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Coronavírus expõe desigualdade social e aumenta riscos ao meio ambiente

Compartilhe:     |  18 de março de 2020

Em tempos de quarentena e autoisolamento para conter o avanço da pandemia causada pelo coronavírus, imagens de supermercados lotados e carrinhos abastecidos com pacotes de papel higiênico e alimentos não perecíveis viralizaram no mundo. Gôndolas vazias e o desaparecimento de álcool etílico e em gel das prateleiras ajudaram a alimentar o clima de pânico em diferentes cidades com casos confirmados da Covid-19, como em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Para o agrônomo e gerente de certificação agrícola do Imaflora, Luis Fernando Guedes Pinto, a crise do coronavírus trouxe à tona a agenda da desigualdade. “Quem tem mais capital, um porta-malas maior, uma casa para estocar mais coisas, consumirá mais. Quem só conseguir carregar uma sacola no ônibus e não tiver onde guardar, terá uma situação mais precária”, ponderou. O ideal é consumir o mínimo necessário para que haja estoque suficiente para todos. “Se o sistema de saúde tem que funcionar para todo mundo, o mesmo pensamento tem que prevalecer na hora de comprar comida ou papel higiênico. É uma questão de planejamento e solidariedade”, afirmou. O agrônomo também criticou a falta de políticas públicas para garantir o abastecimento de alimentos básicos.

Para ele, os privilégios das classes mais altas automaticamente protegerão as pessoas com maior poder de compra. “Poder circular dentro de um carro, assistir televisão em casa, comprar no cartão de crédito, pedir um delivery, entre diversos outros privilégios, diminuem a exposição dos mais ricos ao vírus. Quem não tem tudo isso terá que sair para a rua normalmente”, declarou.

Segundo Pinto, o comportamento de parte das pessoas nos comércios demonstra o instinto de sobrevivência. “No curto prazo, o instinto tem um impacto negativo no meio ambiente e na própria sobrevivência a longo prazo, pois poderão faltar produtos no futuro. O impacto coletivo é mais amplo”, afirmou. Além disso, o pensamento focado apenas na sobrevivência ignora os outros aspectos sobre um produto, como a origem e a forma como foi gerado. “A carne do desmatamento, por exemplo, voltará a ser consumida normalmente. O consumidor deixará de pensar no agrotóxico. A prioridade será apenas ter para sobreviver”, disse.

Em comparação a outras crises do passado, como a do apagão, em 2001, e a crise hídrica, de 2014, agora há a mesma expectativa sobre a mudança no padrão de comportamento. “Após as situações anteriores, a tecnologia evoluiu, temos dispositivos e aparelhos mais econômicos, mas os hábitos dos cidadãos não mudaram. O coronavírus é mais uma oportunidade para consumir menos e perceber que precisamos de poucas coisas para sermos felizes e sobrevivermos”, explicou.

Outra tendência que deverá ser confirmada é a redução de emissões de gases de efeito estufa, pelo cancelamento em massa de voos nacionais e internacionais, paralisação de indústrias e quarentenas. “Contudo, a redução não será porque mudamos a agricultura ou paramos de desmatar. Às vezes as crises econômicas parecem ter efeitos ambientais positivos, mas, na verdade, deixamos de consumir por falta de oportunidade, não porque mudamos a qualidade ou o padrão de consumo”, disse.

Para o agrônomo, a escassez pode ser um momento para entender que os recursos são finitos. “A comida, o livro, o carro, a energia, todas as coisas vêm de fontes escassas. Podemos investir em uma reeducação e rever os padrões de necessidade para comprarmos efetivamente somente aquilo que precisamos”, afirmou.



Fonte: Veja - Jennifer Ann Thomas



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