversam com os filhos sobre as mudanças que estão fazendo e discutem as decisões. As crianças só ganham brinquedos em datas especiais, e os pais evitam dar presentes de plástico.

— Eu considero levar uma criança numa loja de brinquedos quase um abuso infantil. Não tem como uma criança entender que ela não precisa de tudo aquilo — opina Nicole.

De acordo com o Programa Nacional Lixão Zero (2019), do Ministério do Meio Ambiente, cada brasileiro gera, em média, 1kg de resíduo sólido urbano por dia. Estima-se que o Brasil gere aproximadamente 71 milhões de toneladas de resíduo por ano.

— Muita gente acha que coloca a sacola de lixo na porta de casa e ela some. É importante saber que vai sair dali e poluir outro lugar, provavelmente a porta da casa de outra pessoa. Alguém marginalizado, sem escolaridade — afirma Clarisse Aramian, geógrafa e coordenadora do movimento #eusoucatadora, que luta pelos direitos dos catadores.

 

Clarisse Amarian, catadora e mestre em engenharia, fez um ponto de coleta voluntário (pev) em seu prédio Foto: Fernando Lemos/Agência O Globo
Clarisse Amarian, catadora e mestre em engenharia, fez um ponto de coleta voluntário (pev) em seu prédio Foto: Fernando Lemos/Agência O Globo

Segundo o Panorama de Resíduos Sólidos no Brasil de 2017 da Abrelpe, 40,9% dos resíduos coletados neste ano foram despejados em locais inadequados, totalizando mais de 29 milhões de toneladas de resíduos em lixões ou aterros, que não possuem o conjunto de sistemas e medidas necessários para proteção do meio ambiente contra danos e degradações. Além disso, 6,9 milhões de toneladas de lixo não foram coletadas, e, portanto, tiveram destino impróprio.

— Grandes movimentos começam com pequenas ações, com pessoas difundindo informação. Precisamos de área disponível para aterro, até quando teremos espaço para dispor esse material? — questiona Dirlane do Carmo, professora do Departamento de Engenharia Agrícola e Meio Ambiente da UFF.

Dirlane enfatiza que as empresas precisam pensar em reuso para que sua matéria-prima e fonte energética não acabem. Ela considera que movimentos como o Desperdício Zero são importantes para pressionar mudanças na indústria.

— No início há esse choque, mas depois as empresas começam a ver vantagens em ser sustentáveis. Não podemos extrair sem pensar nas consequências. Já que você já extraiu essa matéria prima, tem que buscar alternativas para reutilizá-la — afirma Dirlane.

* Estagiária, sob supervisão de Marco Aurélio Canônico