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Consumo de carne e laticínios aumenta emissões de nitrogênio

Compartilhe:     |  14 de julho de 2020

De acordo com um novo relatório publicado por cientistas da ONU, os humanos devem comer menos carne e laticínios para reduzir as emissões de nitrogênio decorrentes da agricultura.

O setor pecuário emite cerca de 65 trilhões de gramas (teragramas) de nitrogênio por ano – atualmente o equivalente a um terço de todas as emissões de nitrogênio induzidas pelo homem, dizem eles.

Essa cifra de emissões, sozinha, excede a “fronteira planetária” do nitrogênio – uma das nove fronteiras que, se atravessadas, poderiam colocar em risco o futuro da humanidade na Terra.

A maior parte das emissões agrícolas de nitrogênio vem, na verdade, de sistemas de manejo de esterco e produção de ração para alimentar o gado, e não do processo de processar carne e laticínios para torná-lo adequado para o consumo humano em si.

A poluição por nitrogênio causa aquecimento global, chuva ácida e eutrofização – uma carga aumentada de nutrientes para águas globais, o que causa uma abundância de flores que drenam o oxigênio o que mata os peixes.

Os cientistas já alertaram que o nível de nitrogênio na atmosfera precisa ser reduzido a cerca de um quarto de seu volume atual ou haverá o risco de cruzar uma “fronteira planetária deletéria ou até catastrófica”.

No entanto, o ciclo do nitrogênio recebe muito menos atenção dos pesquisadores do que o ciclo do carbono, apesar do nitrogênio representar um risco tão grande quanto o carbono, segundo autoridades da União Europeia.

“Dada a magnitude de seus impactos e seu papel central nos desafios nacionais e internacionais relacionados a emissão de nitrogênio, o setor pecuário requer urgentemente uma iniciativa global para combater a poluição por nitrogênio e apoiar a segurança alimentar”, disseram os autores do relatório, publicado na revista Nature Food.

“As cadeias de suprimentos de gado são uma das principais fontes de emissões de nitrogênio, contribuindo com cerca de um terço das emissões antropogênicas [feitas pelo homem] globais, com impactos significativos na poluição, nas mudanças climáticas e nas perdas de biodiversidade.No entanto, soluções técnicas e boas práticas podem não ser suficientes para reduzir os impactos a níveis aceitáveis”.

“Em algumas partes do mundo, provavelmente será necessária uma redução na produção e no consumo de produtos pecuários para manter as emissões globais de nitrogênio dentro das fronteiras planetárias.”

As cadeias globais de suprimentos de gado alteraram significativamente os fluxos de nitrogênio nos últimos anos, ameaçando, assim, a saúde ambiental e a humana.

A equipe da ONU conduziu uma avaliação dos impactos do setor pecuário sobre os fluxos e emissões globais de nitrogênio, incluindo o comércio internacional.

Do total de 65 teragramas (Tg) de nitrogênio por ano gerados pelas cadeias produtivas, os nitratos (NO3) – fontes comuns de poluição da água e consequente perda de biodiversidade – correspondem a 29 Tg, enquanto a amônia (NH3), que contribui para a poluição do ar, representa riscos à saúde humana e causa acidificação da água, corresponde a 26 Tg.

O óxido nitroso (N2O) que destrói a camada de ozônio, um gás de efeito estufa 300 vezes mais potente que o dióxido de carbono, contribuiu com 2 Tg por ano.

A produção de ração libera cerca de 44 Tg – ou 68% – de nitrogênio por ano, em particular através de esterco depositado em pastagens, espalhamento de esterco e aplicação de fertilizante sintético em lavouras.

Os pesquisadores revelaram que o manejo de esterco na etapa de produção animal é a segunda principal fonte de emissões Nitrogênio, com cerca de 20 Tg – 30% – liberados através da volatilização, lixiviação de nitrogênio e utilização de esterco para produzir energia.

As emissões de nitrogênio provenientes do processamento de alimentos de origem animal em si, como carne, ovos e outros laticínios, são pequenas em comparação – cerca de 1 Tg do total de 65 Tg por ano.

A Ásia é responsável pela maior parte das emissões do setor pecuário, cerca de 66% do total anual.

A maioria das emissões de nitrogênio ocorre nas regiões do Sul, Leste e Sudeste da Ásia, além da América Latina e Caribe, dado o alto número de animais mantidos em sistemas mistos e grandes áreas de pastagem.

Na maioria dos países da Ásia Oriental, as altas emissões de NH3, N2O e NO3 são explicadas pela grande concentração de animais em fazendas de grande porte e fazendas de suínos no quintal.

As emissões de nitrogênio associadas ao esterco utilizado para o cultivo de alimentos e produtos não alimentícios são agregadas. Estima-se que a liberação de N2 para a atmosfera advinda de sistemas de gerenciamento de esterco são de cerca de 8,3 Tg de nitrogênio por ano e não são mostradas aqui. Todos os números são expressos em teragramas de nitrogênio por ano
a) Distribuição espacial das emissões de N2O. b) Distribuição espacial das emissões de NH3. As emissões são agregadas para todas as espécies pecuárias e consistem em emissões de N2O e NH3 que ocorrem na produção de ração e na produção animal (sistemas de manejo de esterco) por hectare de terra usada para produzir ração

As emissões também estão associadas ao descarte irregular de esterco e altas taxas de aplicação de fertilizantes sintéticos.

A transição da Ásia para fazendas maiores que produzem mais esterco do que pode ser reciclado na área circundante – nas quais utiliza-se o fertilizante sintético – resulta em altas emissões por unidade de área terrestre.

“O setor pecuário contribui para os fluxos globais de nitrogênio através da aplicação de fertilizantes sintéticos à base de nitrogênio, do manejo e acúmulo de esterco e do transporte de produtos ricos em nitrogênio, como alimentos e esterco”, dizem os pesquisadores em seu relatório.

Dar incentivos aos agricultores para coletar, transportar e reciclar esterco para as lavouras disponíveis poderia ajudar a reduzir as emissões de nitrogênio, embora isso seja muitas vezes limitado por altos custos de transporte, acrescenta a equipe de pesquisa.

A equipe pede a criação de uma iniciativa global para combater a poluição por nitrogênio, com representantes dos setores público e privado, da sociedade civil, da academia e de outras partes interessadas da cadeia produtiva e do agronegócio.

“Tal iniciativa deve fornecer uma plataforma de diálogo, com bases científicas, sobre políticas para mitigar a poluição por nitrogênio do setor pecuário.

“Essa abordagem integrada também ajudaria a lidar com as muitas compensações e contrapartidas entre a gestão de nitrogênio e outras metas.



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