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De olho nos riscos dos perigos naturais

Compartilhe:     |  23 de agosto de 2020

Por Carlos Cortés, superintendente de engenharia de riscos da Zurich – 

Grandes desastres naturais nos proporcionam aprendizados valiosos sobre como ter mais resiliência na gestão de riscos, pois aprender com o passado de maneira sistemática é muito relevante. Embora a mortalidade causada por esses eventos tenha diminuído na última década, na maioria dos lugares não houve sucesso significativo em deter as perdas econômicas, nem os reflexos no bem-estar geral da sociedade.

A crise causada pela Covid-19 é um lembrete de que precisamos atualizar constantemente nosso olhar de cautela quando falamos de riscos, bem como refletir sobre o que mudou ou está prestes a mudar, e como podemos reconhecer melhor os indicadores iniciais para nos prevenir, nos preparar e responder a um evento – até porque mudanças climáticas e doenças infecciosas são riscos globais que não conhecem fronteiras.

Na Zurich, temos uma metodologia chamada Capacidade de Revisão Pós-Evento (PERC na sigla em inglês), que nos permite ilustrar desafios surpreendentemente semelhantes, enfrentados pelos gerentes de risco, independentemente de onde operam ou dos riscos que se deparam. E nossos pesquisadores parceiros cunharam o termo “dividendo triplo da resiliência” para explicar os benefícios de investir em resiliência, já que estudos apontam que a cada US$ 1 nela investida, evitam-se US$ 5 em perdas futuras.

O papel dos investimentos iniciais, em comparação com os custos operacionais, é um tópico recorrente das nossas análises pós-evento – e a crise da Covid-19 é um lembrete de que precisamos atualizar constantemente nosso radar de risco e refletir sobre o que mudou ou está prestes a mudar, e como podemos reconhecer melhor os indicadores iniciais para prevenir, preparar e responder a um evento.

Não podemos ser indiferentes a isso. Ainda sobre a Covid-19, os investimentos no estoque de EPIs foram vistos como custos desnecessários para uma necessidade futura incerta. Depois viu-se que essa necessidade se materializou a um custo que excedeu em muito o que seria necessário para a provisão de materiais. O estoque, no entanto, deve fazer parte de uma estratégia maior antes do evento para gerenciar o risco de uma pandemia.

Isto foi visto em muitos dos nossos PERCs anteriores, que nos ensinaram que as perguntas a fazer não são apenas “como impedir outro desastre, como o do furacão Harvey, em Houston?” ou, mais recentemente, “como evitar a segunda onda da Covid-19?”. Porém, o mais importante: “qual será a próxima crise de pandemia que poderia ser equivalente ou pior que ela?”. Também aprendemos que devemos responder a desastres sem esquecer outros riscos relevantes, e que temos que identificar proativamente eventos futuros prováveis e garantir que eles permaneçam no nosso radar.

O fato é que o processo de como custos e benefícios são calculados precisam ser revisados de forma mais moderna. Como? Por meio da integração de benefícios intangíveis, como a qualidade na tomada de decisões. Porque, no caso da Covid-19, não é o hospital sozinho que salva vidas, assim como, no caso do transbordamento de um rio, não é a altura e o comprimento do dique sozinhos que protegerão as pessoas. São fatores intangíveis adicionais, como o planejamento, o comportamento e a tomada de decisão social. Ou seja: precisamos ter uma visão mais no nível do sistema, vendo o que é bom no geral, não apenas no que é para um indivíduo, empresa ou governo.

Em situações de riscos de desastres naturais, a cobertura de seguro bem analisada acelerará a recuperação pós-evento, fornecendo fundos para ajudar na reconstrução. Devido a isso, é fundamental que as empresas entendam o nível da exposição e procurem consultoria especializada no risco de inundação para determinar a proteção física e a cobertura apropriada. Ainda hoje há empresas que ficam localizadas próximas a rios que transbordaram no passado e não contratam seguro pelo fato de elas nunca terem sido atingidas. Só é necessária uma variável diferente, como a obstrução de um bueiro próximo, como gatilho para um evento que impacte o negócio.

Ainda que o seguro tenha limitações e até empresas com cobertura descobrirão que é improvável cobrir todos os custos, dar passos à frente no tempo para mitigar o risco e facilitar a recuperação pode ajudar a reduzir os gastos pós-evento.

Como tal, o seguro deve ser considerado um elemento de resiliência financeira, sem, contudo, deixar de observar as lições do que funcionou ou não, a fim de nos prepararmos para o próximo desastre ou evento, caso ocorram.

Carlos Cortes

Carlos Cortés é superintendente de engenharia de riscos da Zurich Seguros, onde trabalha desde setembro de 2011. Na função, ele lidera uma equipe de Engenharia de Risco, que fornece consultoria de gerenciamento de riscos para clientes locais e globais. Engenheiro formado pela Universidad Tecnológica de México, Cortés possui especializações em Gestão de Projetos pela Fundação Dom Cabral e em BCM pela Buckinghamshire New University, no Reino Unido, e um MBA pela Universidade de São Paulo (USP).



Fonte: Envolverde



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