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Do mar ao sertão do Nordeste, mulheres promovem uma revolução silenciosa e derrubam clichês

Compartilhe:     |  3 de fevereiro de 2020

A Marlene dos Santos Santana, nunca lhe ensinaram a pescar. Aprendeu a pegar siri e aratu no mangue, a tirar ostra ou a puxar o peixe com uma vara de linha de tanto acompanhar os pais trabalharem na beira do rio em Campinhos, a maior comunidade da Reserva Extrativista de Canavieiras, no extremo sul da Bahia. A vida dela seguiu um curso comum para as mulheres que integram as mais de 2.000 famílias que vivem na região: a de abraçar a atividade pesqueira como profissão antes mesmo dos dez anos de idade. Quando elas chegaram à adolescência, já sabiam que o tempo de trabalhar quem dita é a maré e que mulher tem que se virar entre a lama e a água salgada porque, mesmo que os maridos sejam historicamente vistos como arrimos de família, é da versatilidade delas que vem uma relevante produção para a renda familiar. “Aqui, todo mundo pesca, mas a força maior é das mulheres. A atividade que tiver aqui no manguezal a gente faz, mas durante muito tempo foi como se a gente fosse invisível”, diz Marlene.

Ela criou nove filhos graças à pesca, enquanto via o marido, também pescador, ser dominado pelo alcoolismo. Fazia roça, plantava frutas ao redor de casa, rezava para que a seca não matasse o que alimentaria a família dela. E se enfiava na lama para pegar marisco mesmo poucas semanas depois de parir porque licença maternidade nunca foi uma opção. “Não é fácil ser mulher na pesca. Você sabe, né? A gente tem ovário e útero. A gente cai, se atola. Eu ia para o mangue com um mês de parida pra poder manter a casa. As outras mulheres aqui que têm marido às vezes podiam esperar um pouco mais, mas meu marido não ajudava”, conta.

Marlene aponta então para uma cicatriz na barriga, fruto da violência doméstica que sofreu cinco dias depois de colocar mais uma criança no mundo. “Hoje eu sou viúva. Tem oito anos que ele morreu, e a única coisa que me deixou foi filho, porque a gente não tinha nem uma casa”, diz. Uns dois anos antes do marido morrer, Marlene viu as mulheres da comunidade se organizarem na Associação Mãe da Reserva Extrativista de Canavieiras (Amex). Ela integrou o grupo e, ali, começou a entender que também tem direitos. Não deixou a pesca, mas se embrenhou em uma longa luta pelas famílias de pescadores e, em especial, pelas companheiras. Hoje, vê a geração de suas netas despertar para uma vida que mantém a tradição da família, mas tem como premissa não aceitar o mínimo e reivindicar a igualdade de gênero.

Lílian Santana, pescadora e coordenadora da Rede Mulheres de Campinhos.
Lílian Santana, pescadora e coordenadora da Rede Mulheres de Campinhos.MARCO ANTÔNIO TEIXEIRA / WWF

“O que faz a gente existir é a nossa forma de viver da pesca”, afirma a neta de Marlene, Lilian Santana, com o nariz em riste em direção ao mangue. Ela, que cresceu com vergonha de dizer na escola que era neta e filha de pescador, diz que agora o que prevalece é um sentimento de pertencimento. Nos últimos dez anos, ela viu a avó e outras mulheres da comunidade ocuparem postos de liderança e se organizar pelas suas reivindicações. Há um ano, acabou por tomar para si essa missão. “A nossa rede deu um salto na minha vida, é uma corrente que abraçou todas as mulheres aqui da Resex de Canavieiras. Com elas, descobri quem somos e porquê estamos aqui. Hoje eu sou feminista graças à minha avó, que nem se vê dessa forma”, ela diz.

Quando as mulheres escancararam que são elas as responsáveis por pelo menos um terço do pescado na região, conquistaram também mais autonomia. Em Campinhos, conta Lílian, o sentimento de dependência do marido começou a mudar. E mesmo os homens da comunidade passaram a valorizar mais a produção feminina. “O manguezal é uma fazenda que Jesus criou pra quem não nasceu em berço de ouro. O que ainda é muito difícil pra gente é que o marisco não tem um preço fixo. Ninguém quer dar 25 reais num quilo de catado de aratu. Mas quando a gente vai no mercado, tem que comprar o feijão do preço que está”, se queixa Marlene. O caminho ainda é longo, mas se antes as mulheres já se articulavam para criar ferramentas artesanais que facilitassem sua pesca e otimizassem a produção, agora estreiam também em outros espaços. São elas que gerenciam a Moex, uma moeda social criada para estimular a economia criativa e garantir que a renda permaneça na comunidade. “O nosso projeto vem pra dar visibilidade para as mulheres e para que elas se apropriem da produção. Hoje eu sei que lugar de mulher é onde ela quiser, seja na pesca ou não”, diz Lilian.

A pescadora Maria Conceição Cardoso mostra a moeda social da Resex de Canavieiras, na Bahia.
A pescadora Maria Conceição Cardoso mostra a moeda social da Resex de Canavieiras, na Bahia.MARCO ANTÔNIO TEIXEIRA / WWF

Sertanejas “ganham o mundo” nas feiras agroecológicas

A cerca de 1.400 quilômetros de Campinhos, em pleno sertão central do Ceará, Loudizete de Almeida Farias bate na pedregosa terra vermelha com uma ferramenta semelhante a uma enxada que ela mesma mandou fazer, com o cabo menor, para facilitar a colheita da mandioca. “Esse ‘enxadeco’ me ajuda, porque eu não tenho a mesma força física que um homem”, explica. Loudizete vive numa casa que herdou dos pais com o marido e a filha de 13 anos em Gericó, um pequeno vilarejo da cidade de Pedra Branca, a 260 quilômetros de Fortaleza. A paisagem cinza pela seca que todo ano assola o semiárido tem uma pequena faixa cortada por canteiros verdes, uma pequena plantação de legumes e hortaliças que Loudizete mantém para comer e cujo excedente já representa a maior parte da renda da família, apesar do marido dela ter um salário fixo como vigia da prefeitura.

“Onde já se viu mulher ganhar mais do que um homem?”, ouviu Loudizete do marido tantas vezes, ora duvidando do resultado do trabalho dela, ora tentando fazê-la desistir. Ele só aceitou quando a esposa deixou claro que não desistiria do trabalho e argumentou que entre eles não deveria haver competição, mas parceria. “Meu marido é muito machista, mas tem aprendido muito. Devagarinho, eu vou tentando colocar as coisas na cabeça dele”, ela diz.

Loudizete de Almeida Farias colhe uma mandioca no seu quintal produtivo, no sertão cearense.
Loudizete de Almeida Farias colhe uma mandioca no seu quintal produtivo, no sertão cearense.FERNANDA SIEBRA / FERNANDA SIEBRA

Loudizete cresceu no interior cearense ouvindo que cabe ao homem trabalhar para colocar comida na mesa e que mulher só tinha que cuidar da casa. “Só, né? Como se fosse pouca coisa”, reclama. Ela sabe que, ali, a mulher sempre ajudou na roça e que também era tarefa delas gastar horas e horas carregando lata d’água na cabeça e caminhando léguas pelas estradas em busca de barreiros e açudes nos meses de seca que todo ano, mais ou menos intensos, assombram o semiárido brasileiro. Mas estas foram funções historicamente ignoradas em uma sociedade que ainda tenta manter mulheres dentro de casa.

Quando as cisternas passaram a ser implantadas em larga escala para as famílias de baixa renda do sertão, as mulheres passaram a economizar horas que gastavam diariamente para transportar água. Com uma fonte regular de abastecimento perto de casa, muitas delas assumiram o protagonismo dos chamados quintais produtivos, pequenas plantações de legumes e hortaliças ao lado de casa. E se organizaram em pequenas redes para viajar pelas localidades vizinhas em busca de um mercado para vender seus produtos orgânicos.

“Pra gente, como mulher, foi um empoderamento e tanto”, diz Lourdizete. “Na cultura do meu marido, mulher ainda é pra cuidar do fogão e da família. Ele diz que depois que eu me associei com esse povo, sai pra trabalhar e não sabe mais se vai me encontrar na volta”, se queixa. Ainda assim, ela não abre mão da liberdade que construiu a partir do acesso básico à água e da participação em associações de mulheres. “A gente tem uma união tão grande que eu já não vejo problemas em sair de casa”, diz. Loudizete só se preocupa em desenvolver pequenas estratégias para minimizar os conflitos. Ao perceber que o marido não agua a horta na sua ausência, contratou um vizinho para fazê-lo. Quando precisa ir para alguma feira mais distante, sempre deixa um dinheiro do pão e o mesmo bilhete para o esposo: “Tome conta da casa, a responsabilidade é sua”.

Com esse trabalho fora de casa, a agricultora montou um salão de beleza em um dos quartos de casa, o que já lhe garante mais uma renda extra. Se o marido reclamar, o discurso está na ponta da língua: “Saio porque preciso, não quero ser dependente de você. A gente casou para construir uma vida juntos, educar a nossa filha. Você querer me proibir só me dá mais poder”. Loudizete levanta a bandeira de mais autonomia para as mulheres, mas não se reconhece como feminista. Neste ponto, diz, o ensinamento religioso que recebeu se sobressai. “Dentro dos princípios da Bíblia, eu acho que a mulher tem um papel de submissão em relação ao homem. Então pra gente medir força, eu não concordo com o feminismo. Mas quem ainda tem dúvida de que a mulher precisa ser valorizada?”.



Fonte: EL PAÍS - BEATRIZ JUCÁ - Canavieiras (BA), Pedra Branca (CE), São Paulo



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