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Da banha ao porco ‘light’, conheça a evolução da genética suína

Compartilhe:     |  10 de dezembro de 2014

Se hoje os suínos são criados principalmente para a produção de carne, décadas atrás esse cenário era diferente. Depois de anos de melhoramento genético, os animais ganharam músculo, perderam gordura e mostram um perfil bem diferente de quando chegaram a terras brasileiras.

Os porcos foram introduzidos no Brasil em 1532, por Martin Afonso de Souza. Vindas de Portugal, as primeiras raças que desembarcaram em solo brasileiro foram a Alentejana, Transtagana, Galega, Bizarra, Beiroa e Macau. Essas deram origem às chamadas raças nacionais como o Piau, Tatu, Canastra, Nilo, Caruncho, Pereira e Pirapitinga.

Em 1958, foi criada a Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS), que marca o início do controle genealógico dos suínos e importação de raças exóticas. O objetivo era melhorar a produtividade e aumentar a produção de carne, já que a banha, principal produto das raças nativas, começava a perder espaço para os óleos vegetais. Duroc Jersey, Wessex, Hampshire e Montana foram algumas das raças que entraram nesse primeiro momento. “Nesse ponto, o sistema de monitoramento era importar reprodutores dos Estados Unidos e Europa e cruzar com os mestiços”, conta Elsio Antonio Pereira de Figueiredo, pesquisador da Embrapa Suínos e Aves.

Em 1970, foi introduzido em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo o Teste de Progênie, controlado pelas associações de criadores, que marcou o início do melhoramento genético em território nacional. O teste avalia o potencial genético dos pais, especialmente dos machos, por meio do desempenho e da carcaça dos filhotes.

suínos_porco (Foto: Rogério Albuquerque/Ed. Globo)

Segundo Elsio, por volta de 1990, começam a entrar no país empresas de genéticas com programas mais objetivos de melhoramento, fazendo uso de seleção pelo Blup, técnica estatística usada para estimar o valor genético dos reprodutores matrizes baseada na informação de produção. “Com isso vários programas no mundo – na Dinamarca, Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, Alemanha e Holanda – começaram a desenvolver material genético melhor do que existia e o comércio começou a aumentar, via sêmen congelado e reprodutores”, afirma.

“Hoje é bem diferente. As iniciais – europeias do tronco ibérico – eram tipo banha, tirada para se usar na cozinha, e tinham menos carne. Quando começaram a usar óleo de soja, a banha perdeu mercado e esse tipo de porco começou a dar prejuízo. Foi aí que começou a seleção para carne”, diz Figueiredo. Segundo ele, atualmente, as raças ganharam em qualidade e fornecem pelo menos 58%. Antes, o valor era de cerca de 40%. Além disso, as porcas que produziam de 8 a 10 leitões por parto, hoje podem alcançar 13 filhotes.

De acordo com o pesquisador da Embrapa, atualmente, as raças são dividas entre aquelas criadas para produzir porcas e as destinadas a cachaços (porco reprodutor). As raças de porcas são selecionadas pelo número total de leitões nascidos, peso da leitegada desmamada até 21 dias, ganho de peso e espessura do toucinho. Já as de machos são escolhidas pelo ganho de peso, conversão alimentar (necessidade alimentar por unidade de ganho de peso) e pela espessura do toucinho, pela qual é possível calcular a quantidade de músculo (carne magra) na carcaça.

suínos_embrapa (Foto: Embrapa)

Suíno light

Com a mudança de perfil dos suínos no país, a Embrapa decidiu começar a trabalhar com linhagens, buscando reduzir a espessura do toucinho. Em 1996, lançou a primeira: a MS58, que, quando cruzada, resultava em um carcaça com 55% de carne. A linhagem ficou por volta de quatro anos no mercado. A segunda geração do chamado ‘suíno light’ (MS60) já veio sem o gene halotano, responsável pelo estresse dos animais terminados. Tanto o MS58 quanto o MS60 eram abatidos com 90 quilos. “A espessura do toucinho era grande e se passasse de 90 quilos ficava muita gordura”, ressalta o pesquisador.

Em 2008, a empresa lançou o MS115, terceira geração do ‘suíno light’ que pode ir para o abate com 115 quilos mantendo a mesma conversão alimentar da versão de 90 quilos. “Isso é importante, porque quando aumenta o peso, a carne, a conversão alimentar piora”, conta Figueiredo. Além disso, o MS115 tem carcaça com até 58% de carne no cruzamento.

Em setembro, durante a Expointer, no Rio Grande do Sul, a Embrapa lançou a MO25C, raça de porcas. A linhagem tem 25% de raça ibérica, o que permite o uso em sistemas menos tecnificados e sofisticados. “É mais rústica, uma carne de melhor qualidade para venda in natura. Hoje, as carnes estão muito duras, secas, essa não. É um produto bom para fazer salame, copa e atender restaurantes e pequenas agroindústrias”, diz o pesquisador.

A MS115 e a MO25C são as únicas linhagens comercializadas no momento pelo Embrapa. Segundo Figueiredo, o mercado de melhoramento genético de suínos vêm se mantendo, enquanto o de aves está diminuindo. “Nos suínos ainda tem espaço para produtores de material genético, mas é preciso ter qualidade, porque já reduziu muito. Só se mantêm as eficientes e as das companhias estrangeiras”.



Fonte: Revista Globo Rural



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