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De olho na Amazônia

Compartilhe:     |  1 de agosto de 2020
Floresta Estadual do Antimary, no Acre. Foto: Cleiton Lopes/Sema.

O ano é 2002 e eu acabo de pousar em Rio Branco, Acre, para um mês de estágio na floresta amazônica. Ainda estava cursando minha graduação em Ciências Biológicas na Universidade Federal de Minas Gerais, mas a universidade entrou em greve e, depois de mais um mês de paralisação e sem perspectivas de retorno, achei que seria interessante fazer um estágio complementar.

Conhecia um professor da Universidade Federal do Acre e ele topou me receber em sua casa para um mês de estágio no seu laboratório. Para mim era a oportunidade de aprender sobre um sistema que me interessava, mas também, e principalmente, para conhecer a Amazônia.

Já conhecia o Cerrado e a Mata Atlântica. Como bom mineiro alternava, desde a infância, minhas férias entre as montanhas e o litoral (do Rio ou Espírito Santo). Mas, assim como para milhões de brasileiros, a Amazônia para mim era tão mítica quanto distante. Então criei coragem, me organizei e cheguei em Rio Branco cheio de disposição.

Meu primeiro impacto foi a umidade do aeroporto. Fomos de carro para a casa do professor e eu parecia ter jogado uma partida de futebol. Nesse mesmo dia, passamos na universidade e fomos a campo para que eu conhecesse as áreas de pesquisa e já pudesse ajudar nas coletas de dados. Um detalhe: o campo era à noite. Saímos de casa perto das 23 horas e em um local relativamente perto, pegamos uma estrada de terra para uma reserva. Não era longe da cidade a área de estudo.

Foi um mundo novo. Primeiro, nunca havia feito trabalhos de campo à noite. Muito menos em um local que não conhecia e na Amazônia. Na minha cabeça era tipo um filme do Indiana Jones; meio ridículo, mas hoje vejo com carinho essa minha relação romântica com a natureza. Vi tanta coisa! Aranhas mil, formigas, as famosas tocandiras – formigas enormes e agressivas, usadas em alguns rituais indígenas – um rio de formigas (as de correição) andando na mata, um ou outro marsupial e cobras. Tudo bem, apenas duas cobras em um mês, mas vi.

“Tem gente que acha que esse protagonismo da Amazônia ofusca os outros biomas. Mas não concordo.”

Depois, voltei à mata muitas vezes, de dia, de noite, já estava habituado, nadando no igarapé para refrescar, reconhecendo os sons da floresta… mas um mês passa rápido e é pouco. Voltei para Belo Horizonte cheio de aprendizados e com uma experiência incrível.

Essa foi minha primeira experiência na Amazônia. Por isso, quando vejo toda essa proeminência que a Amazônia tem nas discussões sobre a agenda ambiental brasileira, quando vejo governos, empresas e investidores internacionais demandarem uma cadeia de produção sustentável na Amazônia, não me assusto. Tem gente que acha que esse protagonismo da Amazônia ofusca os outros biomas. Mas não concordo. Só quem já esteve no meio da floresta entende que ecossistema é aquele. É realmente algo único.

Para minha sorte – para um profissional em formação – e azar da biodiversidade e comunidades locais, a região que primeiro conheci na Amazônia estava sujeita à muitas modificações, especialmente associadas à pecuária. O projeto do qual participei estudava exatamente o efeito dos diferentes estágios de recuperação da floresta sobre a biodiversidade. Havia áreas de floresta íntegra, mas também outras com muita alteração e bordas de mata, depois das quais só se via área queimada e troncos caídos.

A Amazônia é enorme e isso faz com que desmatamentos homéricos que lá ocorrem pareçam menores em escala. Mas não são. Vi de perto como a floresta se modifica pela ação do homem. Vi de perto como as pessoas dependem dos produtos que a floresta entrega. Por isso, vejo com bons olhos a ideia de um programa de desenvolvimento regional para a região Amazônica. Recentemente, o vice-presidente do Brasil conversou com gestores de fundos internacionais de investimento e bancos privados no Brasil para buscar apoio a iniciativas de restauração de pastagens degradadas e reflorestamento na Amazônia. É importante. Aliar a conservação e restauração do que foi degradado ao desenvolvimento de uma economia baseada em produtos da biodiversidade me parece um caminho promissor.

Como já mencionei aqui, a bioeconomia pode nos ajudar a fazer uma transição crítica para uma economia mais sustentável. Para além disso, é preciso trazer sustentabilidade para as cadeias de valor e produção e não só na região Amazônia. A pressão de investidores, do setor empresarial, de ONGs e governos estrangeiros é bem-vinda e pode fazer a diferença. Mas não pode ficar só no papel, nas cartas abertas e nas reuniões. Vamos ver como o investimento ocorre e como possíveis projetos vão de fato gerar riqueza de forma que ela seja distribuída de forma justa. Dessa vez, felizmente ou infelizmente, minha visão não será tão romântica quanto aquela de um graduando das montanhas imerso em uma floresta inundada.



Fonte: ((o))Eco - Rafael Loyola



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