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Destruição desenfreada das florestas irão desencadear mais pandemias

Compartilhe:     |  7 de setembro de 2020

Pesquisadores dizem à ONU que a perda de biodiversidade permite a rápida disseminação de novas doenças de animais para humanos.

Os cientistas devem alertar aos líderes mundiais que, o crescente número de novas pandemias mortais irá afligir o planeta se os níveis de desmatamento e a perda de biodiversidade continuarem em suas atuais taxas catastróficas.

Uma cúpula da ONU sobre biodiversidade, programada para ser realizada em Nova York no próximo mês, será informado por conservacionistas e biólogos que agora já existem evidências claras que há uma ligação entre a destruição do ambiente com o aumento de surgimento de novas doenças mortais como a Covid-19.

O desmatamento desenfreado, a expansão da agricultura descontrolada e a construção de minas em regiões remotas – assim como a exploração de animais silvestres como fontes de alimentação, medicamentos tradicionais e animais de estimação exóticos – estão criando a “perfeita tempestade” para o contágio de doenças da vida selvagem para pessoas, os encarregados serão informados.

Quase um terço de todas as doenças emergentes são originadas através do processo de mudanças do uso da terra, afirma. Como resultado, cinco ou seis novas epidemias por ano podem em breve afetar a população da Terra.

“Agora há uma série de atividades – extração ilegal de madeira, desmatamento e mineração – como comércio internacional associado de carne de animais selvagens e animais de estimação exóticos, que criaram essa crise”, disse Stuart Pimm, professor de conservação na Universidade de Duke. “No caso da Covid-19, custou ao mundo trilhões de dólares e já matou quase um milhão de pessoas, portanto, é claramente necessária uma ação urgente.”

É estimado que dezenas de milhões de hectares de floresta tropical e outros ambientes selvagens estão sendo derrubados todo ano para cultivar palmeiras, gado, extrair óleo e prover acesso para minas e depósitos de minerais. Isso leva à destruição generalizada de vegetação e vida silvestre que hospeda inúmeras espécies de vírus e bactérias, muitos desconhecidos pela ciência. Esses micróbios podem então, acidentalmente, infectar novos hospedeiros, como humanos e animais domésticos.

Eventos como esse são conhecidos como spillovers (transbordamento). Crucialmente, se um vírus prospera no seu novo hospedeiro humano, eles podem infectar outros indivíduos. Isso é conhecido como transmissão e o resultado pode ser uma nova e emergente doença.
Um exemplo de tais eventos é o caso do vírus HIV, que no início do século 20 se espalhou por chimpanzés e gorilas – o quais estavam sendo massacrados para carne de caça no oeste africano – para homens e mulheres que desde então causaram morte de mais de 10 milhões de pessoas. Outros exemplos incluí a Ebola, que é transmitida de morcegos para primatas e humanos; a gripe suína de 2009 e o Covid-19, que foi originalmente passado para humanos por morcegos.

“Quando trabalhadores vêm às florestas tropicais para derrubar árvores eles não trazem comida com eles,” disse Andy Dobson, professor de ecologia e biologia evolucionária na Universidade de Princeton. “Eles simplesmente comem o que podem matar. Então isso expõe eles à infecção o tempo todo.”

Esse ponto foi apoiado por Pimm. “Eu tenho uma foto de um homem matando um porco selvagem nas profundezas da selva equatoriana. Ele era um madeireiro ilegal, ele e seus companheiros precisavam de comida então eles mataram um javali. Eles ficaram com respingos de sangue de porco selvagem no processo. É horrível e anti-higiênico e é assim que essas doenças se espalham.”

Entretanto, nem toda doença emergente é causada por um único e importante spillover evento, enfatizou o zoólogo David Redding, da Universidade Pública de Londres. “Em lugares onde árvores estão sendo cortadas, aparecem na paisagem mosaico de campos, formados ao redor de fazendas, intercalados com parcelas de mata antiga.”

“Isso aumenta a interface entre o selvagem e o cultivado. Morcegos, roedores e outras pragas carregando novos vírus desconhecidos vêm de aglomerados de florestas sobreviventes e infectam animais de fazenda – que então passam essas infecções para humanos.”

Um exemplo dessa forma de transmissão é a febre de Lassa, a qual foi primeiramente descoberta na Nigéria em 1969 e agora causa milhares de mortes por ano. O vírus espalha pelo roedor Mastomys natalenses, o qual era comum nas savanas africanas e florestas, mas agora coloniza casas e fazendas, transmitindo a doença para humanos.

“O ponto crucial é que provavelmente existem 10 vezes mais espécies diferentes de vírus do que de mamíferos”, acrescentou Dobson. “Os números estão contra nós e os surgimento de novos patógenos é inevitável.”

No passado, muitos surtos de novas doenças permaneceram em áreas contidas. No entanto, o desenvolvimento de viagens aéreas baratas mudou essa imagem, e doenças agora podem aparecer do outro lado do globo antes de cientistas perceberem completamente o que está acontecendo.

“A transmissão progressiva de uma nova doença é também outro importante elemento na história de uma pandemia,” disse Professor James Wood, chefe da medicina veterinária na Universidade de Cambridge. “Considere a pandemia da gripe suína. Nos voamos ao redor do mundo muitas vezes antes de perceber o que estava acontecendo. A conexão global permitiu – e ainda permite – a Covid-19 de transmitir para praticamente todo país da Terra.”

Em um artigo publicado no Science no mês passado, Pimm, Dobson e outros cientistas e economistas propuseram a criação de um programa para monitorar a vida selvagem, reduzir spillovers, acabar com o comércio de carne de animais silvestres e reduzir o desmatamento. Tal esquema poderia custar mais de $20 bilhões por ano, um preço que foi superado pelo custo da pandemia da Covid-19, a qual enxugou trilhões de dólares de economias nacionais por todo o mundo.

“Nós estimamos que o valor do custo para a prevenção por 10 anos seja apenas cerca de 2% dos custos da pandemia de Covid-19,” afirmam. Em adição, reduzindo o desmatamento – o qual é a maior fonte de emissão de carbono – iria também ter benefícios para a batalha contra a mudanças climáticas, adiciona os pesquisadores.

“A taxa de surgimento de novas doenças está aumentando e seus impactos econômicos também estão crescendo,” afirma o grupo. “Adiar uma estratégia global para reduzir o risco de uma pandemia irá levar à um aumento contínuo dos custos. A sociedade deve agir para evitar os impactos de futuras pandemias.”



Fonte: Anda - Júlia Faria e Castro



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