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Reflexão: Diante do “Antropocaos”: veganismo e crise climática

Compartilhe:     |  26 de setembro de 2020

A intensa intervenção humana nos ecossistemas, os insustentáveis padrões de consumo e o utópico anseio por um crescimento econômico ilimitado são alguns dos fatores que estão a gerar graves consequências ambientais em toda a extensão do globo terrestre, ameaçando a vida das espécies que aqui habitam. Apesar do negacionismo vigente no cenário político nacional e internacional, temos que a crise climática, como nos aponta a comunidade científica e organizações internacionais como as Nações Unidas [1], é hoje um dos principais problemas a serem enfrentados no Antropoceno.

O entendimento da natureza como mero recurso, a construção de uma jurisprudência que atende exclusivamente ao “Homem” e um aparato cultural que dissemina e valida a narrativa de superioridade da razão e do domínio da linguagem, justificando a opressão daqueles tidos como “irracionais”, são alguns fatores que intensamente contribuem para o agravamento e desencadeamento de crises que hoje vivenciamos. Estamos diante de um sistema biopolítico que assegura e legitima uma sórdida e estrutural dominação exercida sobre outros animais, humanos e não humanos, visando o bem-estar de uma pequena parcela daqueles que aqui habitam.

Por mais que tentemos ignorar por razões diversas, como cultura, hábito, estrutura econômica e outros, há uma inegável conexão entre as mudanças climáticas e a exploração sistêmica de outras espécies animais, foco do presente ensaio. Até mesmo a pandemia do COVID-19, que severamente abala e danifica toda uma estrutura global, se conecta intimamente com a biopolítica que rege as relações interespécies.

Como nos aponta um relatório produzido pela FAO em 2013 [2], o surgimento de vírus como o do HIV-1 (vírus da imunodeficiência), a doença da “vaca louca”, SARS/SRAG (síndrome respiratória aguda grave), gripe suína e outras tantas podem ser atribuídas ao consumo de produtos de origem animais, tanto de espécies “exóticas” quanto as “de criação”. No caso do coronavírus em específico, pesquisas [3][4][5] apontam que seu surgimento pode estar associado ao consumo de animais selvagens comercializados em Wuhan, Hubei (China), sendo uma gravíssima zoonose.

Já a crise climática, por sua vez, é mais um sério exemplo de como o antropocentrismo traduzido na exploração e consumo de animais não-humanos gera não apenas o sofrimento e morte desses, mas também nossa. Pensando no cenário nacional e em nossa infeliz contribuição para o agravamento dessa tenebrosa crise, medições e dados [6] nos indicam que o desmatamento de florestas tropicais gera um impacto substancial no aumento da emissão de gases de efeito estufa. Porém, o que motiva tal desmatamento? Pesquisadores apontam para existência de três principais causas diretas do desmatamento da Amazônia brasileira: “a pecuária, a agricultura de larga escala e a agricultura de corte e queima” [7] (RIVERO et al., 2009, p. 42), sendo dessas a pecuária bovina a mais relevante. O chamado animal industrial complex, que se traduz na exploração em escala industrial de animais não humanos para consumos diversos, portanto, possui uma contribuição direta na intensificação do aquecimento global, tanto por impulsionar o desmatamento quanto pela alta taxa de metano entérico emitida pelos próprios rebanhos [8].

Os devastadores e inadmissíveis incêndios, muitos deles criminosos, que consumiram quase 3 milhões de hectares de nosso pantanal em 2020 [9] também têm suas raízes fundamentadas sobre a exploração animal. De acordo com a Polícia Federal [10] e investigações jornalísticas [11], a maior suspeita é de que os incêndios provocados tenham tido a intenção clara de transformar uma riquíssima biodiversidade em simples pasto. Sim, pasto esse que servirá de alimento para gados que, por sua vez, alimentarão, sem justificativa nutricional [12][13], aqueles que insistem em manter animais mortos em suas dietas.

Diante da miríade de desafios ecológicos e sociais que despontam nesse Novo Regime Climático, abolir o consumo de animais é uma necessidade não apenas ética e moral, mas também factual. O veganismo político se apresenta como crucial para a construção de experiências verdadeiramente democráticas, democracia essa que deverá se estender para além do humano. Não podemos prosseguir a dar voz nem a políticos e líderes negacionistas, esses que descaradamente mentem, negam fatos e culpam “índios e caboclos” [12] por incêndios que, em realidade, são associados ao abastecimento de gigantes do agronegócio, nem a qualquer um que não tenha a pauta animal e ambiental como prioridade. Não podemos pautar nosso desenvolvimento econômico em uma destruição que, ao final, assinará nossa própria sentença de morte.

É necessário que dediquemos, coletivamente, nossas energias para a busca de novas soluções para os problemas econômicos, sociais e ambientais que nos assolam, sem apostar em uma tradicional receita que se mostrou fadada ao fracasso. Porém, também é necessário abdicarmos o hedonismo egoísta que nos leva a ignorar as consequências e dilemas éticos de nossos prazeres, fechando os olhos a toda exploração envolvida na produção daquilo que consumimos de forma supérflua (e como dito acima, consumir produtos de origem animal não é uma necessidade nutricional real!).

Uma mudança estrutural não se sustentará se não reverberar, genuinamente, em nossos microcosmos. Um novo comportamento coletivo não se formará sem a adesão individual. Assim, por mais que pareça pequena diante de tantos problemas que vivenciamos globalmente, a adoção do veganismo é uma forte ação política, abalando microestruturas e colaborando para a construção de futuros sistemas mais empáticos e includentes.

Por fim, passar a considerar os direitos dos animais não humanos é um importante passo para que possamos construir uma relação menos predatória para com a natureza como um todo. Criar uma consciência ecológica é essencial para a superação de uma crise ambiental que, caso não seja levada com seriedade, prosseguirá mostrando sua força com cada vez mais afinco e destruição. O presente exige mudanças para que o futuro ao menos exista.

* Mariah Peixoto é uma das coordenadoras da linha de pesquisa e extensão D.I.A.N. (@projetodian) da Universidade de São Paulo – Campus Leste (EACH-USP), dedicado a discutir direitos animais, ecojustiça e educação.



Fonte: Anda - Mariah Peixoto*



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