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Desmistificando o carro elétrico

Compartilhe:     |  23 de setembro de 2018

Resultado de imagem para carro elétricoPor Enilson Sales*

Este texto não se trata de uma apologia ao uso de energias poluentes, longe disso. Defendo, pessoalmente, o uso de energias limpas e/ou renováveis.

Mas, precisamos esclarecer o que vem sendo discutido e implementado em mercados mais desenvolvidos e o impacto destas novidades em nosso mercado.

Estamos falando do carro elétrico, vendas e influência deles no nosso dia a dia.

Estes carros são bem mais caros que os movidos a combustão, embora as publicações sugerem uma rápida substituição da frota atual. Se estas publicações estiverem certas, sofreremos uma drástica mudança com os preços dos veículos á combustão caindo rapidamente, impactando o valor de nossos estoques e alterando a atual dinâmica de avaliação de reposição e troca. Em suma, o comércio.

Vamos a alguns fatos facilmente encontrados na web:

Apenas 3% da frota mundial é de carros elétricos. Mesmo com um crescimento acelerado, a base é muito pequena para influenciar o nosso mercado pelos próximos 5 ou mais anos.

A autonomia de um caro elétrico médio é de 160km e o reabastecimento médio é de 8 horas. Isso faz com que o usuário precise reabastecer frequentemente e que só consiga programar viagens de curta distância ou em vias com vários pontos de recarga. Por exemplo: De São Paulo ao Rio (aprox 450km), o proprietário reabasteceria pelo menos 3 vezes. Se cada parada custar 8 horas o tempo médio de viagem que hoje é de 5 horas subiria para 29 horas. (5 de viagem e 24 de recarga).

Pensa-se na solução de troca de bateria a cada parada. O que reduziria o tempo de reabastecimento em 1/4. Teríamos 2 horas para troca de bateria, o que, convenhamos, é muito. A mesma viagem seria de 5h de trajeto mais 6h de recarga.

Assumindo então que o carro elétrico hoje seria apenas para uso urbano, não esqueçamos que teremos que ter pontos de recarga que comportem vários carros parados por 8 horas. Aonde seria isto? Nos locais de trabalho? Estacionamentos?

Vejam que a questão é mais complexa do que demonstram os canais de TV e as revistas de inovação.

No ano passado estive em Amsterdam. O aeroporto de Schiphol fez uma parceria com a Tesla que colocou uma frota de 167 “Tesla S” como táxi. Peguei um destes até o centro. Uma viagem bem legal. Sem barulho, boa velocidade e muita informação sobre o trânsito no percurso. Sensacional!

Acontece que para o Tesla X, novo modelo de 7 lugares usado hoje em Schiphol e bastante evoluído em recarga, a cada 500km você tem que gastar 10 horas em recarga. O que é feito no aeroporto em hangares e em horários de pouco movimento onde exigência de carros é menor. Neste caso eles usam o “DC Fastcharging Station”, Disponível apenas para grandes frotas.

Saíndo da abordagem econômica e operacional, gostaria de abordar o lado da ecologia e sustentabilidade.

O mundo discute as fontes de energia limpa e o consumo de energia de combustíveis poluentes (gasolina, óleo, gás, carvão, ou energia nuclear).

Consumimos hoje 86% de energia suja (as listadas acima). E temos um plano de migração para energia limpa para 2020, 2050 e á frente. Isto é muito bom e devemos continuar a perseguir a redução de gases na atmosfera.

Por outro lado, ao contrário do Brasil, que tem uma matriz energética mais equilibrada pela geração hidráulica, as nações desenvolvidas ancoram a sua matriz energética (85%) em termoelétricas (carvão, óleo, basicamente) e usinas nucleares.

A questão simples é: O Carro Elétrico vai ser abastecido pela eletricidade gerada por fontes sujas. A energia elétrica que chegará na tomada dos veículos foi gerada (85%) por fontes sujas. Como se alinha o discurso à pratica?

Um amigo foi à uma corrida de Fórmula E (categoria do automobilismo em que correm apenas veículos elétricos). Tudo limpo, sem barulhos ou cheiro na pista. Atrás dos boxes, um monte de “Grupos Geradores” escondidos por painéis e caminhões, queimando diesel para gerar energia (suja) nas tomadas (limpas) dos boxes. Mais uma vez nos deparamos com o discurso politicamente correto e a prática alinhada à realidade.

Assim, concluímos que: economicamente e ecologicamente estamos bem distantes deste “futuro” apregoado. A Fabricação, o uso e sobretudo o comércio de veículos ainda está distante desta transformação. O que acredito que se transforma rapidamente neste nosso tempo é a forma de comercializar este produto. Tema para um outro texto.

Portanto, meu amigos, se você quer realmente contribuir com o planeta, use: Caminhada e bicicleta para pequenos percursos. Transporte público urbano, para deslocamentos na cidade. E, compre seu carrinho, com a potência e o consumo que lhe parecer adequado às suas necessidades familiares, para percursos médios e longos, onde não forem assistidos pelo transporte de massa de boa qualidade.

Lembre-se que o futuro é muito bonito e pintado com cores maravilhosas. Mas, você vive no presente.

*Enilson Espinola Sales Souza é empresário e diretor vice-presidente da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto)



Fonte: Espaço Ecológico - Revista Fenauto



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