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Da ora-pro-nóbis, o creme anti-inflamatório para tratar psoríase e outros problemas

Compartilhe:     |  9 de dezembro de 2020

ora-pro-nóbis é para nós a Rainha das PANCs dada a sua popularidade e versatilidade na cozinha. Recentemente descobrimos uma receita de bala feita com ela em uma tese de doutorado. Mas a novidade de hoje é um creme feito da planta, com poderes cicatrizantes e anti-inflamatórios que poderia abrir portas para novos usos da ora-pro-nóbis, desta vez na indústria farmacêutica e de cosméticos. Quem sabe?!

Nícolas de Castro, doutor em Genética e Biotecnologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora, MG, se inspirou no conhecimento popular sobre a ora-pro-nóbis para estudar suas propriedades medicinais e desenvolver um creme anti-inflamatório e cicatrizante.

O creme que recebeu o nome de INFLATIV, tendo como ingrediente principal a ora-pro-nóbis, teria a vantagem de ser melhor tolerado em tratamentos prolongados, causando menos reações adversas que as pomadas disponibilizadas no mercado.

Pereskia aculeata, nome científico da planta, é muito conhecida pelo povo mineiro que a usa na culinária por ser um alimento super rico em proteína e ferro, tanto que é conhecida como carne de pobre. Mas muito além de seus benefícios nutricionais, essa planta alimentícia não convencional é também medicinal.

Conversamos com Nícolas para saber o que ele descobriu sobre a ora-pro-nóbis e se ele poderia dar uma receitinha caseira do creme anti-inflamatório, cicatrizante.

Nícolas, conta pra gente como você descobriu a ora-pro-nóbis e por que se interessou em estudá-la.

Quando iniciei minha trajetória acadêmica, tinha o interesse de estudar novas alternativas para o tratamento de processos inflamatórios. Minha orientadora, Dra. Elita Scio, também da UFJF, me disse que tinha uma espécie plantada no seu sítio que diziam ser anti-inflamatória e cicatrizante. Não encontrei na literatura científica nenhuma pesquisa sobre essa espécie quanto ao seu potencial anti-inflamatório e, a partir daí, nos interessamos por pesquisá-la para entendê-lo.

O interesse veio não somente do uso popular da planta, que é sempre um indicativo importante, mas também pelo fato de ela ser utilizada como um alimento, pois isso sugere baixa toxicidade. Essas características fazem dela uma planta ideal a ser estudada quanto ao seu potencial farmacológico.

Quais “novos poderes” você descobriu sobre essa planta?

Sobre os novos poderes, verificamos recentemente que sua atividade anti-inflamatória tem potencial para o tratamento de psoríase. A psoríase é uma inflamação na pele, mas tem suas peculiaridades e, por isso, é de difícil tratamento.

Além disso, verificamos uma atividade antioxidante relevante que, além de contribuir para reduzir a inflamação, pode contribuir para retardar o envelhecimento cutâneo.

As substâncias que extraímos parecem também auxiliar na hidratação da pele. Seu poder cicatrizante é bastante significativo e nos surpreendeu muito.

Quais potenciais você vislumbra na ora-pro-nóbis para uso cosmético ou terapêutico em tratamentos de pele?

Acredito muito na ora-pro-nóbis e no INFLATIV. Seu potencial é relevante diante de diferentes tipos de inflamação de pele, mas mais particularmente para a dermatite de contato.

O fato de não ter apresentado nos ensaios pré-clínicos certos efeitos comuns aos anti-inflamatórios disponíveis pode ser uma vantagem importante para o creme que produzimos.

Seu poder cicatrizante surpreende, e o tratamento de feridas de pele ainda hoje é de difícil manejo.

O creme INFLATIV está sendo comercializado?

Para que um produto possa ser comercializado é necessária a realização de ensaios em seres humanos. Por enquanto, o máximo que conseguimos fazer foi estudar o INFLATIV em animais de experimentação, e acreditamos que os resultados são promissores.

As pessoas têm uma falsa ideia de que o que é natural não faz mal, mas isso é um grande equívoco. As substâncias que extraímos da ora-pro-nobis são específicas e estão concentradas no creme para que os efeitos que verificamos sejam possíveis, e é fundamental confirmar se realmente há eficácia e segurança para sua utilização na prática clínica.

Dá para fazer o creme em casa?

Não é possível fazer o creme que criamos em casa, uma vez que para a obtenção das substâncias ativas da ora-pro-nobis nós utilizamos solventes e técnicas que só podem ser executadas em laboratório. Se o modo de extração for diferente do nosso, os constituintes químicos a serem extraídos também serão diferentes ou estarão em concentrações diferentes. Assim, não é possível saber se com outras técnicas, incluindo caseiras, os efeitos serão os mesmos.

Você pode dar uma receita caseira de creme cicatrizante feito de ora-pro-nóbis?

Bem, acredito que para se aproximar tanto quanto possível do que fizemos em laboratório, as folhas de ora-pro-nobis poderiam ser maceradas no azeite com auxílio de um pistilo, ou outros óleos, como óleo de girassol.

Deixar as folhas macerando por uns dois dias. Após, poderia ser feita a aplicação na pele.

Popularmente, costuma-se fazer extração com água; no entanto, acredito que com a água não iremos extrair os compostos anti-inflamatórios, mas poderia servir como um cicatrizante.

Para facilitar a aplicação do extrato oleoso, poder-se-ia comprar qualquer base de creme sem nenhum princípio ativo em uma farmácia de manipulação e misturar, simplesmente. Mas cuidado: não temos a comprovação científica de que dessa forma a aplicação sobre a pele será eficiente e que não haverá nenhuma reação prejudicial com essa receita caseira. Ressalto que os nossos estudos foram realizados com o INFLATIV.

Nícolas de Castro teve seu trabalho publicado na revista científica Journal of Pharmacy and Pharmacology junto com outros pesquisadores. Viva a pesquisa brasileira e viva a biodiversidade do nosso país!

Lembramos que o uso do cataplasma, ainda que de conhecimento popular como remédio caseiro, pode causar interação medicamentosa se quem o usar fizer uso frequente de outros medicamentos. Consultar um médico antes de se automedicar, ainda que com ervas e plantas, é sempre um bom conselho.



Fonte: GreenMe - Daia Florios



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