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Desastres naturais e civilização humana, artigo de Roberto Naime

Compartilhe:     |  22 de outubro de 2016
nundação em Santa Catarina, outubro/2014. Foto: Defesa Civil de Santa Catarina/Divulgação
Inundação em Santa Catarina, outubro/2014. Foto: Defesa Civil de Santa Catarina/Divulgação

 

[EcoDebate] Em agosto de 2010, o vulcão Sinabung, na ilha indonesiana de Sumatra, entrou em erupção e retirou pelo menos 18 mil moradores da região.

Um mês depois, no Paquistão, chuvas torrenciais causaram o pior desastre natural da história do país, matando mais de 1.500 pessoas e deixando mais de seis milhões de desabrigados, causando bilhões de dólares de danos à infraestrutura e à agricultura.

Eventos como vulcões e inundações são fenômenos da natureza e são considerados desastres naturais quando atingem um sistema social, causando danos e prejuízos que excedam a capacidade dos afetados de conviver com o impacto.

Um desastre natural, além de causar a perda de vidas humanas, traz prejuízos materiais, econômicos e ambientais e provoca graves interrupções do funcionamento de uma comunidade ou de uma sociedade.

São fenômenos que podem ocorrer em qualquer região do nosso planeta variando de intensidade e gravidade, dependendo de elementos próprios da dinâmica da natureza e das intervenções humanas.

Matthew Kahn, no artigo “The death roll from natural disasters: the role of income, geography, and institutions” (Universidade Tufts e Universidade Stanford, 2003), analisou grandes desastres naturais ocorridos em 73 países (pobres, médios e ricos), entre 1980 e 2002.

Concluiu que os mesmos se distribuíram equitativamente, mas afetaram as populações de forma diferente.

Por exemplo, no período estudado, a Índia teve 14 grandes terremotos, nos quais morreram 32.117 pessoas, enquanto que nos Estados Unidos ocorreram 18 grandes terremotos, que causaram 143 mortes.

Alguns fenômenos, como movimentos de placas tectônicas que causam os terremotos, possuem grande aleatoriedade, mas ocorrem principalmente em áreas situadas em bordas de placas, outros, como secas e inundações, podem ser previstos com alguma antecedência, a partir de modelos climáticos cada vez mais sofisticados.

Se uma região está sujeita a terremotos, ciclones ou chuvas muito intensas, por exemplo, sua população estará mais exposta a perigos, porém, o risco não será o mesmo para todos.

O relatório “Reduzindo o risco de desastres: um desafio para o desenvolvimento”, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), define que o risco é a probabilidade de perda esperada para uma área habitada em um determinado tempo, devido à presença iminente de um perigo.

Elaborado por especialistas de todo o mundo, o documento aponta que, no período de 1980 a 2000, quase 75% da população mundial vivia em regiões onde ocorreu pelo menos uma vez um fenômeno como terremoto, ciclone tropical, inundação ou seca.

Esses eventos causaram a morte de mais de 1,5 milhão de pessoas. A vulnerabilidade de uma população ante um desastre natural reflete condições sociais, econômicas e geográficas, que afetam a capacidade dessa população para responder ao risco.

Como o conceito de desastre natural está vinculado aos prejuízos por ele causado, o impacto depende da capacidade da comunidade de suportar ou superar os danos.

Assim, quanto mais pobre a população, mais ela sofre com os desastres naturais. Isso explicaria porque não existe uma relação direta entre número de desastres naturais e número de pessoas mortas ou afetadas pelos eventos.

Concentração de renda, baixa escolaridade, acesso precário a informações sobre os riscos, falta de organização política dos segmentos desfavorecidos da sociedade, ausência de políticas públicas eficientes que permitam a definição e implantação de ordenamentos no uso de terras urbanas e rurais, são alguns dos muitos fatores que contribuem para uma exposição maior de populações pobres a possíveis desastres naturais.

Mas isso não significa que não exista percepção do perigo, nem tampouco que apenas fatores sociais e econômicos condicionam a permanência de populações em áreas de risco.

Rafaela Vieira, arquiteta e professora da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALE) e da Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), entrevistou moradores de uma área com grande incidência de deslizamento, localizada próxima ao centro de Blumenau (SC).

Na cidade onde predomina um relevo acidentado e que tem apresentado um forte crescimento populacional, com a ocupação das encostas sendo geralmente associada à formação de áreas de exclusão social. Ela verificou que todos sabiam do perigo de viver em áreas íngremes e que um deslizamento de encostas pode causar destruição e mortes, “mas a maioria não reconhecia o próprio risco a que estava exposto”.

Na pesquisa, que integrou seu doutorado em geografia defendido na Universidade de Santa Catarina (UFSC), a arquiteta trabalhou com conceitos propostos por Ian Burton, Robert W. Kates e Gilbert F. White, organizados no livro “The environment as hazard” (1993).

Se afirma a partir de estudos em 18 países, que a percepção do perigo se dá de diferentes formas e influi na maneira como as pessoas enfrentam os problemas, como habitam o lugar e como se relacionam entre si (indivíduos e coletividade) e com o ambiente (indivíduos e coletividade com o ambiente).

Estes autores consideram que existem quatro estágios na percepção, sendo absorção, aceitação, redução das perdas e mudanças de uso e de localização. Estes estágios estão separados por três limiares, que são conhecimento, ação e tolerância.

Em sua pesquisa, Rafaela constatou que os moradores da área estudada afirmavam que o deslizamento não aconteceria onde moram, apesar de a grande maioria ser residente em áreas de suscetibilidade a deslizamentos. Não existe este determinismo social, nem existencial.

“De fato, quando mais próximos se encontravam do risco, maior era a negação desse risco”, diz ela. Segundo a professora, “quanto menor a renda, mais rapidamente as pessoas que vivem em uma área de risco atingem o limiar do conhecimento; mas para chegar à ação, outros fatores interferem fortemente como os laços afetivos ao lugar”.

Rafaela confirmou o que Burton e seus colaboradores já haviam apontado, de que “há uma incapacidade humana para imaginar um desastre natural em um meio ambiente familiar”.

** Matéria original de Maria Leonor Assad, in Cienc. Cult. vol.63 no.1 São Paulo Jan. 2011, ampliada e comentada.

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.



Fonte: Portal EcoDebate



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