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Dia Internacional do Animal Abandonado: Brasil tem mais de 30 milhões de animais sem lar

Compartilhe:     |  15 de agosto de 2020

Hoje, dia 15 de agosto, é celebrado o Dia Internacional do Animal Abandonado. A data foi criada em 1992 e é comemorada todo terceiro sábado de agosto. A celebração tem como objetivo conscientizar sobre a importância da guarda responsável, da adoção e do cuidado adequado e afetuoso com os animais domésticos.

No Brasil, há mais de 30 milhões de animais em situação de rua e abandono. Felizmente, organizações e pessoas do bem voluntariamente se dedicam a salvar cães e gatos da rua e se engajam para que eles encontrem novos lares e famílias amorosas. Um desses exemplos é a campanha realizada pela ONG União Animal.

Sediada em Santarém, no Pará, a organização está buscando adotantes para os gatinhos que vivem no na área do Parque de Santarém. Os animais serão entregues ao novos tutores castrados, vermifugados e castrados. Interessados podem entrar em contato com a ONG clicando aqui.

Epidemia de abandonos 

A crise gerada pelo coronavírus, que já matou mais de 91 mil pessoas no Brasil, deu origem também a uma “epidemia de abandono” de animais. O cenário é desolador para cães e gatos que foram covardemente jogados nas ruas. Fome, frio, calor sem abrigo para se proteger e água para matar a sede, maus-tratos, atropelamentos, doenças, morte. Esse é o ciclo da maior parte dos animais em situação e rua.

Uma reportagem de Edison Veiga, a BBC News Brasil, abordou o sofrimento de cães e gatos descartados durante a pandemia. Em entrevista ao jornal, o diretor da ONG Cão Sem Dono, Vicente Define Neto, contou que a entidade recebe cerca de 200 e-mails por dia e que a maioria é enviada por tutores interessados em doar seus animais. O aumento é de 40% em relação aos e-mails recebidos antes da pandemia.

“É um número absurdo. E como as ONGs estão todas lotadas, certamente são animais que acabarão sendo abandonados posteriormente”, lamentou. Dentre as motivações para o abandono – que é uma prática cruel e injustificável -, estão: “a perda de emprego e gente que está indo morar de favor com algum parente e não tem como levar o animal.”

O abandono de cachorros, segundo a fundadora da ONG Cão Sem Fome, Glaucia Lombardi, aumentou cinco vezes durante a crise do coronavírus. “Estamos vivendo uma situação extremamente complicada, complexa e que não tem prazo para se normalizar”, frisou.

Animais adotados também têm sido devolvidos e cães de raça têm sido descartados também, o que não costumava acontecer antes.

“O abandono de cães sempre foi o maior dos problemas que enfrentamos. Temos de conviver com o desafio de animais largados em praças, estradas ou desovados nas portas de ONGs ou protetores”, disse.

O aumento de adoções no início da pandemia, provocado pela busca de pessoas que queriam uma companhia, deu origem a um cenário positivo. No entanto, segundo Lombardi, depois “vieram as péssimas notícias”.

“Houve a trágica mentira disseminada de que os cães transmitiam a covid-19. Depois, os problemas econômicos e, da mesma forma como foram cortados gastos extras em todas as famílias, muitas também optaram por não ter mais seus animais”, disse.

Também foram registrados muitos casos de familiares de vítimas do coronavírus que quiseram doar animais que eram tutelados pelas pessoas que morreram. “Esse motivo foi o que mais cresceu em tempos de pandemia. Com o número de mortos aumentando, o número de animais que foram descartados pelos familiares dessas pessoas disparou”, lamentou.

Para o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), é “preocupante a situação do abandono de animais nesta fase de pandemia”.

A Divisão de Vigilância de Zoonoses (DVZ) de São Paulo informou ainda que o número de animais resgatados de março a julho de 2020 é inferior ao mesmo período do ano passado. No entanto, esse dado não desmente o aumento do abandono por conta do coronavírus, porque a DVZ explicou que resgata apenas animais que apresentam risco à saúde pública. Sendo assim, a maior parte dos animais abandonados não são resgatados e, portanto, não entram nas estatísticas do órgão municipal, que informou que o resgate desses cães e gatos é feito, em sua maioria, por ONGs.

No entanto, em julho o número de resgates da DVZ aumentou. Até o dia 27 deste ano, foram 57. No ano passado, 33.

Incitação aos maus-tratos

A realidade se mostra ainda pior quando dados da SaferNet Brasil são observados. De acordo com a organização, entre 15 de março e 30 de junho de 2020 – isso é, durante a pandemia -, conteúdos de demonstração e incitação aos maus-tratos a animais cresceram 482% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Ativistas acreditam que as dificuldades vivenciadas neste período levam as pessoas a verem nos animais um bode expiatório.

No entanto, maltratar e abandonar animais não só é cruel, como é um tiro no pé para os próprios humanos. “O abandono acarreta em prejuízos para a saúde pública, já que pode ocorrer um aumento nos casos de zoonoses, como a raiva, a leishmaniose, esporotricose, verminoses, entre outras”, explicou a médica veterinária Kellen Oliveira, presidente da Comissão Nacional de Bem Estar Animal do CFMV e professora da Universidade Federal de Goiás.

“Ainda pode aumentar a população de rua, já que muitos não são castrados e se reproduzem livremente. Além, é claro, de acidentes automobilísticos, brigas entre os animais e mordidas em humanos”, completou.

O CFMV, segundo a veterinária, acompanha ONGs, centros de controle de zoonoses e o Corpo de Bombeiros. “Eles têm relatado o aumento no número de chamadas para resgates de animais doentes, fêmeas gestantes ou recém-paridas, ou mesmo animais atropelados”, afirmou.

Oliveira reforçou ainda que não há evidências de que um cão ou gato transmita coronavírus a humanos. “Até o momento, não há dados científicos de que animais, como cães e gatos, transmitam a covid-19. Os relatos existentes de animais que contraíram a doença ocorreram, em sua maioria, por transmissão de um humano doente para o animal”, ressaltou.

Caso o tutor ou alguém da família contraia a doença, há recomendações a serem seguidas. “Afastar-se do animal, evitar tocar, beijar, espirrar, tossir próximo ao animal, até a resolução do problema”, explicou.

Sobre abandonar ou devolver um animal à ONG, segundo Lombardi, “não há muito o que orientar”. “Quando a pessoa chega para a ONG ela já está convicta da decisão. Nunca tivemos um caso de conseguir reverter o processo. A pessoa se coloca no papel de vítima, tentando nos convencer que sua razão é justa e ainda achando que está fazendo um favor em nos trazer o cão em vez de abandoná-lo em qualquer estrada”, disse.

Abandono e maus-tratos configuram crimes, no entanto, segundo Lombardi, “o que mais sofremos é ameaças e sabemos que se não for acolhido por nós, será descartado para morrer em qualquer lugar, colocado no lixo ainda vivo, jogado no rio ou amarrado no meio do mato para morrer de fome e sede, só para citar algumas situações corriqueiras com as quais nos deparamos”.

Dificuldades na pandemia

A pandemia levou a uma queda na arrecadação de recursos das ONGs, o que dificultou o trabalho em prol dos animais. A Cão Sem Fome sofreu as consequências da diminuição da ajuda da sociedade.

“Houve um aumento significativo de gastos com os animais, tanto os que já tínhamos — cerca de 500 — como os que entraram. E, ao mesmo tempo, uma extrema redução nas doações e em qualquer ajuda que poderíamos ter”, disse Lombardi. O trabalho, segundo ela, triplicou “e está incrivelmente complicado”.

“As doações sofreram uma queda imensa, tanto em dinheiro como em produtos — ração, vacinas, castração, material de higiene, cobertores, jornais. Temos notícias de protetores que estão dando um dia de ração e um, ou até dois, de pão para os animais. Ninguém dá conta de tanto abandono”, lamentou.

Os problemas financeiros também atingiram a Cão Sem Dono, que perdeu cerca de 30% dos doadores fixos mensais. “Estamos nos virando do jeito que dá”, disse Define Neto.

A União Internacional Protetora dos Animais (UIPA), em São Paulo, também vivenciou dificuldades. “O movimento despencou [após o início da pandemia] e ficamos assustados. Então experimentamos muita solidariedade das pessoas, recebemos bastante doação de ração e fizemos uma vaquinha, conseguindo arrecadar 25 mil reais”, contou Vanice Teixeira Orlandi, presidente da instituição.

A UIPA mantém cerca de 600 animais. Deixá-los em um abrigo ao invés de jogá-los na rua, segundo os ativistas, não é menos grave. “Eles são seres sencientes, ou seja, têm capacidade de sentir e, com isso, o abandono ou troca de família pode gerar traumas e, consequentemente, o desenvolvimento de determinadas compulsões como ansiedade e agressividade”, disse a veterinária Kellen Oliveira.

“Pedimos sempre para que as pessoas tenham um pouco de paciência com seus animais. Em abrigo ele não vai ter uma vida boa, vai ter uma vida difícil. Quando ele entra em um abrigo, vai ter de disputar espaço com outros cães, e com a lotação máxima de tanto abandono recente, isso vai ser ainda pior”, explicou Define Neto.

Para Lombardi, existe uma “certa cultura” de que “abandonar em abrigo não é abandono”. Mas é. E o animal sabe bem disso e sofre bastante.

“Se isso alivia erroneamente a crise de consciência da pessoa, eticamente não há nenhuma diferença. Continua sendo abandono e dos mais cruéis. Imagina um animal que conheceu minimamente o que é ter uma casa, se ver jogado em uma baia de abrigo, tendo que disputar espaço, comida, muitas vezes escassa, e atenção com dezenas de outros cães. Muitos morrem de depressão, ou de doenças causadas pelo convívio coletivo, que o cão não tem imunidade”, argumentou.

“Outros morrem porque não conseguem se adaptar à nova vida, não conseguem se alimentar, ou acabam se envolvendo em brigas, muitas vezes fatais”, completou.

A situação se torna ainda mais dificultosa por conta da suspensão das feiras de adoção presenciais. Para tentar contornar o problema, as ONGs recorrem às redes sociais.

“A pessoa escolhe o animal em nosso site, fazemos a entrevista por WhatsApp, verificamos as informações com o Google… Dando certo, levamos o animal até a casa da pessoa”, resumiu Define Neto.

Usar a internet é o que as entidades também recomendam aos tutores que querem doar seus animais. Para isso, orientam a tirar fotos e publicar. “Infelizmente, a maior parte não faz isso. A gente até oferece a ajudar a divulgar, mas não adianta: a maioria não faz por vergonha dos amigos e parentes”, reforçou.

E na imensidão de problemas e dificuldades, existe algo bom: o aumento nas adoções. Segundo a UIPA, a procura cresceu 400%.

“Momentos de crise fazem com que as pessoas adquiram novos hábitos. E a ideia de um animal, para muitos, está relacionada a uma companhia, a uma casa mais alegre. Isso favorece”, disse Orlandi.

No entanto, isso não ocorreu em todos os locais. As doações da Coordenadoria de Saúde e Proteção ao Animal Doméstico (Cosap), por exemplo, diminuíram. O número de animais doados até junho deste ano – 71 cães e 118 gatos – é inferior ao registrado em 2019.

“No início da pandemia, a coordenadoria percebeu um aumento expressivo no número de visitas de famílias a sede, porém, infelizmente, foi notado que a intenção das visitas era somente de passeio, e não de adotar um animal”, afirmou a instituição em nota enviada à BBC News Brasil.

“Visando à proteção de todos, a Cosap fechou a sede para visitas, evitando aglomerações e pensando em novas maneiras dos interessados conhecerem os animais que aguardavam adoções. Assim, foi implantado o sistema que permite ao munícipe ver fotos, conhecer um pouco melhor a personalidade de cada animal, preencher um formulário com as suas características do adotante e, após essa triagem, agendar uma visita pessoal. Atualmente, cerca de 90% das pessoas que agendam visitas no centro, adotam um animal”, diz o comunicado.

Atualmente, 236 animais, sendo 160 cães, 69 gatos, cinco cavalos e dois porcos, vivem na sede da Cosap e estão à espera de um lar amoroso.



Fonte: Anda



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