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Dietas industrializadas estão alterando a estrutura química do corpo humano

Compartilhe:     |  25 de maio de 2021

Uma nova análise mostra que o consumo de alimentos produzidos em massa com o auxílio de fertilizantes sintéticos, originados internacionalmente, está mudando a química dos humanos modernos.

Isso é um fato especialmente em comunidades mais ricas e urbanizadas e nações onde a renda per capita anual excede 10 mil dólares, onde supermercados provêm a maior parte da comida.

A composição de isótopos de nitrogênio e carbono presente nos cabelos, unhas e ossos tem mudado, fazendo humanos atuais mais parecidos com eles mesmos mas muito diferentes dos seus ancestrais que viveram antes do advento da agricultura industrial.

O problema com esses tipos de dietas divorciadas de complexas cadeias alimentares naturais é que o sistema não é resiliente quando é confrontado por ameaças, disse o autor do estudo.

“Diga-me o que come, e eu direi o que você é”, escreveu o advogado Francês Jean Anthelme Brillat-Savarin em sua composição de 1826 “Physiologie du Goût” (Fisiologia do Gosto). Esse é quase literalmente o ponto, cientistas decodificando o corpo humano descobriram.

Agora, uma análise de assinaturas químicas nos cabelos e unhas humanas mostraram que, quanto mais nossa é produzida em massa, nós começamos a nos parecer mais uns com os outros. Se não na carne, então nos ossos.

“Dependência na distribuição internacional de alimentos e agricultura industrial tem mudado a química de toda a raça humana”, disse Michael Bird, o primeiro autor de um recente documento no jornal “Procedimentos da academia nacional de ciências” (Proceedings of the National Academy of Sciences). Somente comunidades que vivem em base de agricultura de subsistência têm ignorado a tendência, descobriu o documento.

Essa mudança é especialmente fatual em comunidades ricas e urbanizadas. Em nações onde a renda per capita anual excede 10 mil dólares, os supermercados provêm a maior parte do alimento. Outro marco da dieta moderna é a dependência de trigo, milho, arroz e diversos outros cereais amiláceos.

Arqueologistas fazem conclusões rotineiras sobre dietas do passado, usando como base restos esqueléticos. Bird e seus colaboradores analisaram amostras de cabelo e unhas de populações dos dias de hoje e as compararam com os dados arqueológicos de dietas de pessoas vivendo antes de 1910. Foi nesse período que fertilizantes de nitrogênio sintético, um dos pilares da agricultura industrial, teve seu uso ampliado.

Os pesquisadores observaram especificamente a porcentagem de diferentes isótopos de nitrogênio e carbono encontrados nos restos mortais. Os isótopos são versões de elementos que se diferem em massa. Estudando essas proporções, cientistas podem tirar conclusões sobre os alimentos que as pessoas comem.

No caso dos fertilizantes de nitrogênio, a proporção de isótopos de nitrogênio reflete sua porcentagem na atmosfera, não o que existiria em solos férteis naturais. Quando micróbios fixadores de nitrogênio extraem o gás da atmosfera, uma proporção de isótopos diferente dos fertilizantes químicos resulta.

Quando as plantas captam o nitrogênio do solo, elas absorvem dois isótopos estáveis de nitrogênio numa mesma proporção. Essa parcela muda quando os nutrientes se movem acima na cadeia alimentar pelas entranhas de outros organismos. A forma mais leve de nitrogênio é mais provável de ser usada por funções corporais e excretadas em seguida, mas o corpo retém isótopos mais pesados. Consequentemente, uma quantidade maior desse nitrogênio pesado sobrevive de presa a predador.

Para pessoas que compram em grandes mercados fornecidos por fazendas industriais, o valor de isótopo de nitrogênio na população é em média menor, com pouca variação. Se você consumir carne bovina de grandes fazendas industriais ou plantas cultivadas em campos de monocultura com a ajuda de fertilizantes, os nutrientes vêm até você através de uma rota artificialmente reduzida.

“Nós meio que exaurimos muitos dos processos naturais que serviam para produzir comida durante a pré-história, ou de pessoas que ainda vivem uma vida de subsistência”, disse Bird.

Os isótopos de carbono, por sua vez, dão uma ideia sobre os tipos de comida que as pessoas consomem: Uma dieta rica em milho ou uma que arroz é a parte mais importante deixarão para trás um diferente isótopo de carbono nos tecidos humanos. O alcance de valores de isótopos de carbono também têm diminuído hoje, a análise encontrou, pois estamos consumindo tipos semelhantes de alimentos.

“Nós sabemos que a produção agrária e os padrões de consumo alimentar foram reduzidos globalmente nos últimos 100 anos devido a pesquisa e política se concentrarem majoritariamente em algumas poucas plantas – grãos cereais, açúcar, oleaginosas – enquanto deixando para trás muitas outras”, disse Matin Qaim, um economista agrônomo da faculdade de Goettingen, Alemanha, que não estava envolvido no estudo. “É claro, a coleção de alimentos da natureza – raízes, folhas e frutas – também decaíram em importância para a maioria dos humanos em tempos modernos.”

Porém, comunidades que dependem da agricultura de subsistência exibem proporções de isótopos semelhantes a dietas alimentares de humanos de antes de 1910.

Isso não é necessariamente algo bom ou mau para a saúde. “Os autores desse documento mostram que dietas eram, em média, mais diversas antes da ‘agricultura industrial’ ter início, mas isso não significa que as pessoas tinham um melhor status nutricional naquele tempo”, disse Qaim.

O problema com esse modo de sustento, divorciado das complexas cadeias alimentares naturais, é uma perda de resiliência. A simplificação da cadeia alimentar, com grande dependência em cadeias alimentares de um ou dois passos, preocupa pesquisadores como Bird. “É uma manifestação que ser dependente fortemente num grande nível de tecnologia na forma de agricultura industrial é um potencial risco”, disse ele.

Uma disrupção, como uma doença vegetal, invasão de gafanhotos, ou pandemia, pode deixar todo o sistema em desordem. Longe de desmontar complexos industriais e agrários, não há como reverter para antigos meios de produção. Com o grande aumento da população mundial, tal campanha iria também colocar a segurança alimentar de milhões de pessoas em cheque. Segundo economistas históricos, a disponibilidade de fertilizantes químicos é uma grande razão para o grande aumento da população em primeiro lugar.

“Produção agrária e padrões de consumo alimentar deveriam ser diversificados, ou seja, diferentes tipos de plantas deveriam ser produzidas e consumidas localmente e globalmente. Isso teria benefícios nutricionais à saúde e ao meio ambiente”, disse Qaim. “Nós não podemos voltar a nossa tecnologia agrária 100 anos no passado. Nós precisamos da tecnologia, incluindo novas tecnologias para alimentar e nutrir o mundo, mas precisamos de mais diversidade e de reduzir nossa pegada ambiental.”



Fonte: Anda - Malavika Vyawahare (Mongabay) | Traduzido por Kaique Pettini Binatti



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