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Dieta amazônica baseada no consumo de peixes e frutos: um santo remédio

Compartilhe:     |  10 de dezembro de 2019

Os benefícios da dieta amazônica, baseada no consumo de peixes e frutos como tucumã, guaraná e açaí, já são conhecidos inclusive em outros estados do Brasil. Um convênio entre a Fundação Universidade Aberta da Terceira Idade (Funati), em Manaus, e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), do Rio Grande do Sul, pretende transformá-los em matéria-prima para a produção de medicamentos contra vários tipos de problemas, desde zumbidos incessantes no ouvido até efeitos incômodos da quimioterapia e inchaço no corpo causado pelo uso de antidepressivos.

A iniciativa, cujo público-alvo são idosos e pacientes com doenças sem cura, foi formalizada na manhã de ontem, durante o 1º Workshop de Inovação e Tecnologia para o Envelhecimento. O evento aconteceu na sede da Secretaria de Administração e Gestão (Sead), na Zona Centro-Sul de Manaus. O evento abordou questões relacionadas à estruturação do Centro de Pesquisa em Tecnologias Gerontológicas (Gerontotec) no Amazonas, além de debater sobre o fenômeno do envelhecimento e seus desafios emergentes no cenário global.

“Não são medicamentos para curar, mas para aliviar a dor e melhorar a qualidade de vida da população”, explica a doutora Ivana Cruz, chefe do laboratório de Biogenômica da UFSM, acrescentando que a empreitada foca também na inovação na cadeia produtiva local de frutos.

“O Governo do Estado nos procurou e solicitou, por meio da pasta de Ciência e Tecnologia, que fizéssemos um processo de implantação de um polo de medicamentos paliativos em Maués com produtos derivados da floresta”, disse Euler Ribeiro, reitor da Funati e doutor em Geriatria e Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

Rede internacional

Outro aspecto pioneiro é a formação de uma rede de pesquisa com universidades do Brasil, Espanha, Canadá e Japão voltada ao desenvolvimento de fármacos que potencializem as dosagens receitadas pelos médicos. É o caso dos remédios produzidos à base de guaraná, indicados para aliviar os mal estar do tratamento contra o câncer.

“A população amazonense tem um grande tesouro que deveria ser preservado em todos os locais. Há diversos produtos para diminuir o colesterol e as chances de câncer e controlar a diabetes”, elogia Ivana Cruz.

Centro-Sul à frente

O aproveitamento dos recursos da região, no entanto, já vem sendo utilizado pela indústria farmacêutica em outras regiões. Pacientes com problemas auditivos, por exemplo, relataram melhoras nos sintomas após receberem cápsulas de açaí em testes realizados pela UFSM – o tempo de vida do produto fresco naquela região é menor. “Não existe tratamento parecido no mundo inteiro”, ressalta Ivana.

Potencial amplo

O potencial dos produtos amazônicos  vai além da farmacologia de paliativos, com aplicação em setores como  cosmética,   agropecuária e em medicamentos para problemas graves.

Conhecido por suas propriedades energéticas, os “olhos do menino” da lenda sateré-mawé têm a capacidade de diminuir hemorragias causadas por picadas de cobra. Já as sementes de açaí são utilizadas para tratar infecções no gado leiteiro, e os resíduos da produção do guaraná podem ser aplicados para aumentar a eficiência reprodutiva da espécie.

Maués sediará um centro de pesquisas

Segundo pesquisadora Ivana Cruz, da  UFSM, o projeto é uma evolução das pesquisas em parceria com Ribeiro sobre a dieta dos habitantes de Maués, município localizado a 267 quilômetros de Manaus em linha reta.

A análise, que considerou marcadores genéticos e ambientais, resultou na publicação do livro “Dieta Amazônica”.

“Em 2007, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelou que 1% da população do município amazonense vivia mais de 80 anos. Mesmo nos países mais ricos, a expectativa de vida é menor”, explicou o doutor Euler Ribeiro, a respeito da motivação da pesquisa. “Estudamos todos os pontos positivos que favorecem o envelhecimento: o sono, a dieta e a fuga do estresse”. Com base nos resultados, a dupla observou que a dieta amazônica é comparável à dieta do Mediterrâneo, referência mundial no quesito estilo de vida saudável.

“Até então, toda a pesquisa tecnologia foi feita em laboratório da Universidade de Santa Maria. Agora, estamos fazendo a transferência dos estudos de nível celular e farmacológico para a Funati”, explicou a professora Ivana Cruz. Para o ano que vem, está prevista a implantação da primeira fase do projeto “Maués 2020-2030”, que consiste em programas de orientação nas escolas sobre envelhecimento bem-sucedido, além do aperfeiçoamento do atendimento dessa população nas secretarias de saúde. Na cidade, será instalado um Gerontotec.



Fonte: A Crítica - DANIEL AMORIM - Foto: Euzivaldo Queiroz



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