Crônicas e Poesias

Haikais

Compartilhe:     |   18 de abril de 2021

Tarde em Tambaú Restos de nuvens São bailados de andorinhas

Não me comoveu A morte daquela noite. O galo cantou

Relógio de meu pai. Na parede, inerte, Fala-me de todas as horas.

Praia do Jacaré: O sol cansado, deitou-se E adormeceu nos braços-de-mar.

Vestido molhado Colado nas coxas: Rio perene

Quem tem boca Vá à fome Do grito que o consome.

Estalactites. Lágrimas da terra quando chora por dentro.

Pássaros se recolhem. Bois sentados mastigam a tarde morta.

A Amazônia freme esvaindo em líquido seu sangue branco.

Na colheita de laranjas mulheres lentamente colhem a tarde bem madura.

Copa do Mundo: o coração perde a forma quando em bola se transforma.

Chuva passando tarde escurecendo… É tempo de tanajura!

Frondoso tamarindo. Em seu lugar vazio verdes lembranças.

No céu, quantos trovões!! Gozos espalhafatosos das nuvens quando cruzam.

Noite de primavera. Um fruto caiu no lago e amassou a lua.

Fogão de lenha carne seca, pão assado e a brancura de Júlia.

Baleias dançam de saias franjas de espuma, alfaias e sem nenhum balear.

Sob o sol poente engolindo as suas sombras: camponeses retornam.

Cai a tarde em Tambaú. Restos de nuvens são bailados de andorinhas.

Pintassilgo no terraço cantando ao amanhecer. Meu relógio de parede.

Um gato dorme sobre a balança: sono pesado.

A moça nubente resolvida, despe-se: mais um sim

À tarde, no porto Eles se amavam E ficavam a ver navios.

Um músico sentado na praça Soprava a noite: O sono tocou-lhe sem dó.

Saudade dentro amolada Corta qual bisturi: Hemorragia interna.

A solidão dessa dor Ainda fala o peito: Silêncio de bronze.



Fonte: Ambiente de Leitura Carlos Romero - Saulo Mendonça - Escritor, poeta e haikaista

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