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Conquista do Cerrado permitiu a ampliação da área de plantio no país

Compartilhe:     |  27 de abril de 2015

Para comemorar os 50 anos da Rede Globo, o Globo Rural preparou uma reportagem especial mostrando algumas das principais mudanças da agropecuária brasileira nesse meio século.

Mudou o jeito de produzir, a tecnologia melhorou e, com ela, a produtividade das lavouras e criações se multiplicou. Os repórteres Cristina Vieira e Vico Iasi visitaram produtores e pesquisadores que foram protagonistas desta história.

Enquanto a chuva não chega, as máquinas se apressam para terminar a colheita das últimas áreas de soja da safra.

A equipe de reportagem esteve na Fazenda Lagoa Rica, no município de Diamantino (MT). Uma propriedade moderna, típica da região: 15 mil hectares plantados, lavouras produtivas, armazéns gigantescos e um vaivém constante de tratores, caminhões, colheitadeiras.

No comando do negócio estão o seu Horácio Tavares e os filhos, Vladimir e Horácio Júnior. Donos da fazenda, eles se dizem apaixonados pela atividade.

“O Centro-Oeste foi um milagre. Essa terra aqui tem calor, tem clima bom. O Mato Grosso foi feito assim e ele é muito especial”, conta o agricultor Horácio Tavare.

Com tecnologia de ponta, em alguns talhões a família consegue colher até 65 sacas de soja por hectare.

“Você vê uma colhedeira hoje, a gente está usando GPS, piloto automático. Uma máquina dessas aí chega a colher 3 mil sacos por dia”, diz o agricultor Vladimir Tavares.

Com a contribuição das famílias como essa, nas últimas décadas o Mato Grosso se transformou em um dos polos mais dinâmicos da agricultura do Brasil, e o Brasil em um dos maiores produtores de alimentos do mundo.

Estamos hoje em primeiro lugar na produção global de soja, café, laranja, carne bovina, açúcar, etanol de cana de açúcar e, entre os maiores do mundo no frango, no milho, no porco, no algodão e por aí afora.

Somando todas as cadeias produtivas – em fazendas, agroindústrias e serviços – o agronegócio brasileiro representa hoje nada menos do que 23% da economia do país.

Esse gigantismo da agricultura brasileira se consolidou principalmente ao longo das últimas décadas. Há apenas 50 anos, o retrato do nosso campo era bem diferente.

Na década de 1960, o principal produto agrícola do Brasil não era a soja, mas sim o café. E uma região de São Paulo estava bombando. Garça é um município que foi o maior produtor de café de São Paulo, em 1960, e o maior do Brasil em 1970.

No município, seu Paulo Renato de Souza é um produtor respeitado. Ele conta que Garça ainda produz café, em menor quantidade. Mas o ambiente atual não tem nada a ver com a euforia dos anos 1960.

“O que acontece hoje, em Mato Grosso, na soja, aqui era o café. A força aqui era o café. Aqui na região de Garça era gente para todos os lados, eram inúmeras propriedades, bastante, todas com café, e todas cultivadas na enxada”, afirma o agricultor Paulo Renato de Souza.

Na década de 1960, seu Paulo cultivava 200 hectares de café e empregava 150 pessoas nos meses de safra. Isso fora as 40 famílias de funcionários que moravam na fazenda.

“As casas eram onde o pessoal morava, sem problema. As propriedades não tinham energia, raríssima. A gente assistia o povo levar para casa bacalhau, sardinha, manjuba, que não precisava de geladeira para manter. Eram alimentos que se conservava no sal e, então, não estragava”, conta o agricultor Paulo Renato de Souza.

E se, na agricultura, o café era a grande vedete dos anos 1960, no conjunto da agropecuária quem aparecia reinando era o boi. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a lista dos principais produtos do nosso campo, em 1965, era a seguinte: boi e café, quase empatados no topo. Depois, leite, cana-de-açúcar, milho, arroz, algodão e feijão.

Vale notar que soja, frango e porco, que hoje estão entre os grandes, não tinham tanta importância naquele tempo, como explica o agrônomo Flávio Bolliger, que coordena as pesquisas agropecuárias do IBGE.

“O uso de insumos era muito menor, muito menos difundido, com produção muito baseada em instalações rudimentares, baixa produtividade, relações de produção antiga que determinavam que a produção fosse baixa em relação ao potencial que o Brasil tinha. Na época, São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná eram pólos, mas no país como um todo. A produção era bastante menor”, explica Flávio Bolliger, agrônomo e coordenador de pesquisas agropecuárias do IBGE.

Olhando para as imagens, os dados e as histórias do passado, a gente se pergunta como é que aquele Brasil conseguiu mudar tanto. Como é que aquele país de agricultura tradicional se transformou em uma potência moderna do agronegócio?

O salto na produção brasileira se baseia em vários pontos. Primeiro, vale lembrar que, nos últimos 50 anos, a agropecuária passou a ocupar mais espaço no país. Segundo o IBGE, a área produtiva, somando lavouras e pastagens, passou de 150 milhões de hectares, em 1960, para cerca de 230 milhões nos dias de hoje.

Grande parte do crescimento ocorreu na região Centro-Oeste, que até então tinha uma produção relativamente pequena.

A Fazenda Jatobá, em Diamantino (MT), é um exemplo da expansão da agricultura brasileira. Há 50 anos toda essa área era coberta por Cerrado. A mata foi sendo aberta e o que se vê hoje é essa imensidão de lavouras. Milho a perder de vista.

Além do milho, a fazenda também conta com grandes lavouras de soja.

A proprietária, dona Terezinha Brunetta, tem uma história familiar típica da região. Filha de pequenos produtores, ela nasceu no Rio Grande do Sul, viveu em Santa Catarina e passou a juventude trabalhando na terra.

“Há 50 anos eu estava em Santa Catarina, no sítio do meu pai. Plantava milho, colhia na mão. E a gente não ia pra lugar nenhum. Porque se plantava pouco, se produzia pouco e a família era grande. Eram oito irmãos”, conta a agricultora Terezinha Brunetta.

Em busca de mais espaço para plantar, dona Terezinha se mudou para o Mato Grosso em 1984, já casada e com três filhas pequenas. Primeiro, a família comprou mil hectares e, depois, aumentou a fazenda, com mais 600 hectares.

Dona Terezinha ficou viúva em 1997 e hoje administra a propriedade com a ajuda da filha, Keila.

“Essa era a casa que estava aqui quando nós chegamos. Nós fomos abrindo o Cerrado aos poucos. Um ano, 200 hectares. Outro ano, mais 50 hectares. Outro ano, mais 100. Naquela época, a gente tinha a cara, a coragem e a vontade de trabalhar”, lembra a agricultora Terezinha Brunetta.

Além da vontade de trabalhar, muitos dos migrantes que vinham para o Centro-Oeste contavam com incentivos públicos para montar as fazendas. O agrônomo Álvaro Salles, diretor do Instituto Matogrossense do Algodão, chegou com a família nos anos 1970.

“[O que me fez sair do Sul] Principalmente essa possibilidade de sair dessa pequena propriedade, vender aquilo lá e comprar uma área média, grande e aqui ele pode crescer, né? Existiam programas governamentais que facilitaram a compra de corretivos do solo, a compra de máquina”, diz Álvaro Salles, diretor do IMA (Instituto Matogrossense do Algodão).

O avanço da agricultura também mudou a paisagem e a economia da região. Além das lavouras e fazendas, surgiram cooperativas, armazéns, entrepostos e cidades inteiras que brotaram na planície do Cerrado.

Um mapa ilustra bem essa expansão: em 1960, as áreas ocupadas pela agropecuária, com o correr do tempo, tiveram a mancha produtiva aumentada principalmente nos estados do Centro-Oeste, com destaque para o Mato Grosso.

Mas o salto da agropecuária do país não se explica apenas pelo crescimento das áreas produtivas e pela chamada “conquista do Cerrado”.

Na segunda parte da reportagem, o Globo Rural  fala do papel da pesquisa para a transformação do nosso campo. A invasão das máquinas e o novo perfil de agricultores e trabalhadores rurais.



Fonte: Globo Rural



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