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Desmatamento está estressando os animais, alertam cientistas

Compartilhe:     |  20 de fevereiro de 2021

O homem está “potencialmente criando focos de zoonoses” ao destruir habitats, dizem pesquisadores

Foto: Pixabay

Algumas pessoas podem estar entrando em pânico por conta da destruição desenfreada da natureza pelas nossas próprias mãos, mas nós não somos os únicos a se preocupar.

Os animais diretamente impactados pelo desmatamento parecem estar produzindo mais hormônios relacionados ao estresse, de acordo com uma nova pesquisa desoladora feita por cientistas estadunidenses.

Pesquisadores que coletaram amostras de hormônios que se acumulam na pelagem descobriram que roedores e marsupiais que vivem em pequenas áreas remanescentes da Mata Atlântica, na América do Sul, estão sob maior estresse do que aqueles que habitam áreas mais intactas da floresta.

A Mata Atlântica se estende ao longo da costa do Brasil até a Argentina e o Paraguai. É um dos mais diversos ecossistemas do planeta, perdendo apenas para a Amazônia, mas apenas uma fração da floresta original sobrevive.

“Nós suspeitamos que organismos em áreas desmatadas mostrariam maiores níveis de estresse do que animais em florestas mais virgens, e encontramos evidências de que isso é verdade”, diz Noe de la Sancha, pesquisador associado no Museu Field, em Chicago, professor adjunto de Biologia na Universidade Estadual de Chicago e coautor da pesquisa.

“Pequenos mamíferos, especialmente roedores e pequenos marsupiais, tendem a ser mais estressados, ou a mostrar maior evidência de que possuem maiores níveis de hormônios do estresse, em pequenas manchas florestais do que em maiores manchas florestais.”

Os pesquisadores disseram que a destruição do habitat de um animal pode mudar drasticamente sua vida. Ela resulta em menor quantidade de alimento e território para circular, e o animal pode entrar em contato com predadores com maior frequência ou a competição por recursos com outros animais pode aumentar.

Quando combinadas, essas circunstâncias podem colaborar para um estresse de longo prazo.

“Muitas espécies, em todo o mundo, mas principalmente nos trópicos, são pouco estudadas”, diz Sarah Boyle, professora adjunta de Biologia e chefe do Programa de Ciências e Estudos Ambientais na Rhodes College e principal autora da pesquisa.

“Não há muito conhecimento sobre muitos desses animais quanto a seus níveis normais de hormônios”.

Os pesquisadores observaram que a Mata Atlântica muitas vezes é ofuscada por sua vizinha, a Floresta Amazônica, mas ainda assim é a segunda maior floresta da América do Sul.

Ela já cobriu cerca de 1,2 milhões de quilômetros quadrados, uma área maior do que os estados da Califórnia, Oregon, Washington e Nevada juntos.

Nos últimos 500 anos, partes da floresta foram destruídas para dar espaço a terras agricultáveis e áreas urbanas, e continua vulnerável à exploração madeireira e à expansão agrícola, especialmente a produção de soja.

Atualmente, menos de um terço da floresta original sobrevive.

É o lar de cerca de 20 mil espécies de plantas, e 450 espécies de árvores foram encontradas em apenas um hectare, de acordo com a WWF.

Assim como milhares de espécies de pássaros, inúmeros mamíferos raros, répteis e anfíbios habitam a floresta, além de onças ameaçadas de extinção, micos-leões-dourados, macacos-aranha, bichos-preguiça e papagaios-de-cara-roxa.

Os cientistas dizem que estresse não é, necessariamente, algo ruim para os animais, e, em pequenas doses, pode salvar vidas.

“A resposta ao estresse normalmente é uma tentativa de trazer seu corpo de volta ao equilíbrio”, diz David Kabelik, professor adjunto de Biologia e chefe do Programa de Neurociência na Rhodes College, e um dos autores da pesquisa.

“Se alguma coisa o perturba e pode fazer com que você se machuque ou morra, a resposta ao estresse mobiliza energia para lidar com aquela situação e trazer as coisas de volta ao estado normal. Isso permite que você sobreviva”.

Essa resposta pode ser desencadeada, por exemplo, se um animal encontra um predador. Uma enxurrada de hormônios do estresse pode ajudá-lo a fugir e, depois, os níveis hormonais voltam ao normal.

“Mas então esses animais são colocados nesses pequenos fragmentos do seu habitat, onde eles passam por períodos prolongados de estresse elevado, e isso pode levar a doenças e desregulações de vários mecanismos fisiológicos do corpo”, diz ele.

Para avaliar os impactos nos animais, os pesquisadores se concentraram em áreas da floresta no leste do Paraguai, que foram extremamente afetadas pelo desmatamento nos últimos 100 anos, quando a região foi desmatada para lenha, pecuária e produção de soja.

Para estudar os efeitos sobre os animais, os pesquisadores capturaram 106 mamíferos de áreas que variavam entre 2 acres (aproximadamente 8.000m²) e 1.200 hectares. Dois acres são aproximadamente o equivalente a um campo de rugby, e 1.200 hectares equivalem a 12 quilômetros quadrados. Os animais que eles analisaram incluíam 5 espécies de roedores e 2 espécies de marsupiais.

Os pesquisadores coletaram amostras da pelagem dos animais, já que os hormônios se acumulam nos pelos ao longo de dias ou semanas, e podem apresentar uma melhor visão dos níveis de estresse comuns do que os hormônios presentes em uma amostra de sangue.

“Hormônios no sangue mudam a cada minuto, então essa não é uma maneira precisa de avaliar se esses animais estão sob estresse constante ou se por acaso acabaram de correr de um predador um minuto atrás”, diz Kabelik.

“Nós estávamos tentando atingir algo que melhor indicasse o estresse de longo prazo. Como os hormônios do estresse do tipo glicocorticóide vão se depositando na pelagem ao longo do tempo, você consegue observar medidas de estresse a longo prazo quando analisa esse tipo de amostras”.

No laboratório, os pesquisadores transformaram a pelagem em um pó fino e extraíram os hormônios.

A equipe descobriu que os animais das áreas mais desmatadas apresentavam maiores níveis do hormônio glicocorticoide do que os animais de áreas menos desmatadas.

“Nossa descoberta de que animais em trechos de floresta menores possuíam maiores níveis de glicocorticóides não nos surpreendeu, dada a extensão do impacto que essas áreas sofreram pela perda e fragmentação da floresta”, disse Boyle.

“Essas descobertas são muito relevantes para países como o Paraguai, em particular, que vem mostrando uma acelerada mudança em suas paisagens naturais”, disse o Pastor Perez, um biólogo da Universidade Nacional de Assunção e também um dos autores da pesquisa. “No Paraguai, nós estamos apenas começando a documentar como se distribui essa diversidade de espécies que estamos perdendo. No entanto, este estudo mostra que também temos muita a aprender sobre como essas espécies interagem nesses ambientes”.

Os cientistas também descobriram que os métodos de captura desses animais contribuíam para os níveis de estresse presentes.

“É uma consideração importante que as pessoas que estão realizando esses estudos precisam entender: se eles estão capturando esses animais com vida, isso pode estar influenciando nos níveis de hormônio observados”, diz Kabelik.

O estudo não apenas esclarece como os animais respondem ao desmatamento, mas também pode levar a um melhor entendimento das circunstâncias nas quais os animais podem transmitir doenças diretamente para os humanos, segundo os pesquisadores.

“Se você tem diversos mamíferos estressados, eles podem abrigar vírus e outras doenças, e há cada vez mais pessoas vivendo nessas áreas desmatadas que podem estar em contato com esses animais”, diz de la Sancha. “Ao destruir habitats naturais, estamos potencialmente criando áreas de risco para surtos de zoonoses”.

O resultado disso tem implicações que vão muito além da Mata Atlântica sul-americana.

“Em uma perspectiva geral, isso é muito importante porque pode ser aplicável a florestas remanescentes no mundo inteiro”, diz de la Sancha. “Os trópicos abrigam a maior diversidade de organismos no planeta. Portanto, isso tem o potencial de impactar a maior variedade de seres vivos no planeta, à medida que mais e mais florestas são desmatadas. Nós iremos ver indivíduos e populações tendendo a apresentar maiores níveis de estresse”.

O estudo foi publicado na “Scientific Reports”.



Fonte: Anda - Juliana Machado



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