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Coronavírus e mudança climática: quando duas crises se encontram

Compartilhe:     |  6 de março de 2020

O surto de covid-19 gerou retração das atividades econômicas na China e uma consequente redução das emissões. Há quem veja aí a confirmação de que seria possível conter a produção global em favor do clima.

A China, maior emissora de gases de efeito estufa do mundo, não planeja cortar suas emissões num futuro próximo. No contexto do Acordo do Clima de Paris, o país prometeu atingir seu pico de emissões até 2030. Portanto, ao longo da próxima década elas só vão aumentar.

Agora, de repente, essa colossal economia movida a carvão mineral cortou em 25% os gases emitidos, segundo números compilados por Lauri Myllyvirta, do Centro de Pesquisa sobre Energia e Ar Limpo da Universidade de Helsinque. Não por causa da crise climática, mas devido à emergência de saúde pública causada pela doença covid-19: “É bastante inédito uma coisa assim acontecer praticamente do dia para a noite”, comentou à DW.

Desde o fim de janeiro, Wuhan, a cidade da província de Hubei com 11 milhões de habitantes no centro do surto do novo coronavírus, está isolada. Com os negócios e fábricas da província fechados e centenas de milhões de cidadãos por todo o país paralisados pelas abrangentes restrições de viagem, as imagens de satélites da Nasa mostram uma China praticamente limpa de óxido nitroso.

Por todo o mundo, a aviação está prevendo perdas significativas: a companhia britânica Flybe entrou em colapso, eventos esportivos e conferências internacionais foram cancelados, e escolas, fechadas. Economistas advertem contra possível recessão na Alemanha e no Japão, importantes parceiros comerciais da China. Há previsões de que o crescimento global desacelerará, enquanto a demanda por petróleo tem caído mais rápido do que em qualquer outra época, desde o crash financeiro de 2008.

Bom para o planeta, bom para a economia?

Tudo isso parece ser boas novas para o planeta – pelo menos no curto prazo. “Suponha que você seja um tomador de decisões e esteja pensando no que fazer para reduzir as emissões: você acabou de receber uma ótima instrução”, comenta Amy Jaffe, diretora do programa de Segurança Energética e Mudança Climática do Conselho de Relações Exteriores (CFR, na sigla em inglês).

A seu ver, o vírus está exigindo que a humanidade mude seus hábitos de maneiras que poderão constituir uma contribuição de mais longo prazo para a proteção climática: trabalhar de casa, videoconferências, jornadas semanais mais breves ou horários de escritório alternados para reduzir o tráfego.

As companhias também poderão concluir que o que é bom para o planeta – a produção localizada – é um modo sensato de proteger suas cadeias de abastecimento de todo tipo de risco, tais como os eventos meteorológicos extremos relacionados à mudança climática.

“Elas realmente precisam pensar sobre todos esses eventos, que poderiam realmente arruinar suas cadeias de abastecimento, e sobre o que vão fazer para torná-las mais resistentes”, observa Jaffe.

Ainda assim, a principal parcela das reduções de emissões das últimas semanas na China vem de uma desaceleração da manufatura, e isso é algo que poucos políticos defenderiam como política oficial, fora de uma crise imediata.

Myllyvirta, da Universidade de Helsinque, relata que na China a pressão para retomar os negócios normalmente é tão grande que há notícias de governos locais ordenando que fábricas sem empregados coloquem suas máquinas para funcionar – na esperança de que seus superiores vejam o consumo de eletricidade como um sinal de recuperação.

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Depois da crise, a intensificação

Após a crise financeira de 2008, “que também resultou numa queda dramática das emissões na China e numa melhora significativa da qualidade do ar, pois os setores exportadores também despencaram”, Pequim lançou um gigantesco programa de estímulo centrado em construções, provocando um salto nas emissões.

Histórias como essa não são um bom sinal para o clima num cenário pós-crise, quando o país está ansioso para colocar a economia de volta em andamento. Myllyvirta antecipa que o investimento estatal nas chamadas “indústrias de chaminés”, visando manter a meta nacional de crescimento, poderá gerar emissões que mais do que cancelarão as reduções das últimas semanas.

Ele espera que, em vez disso, a China opte por um caminho de crescimento mais lento, “de alta qualidade”, baseado em serviços, consumo doméstico e investimento em tecnologia verde e fontes de energia renováveis. Outros argumentam que fomentar o consumo sempre representa um custo para o planeta, e que a obsessão global pela expansão do PIB faz pouco mais sentido do que botar fábricas vazias para funcionar só para manter as cifras no alto.

“A única hora em que vemos as emissões se reduzirem significativamente é quando os países – ou o globo – entram em recessão”, diz Jon Erickson, do Instituto Gund da Universidade de Vermont, que estuda vetores de doenças infecciosas emergentes em relação à mudança climática. “Esses momentos realmente indicam a que ponto as emissões de gases de efeito estufa estão atadas ao crescimento econômico”, completa.

Embora sejam boas para o clima, recessões são terríveis para a população, sobretudo para aqueles que menos se beneficiam das economias baseadas em combustíveis fósseis. Entre os mais duramente atingidos pela reação de Pequim ao coronavírus, estão os trabalhadores migrantes de baixa renda que já levam vidas precárias.

Coronavírus como oportunidade

No entanto, os defensores de uma contração controlada da atividade econômica a fim de proteger o clima creem que choques como o atual surto servem para ilustrar as alternativas radicais que a humanidade tem diante de si.

“Não queremos nunca ter que agir em modo de crise”, diz Erickson. Em vez disso, temos “uma janela de cinco a dez anos para transformar completamente a economia, de forma a poder reduzir o pior lado da contração, para protegermos os mais vulneráveis”.

Caso isso soe ridiculamente otimista, as últimas semanas sugeriram que o mundo é capaz de agir rápido e em grande escala quando uma crise é considerada suficientemente urgente. “Se tratarmos verdadeiramente o clima como emergência – como estamos tratando esta pandemia – precisamos ter um nível semelhante de coordenação internacional, a começar com a rápida redução dos investimentos em combustíveis fósseis”, aconselha Erickson.

Transmitindo-se de pessoa a pessoa e enviando tremores econômicos por todos os seis continentes, o coronavírus enfatizou quão estreitamente interconectada é nossa comunidade global.

A reverberação ao longo das cadeias de abastecimento também revela nossa responsabilidade coletiva pelas emissões, uma vez que as fábricas da China suprem negócios e consumidores do Ocidente. Negligenciar essa responsabilidade pode acarretar crises muito mais dolorosas do que qualquer outra já vista até o momento.

Contando mais de 3 mil vítimas mortais em todo o planeta, a covid-19 ainda parece muito menos letal do que os combustíveis fósseis, os quais – segundo um estudo para o Greenpeace, do qual Myllyvirta é coautor – são responsáveis, a cada ano, por 4,5 milhões de mortes relacionadas à poluição atmosférica, sem considerar os impactos climáticos.

No entanto os cientistas alertam que condições climáticas mais quentes e úmidas estão elevando a probabilidade de tais epidemias, e ninguém sabe quão mortal será o próximo surto. “Esta é uma oportunidade para falar de estabilização econômica e redução planejadas”, propõe Jon Erickson. “A economia vai se contrair, bater em seus limites, cair em colapso por si só. Isso é o que vai doer mais.”



Fonte: Deutsche Welle - Ruby Russell



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