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Conheça os lagartos que usam bolhas para respirar debaixo d’água

Compartilhe:     |  22 de maio de 2021

Os insetos aquáticos e outros invertebrados são conhecidos por transportar bolhas para possibilitar a respiração debaixo d’água. Mas, agora, cientistas descobriram algo inédito: alguns lagartos tropicais também “respiram” abaixo da superfície dessa maneira.

Uma nova pesquisa revelou que algumas espécies de lagartos caribenhos e latino-americanos do gênero Anolis conseguem criar grandes bolhas de oxigênio que ficam presas à sua cabeça. Esses répteis já haviam sido vistos inflando as bolhas e puxando-as de volta pelo nariz. De acordo com um artigo publicado na revista científica Current Biology, os pesquisadores observaram os répteis embaixo d’água por mais de 15 minutos para constatar se as bolhas eram realmente utilizadas para que os anólis respirem sem voltar à superfície.

“Acreditamos que se trate do mesmo princípio de um dispositivo de reciclagem de ar”, afirma o autor principal do estudo, Christopher Boccia, estudante de doutorado na Queen’s University, em Kingston, Ontário. Esse dispositivo, que ficou conhecido como rebreather, permite que os mergulhadores fiquem mais tempo debaixo d’água, pois recicla o ar exalado e permite a respiração do oxigênio não utilizado.

Roger Seymour, biólogo da Universidade de Adelaide, na Austrália, que não participou da pesquisa de Boccia, acredita que esse comportamento dos anólis pode ajudá-los a liberar o dióxido de carbono acumulado em seus pulmões, que pode escapar para a água por meio da extensa área de superfície da bolha.

Segundo Boccia, que realizou a pesquisa durante o período de conclusão de seu mestrado na Universidade de Toronto, também é possível que, em riachos bem oxigenados, as bolhas funcionem como uma espécie de “guelra física” que retira o gás da água por difusão.

Mergulhando para se proteger

Mais de 400 espécies de anólis vivem nos trópicos e possuem grande diversidade de cores e tamanhos. Algumas das mais excepcionais são as espécies semiaquáticas, que se protegem dos predadores mergulhando em riachos.

Durante o estudo, Boccia capturou, estudou e soltou de volta na natureza várias espécies desses lagartos no México, Costa Rica e Colômbia. Frequentemente, esses anólis rajados dormem na ponta dos galhos, prontos para acordar e pular para fugir de cobras, se for necessário. “Isso faz com que sejam encontrados com mais facilidade à noite”, diz Boccia, que liderou a pesquisa parcialmente financiada pela National Geographic Society.

Boccia observou o comportamento de reciclagem de ar dos anólis colocando-os em diversos recipientes cheios de água. Com esses experimentos, ele descobriu que seis espécies conseguiam expirar e inalar novamente o conteúdo de grandes bolhas, também chamadas de plastrões, presas às escamas desses répteis em uma região do corpo de onde conseguem respirá-las. Quando Boccia e seus colegas mediram os níveis de oxigênio nas bolhas, constataram uma redução gradual, indicando que estava sendo consumido pelos anólis.

Os cientistas afirmam também que é possível que alguns lagartos usem a técnica de reinalação para se alimentarem debaixo d’água, por exemplo, de pequenos peixes.

“Ninguém teria previsto que os lagartos anólis conseguem reinalar uma camada de gás presa no exterior de suas peles”, afirma Seymour. Mas os cientistas responsáveis pelo estudo “fizeram as observações e os cálculos com muito empenho, e isso torna o estudo extremamente interessante e cientificamente rigoroso”.

Adaptações subaquáticas

Ao observar quais anólis apresentam o comportamento e se são taxonomicamente relacionados, os cientistas descobriram que o comportamento evoluiu em cinco ocasiões distintas e independentes, em cinco linhagens desses lagartos. Os anólis são conhecidos por exibir evolução convergente, o que significa que desenvolveram habilidades semelhantes mesmo em ambientes distintos e de forma independente. Parece que há muitas maneiras de ser um anólis de sucesso, diz Boccia.

Diversos tipos de insetos conseguem carregar bolhas de ar para debaixo d’água, como espécies de besouros e aracnídeos, por exemplo, as aranhas-d’água. Em alguns casos, os plastrões agem como guelras, diz Seymour.

Alguns insetos podem ficar debaixo d’água, respirando através de bolhas, por períodos de tempo ainda não determinados. No entanto, em comparação com os lagartos, esses insetos têm taxas metabólicas significativamente mais baixas, precisam de menos oxigênio e são menores. Além disso, as bolhas têm uma área de superfície maior em relação à massa corporal desses animais.

Ao possivelmente ajudar os anólis a eliminar o dióxido de carbono do ar retido em seu corpo e até mesmo absorver oxigênio da água, o uso de bolhas para respirar provavelmente aumenta a capacidade do réptil de permanecer submerso, diz Boccia. O que ainda não está claro é o grau em que esse processo pode ocorrer. O doutorando espera estudar ainda mais o fenômeno.

Philip Matthews, biólogo que estuda respiração animal na Universidade da Colúmbia Britânica e que não participou do estudo, diz que o comportamento dos lagartos “pode aumentar a duração do mergulho da ordem de segundos para um minuto. Contudo, esse pouco tempo pode ser suficiente para que um lagarto submerso ganhe vantagem”.



Fonte: National Geographic - POR DOUGLAS MAIN - FOTO DE LINDSEY SWIERK



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