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Do uso competitivo ao uso sustentável da água como questão de sobrevivência

Compartilhe:     |  1 de abril de 2015

Por Maurício Antônio Lopes, presidente da Embrapa

Água é mistério e dádiva. Mistério porque a ciência ainda não conseguiu desvendar de onde ela veio. Alguns acreditam que a água chegou ao nosso planeta por meio de corpos celestes que aqui caíram ao longo de milhões de anos. Nada comprovado, e o mistério permanece.

E a água é uma das maiores dádivas que o planeta nos concede. Este precioso líquido cumpre variadas e complexas funções, sendo a mais nobre prover condições para a realização da enormidade de reações químicas e processos biológicos que sustentam a teia da vida.

Além disso, a água é componente fundamental da paisagem e do meio ambiente, com impactos sobre o nosso bem-estar espiritual e físico. São inúmeras as suas utilidades para a sociedade: abastecimento doméstico e industrial, produção de alimentos e fibras, dessedentação de animais, geração de energia, transporte de pessoas e cargas, recreação e turismo e preservação da biodiversidade. Além da função essencial de limpar o nosso corpo, nossas casas e cidades dos resíduos que geramos.

A água faz parte de uma rede de interdependências nem sempre percebida ou valorizada. Sua escassez impacta a oferta de alimentos, de energia, de saúde e de mobilidade, como se vê no noticiário recente. E como é recurso finito, preocupações relacionadas à competição pelo seu uso crescerão de forma proporcional ao aumento de sua demanda pela sociedade.

Apesar de abrigar 12% das reservas de água doce do planeta, o Brasil convive com situações preocupantes de escassez. A seca que penaliza o Semiárido Nordestino há décadas e o severo déficit de precipitações que no momento aflige a Região Sudeste nos impõem um desafio. De aprimorarmos o manejo e o uso sustentável dos recursos hídricos no Brasil, em lugar de nos conformarmos com a escassez ou com o acirramento da competição pelo seu uso no futuro.

A primeira urgência é a ampliação da comunicação, em busca do diálogo e do entendimento sobre as melhores práticas na gestão dos recursos hídricos. A agricultura tem sido apontada como uma das vilãs da crise hídrica, suposta consumidora de 70% das reservas de água. Crítica injusta, pois esse percentual, bastante usado internacionalmente, não encontra sustentação na realidade brasileira. A nossa agricultura não compete com as cidades por água tratada. Ela apenas toma emprestada da natureza a água da chuva, que iria aos rios e oceanos, e a devolve limpa, com a evaporação, transpiração e infiltração no solo. É claro que cidades e fazendas podem melhorar a eficiência no uso das águas. Mas demonizar a produção de alimentos em função da crise hídrica só nos trará mais problemas.

Outra urgência é ampliar a capacidade de armazenagem de água na abundância de chuvas e garantir sua oferta nos períodos de escassez. Com mais reservatórios, em pontos estratégicos, poderíamos ampliar a prática da irrigação, ainda pouco utilizada no Brasil. Além de ampliar a produção de alimentos, a irrigação pode cumprir outro nobre papel – reduzir o nível das reservas ao longo do período seco, fazendo das represas, açudes e lagos uma bateria de amortecedores para mitigar os efeitos das enchentes, que tanto dano têm causado com o aumento de eventos climáticos extremos.

Precisamos, ainda, mobilizar todo o arsenal tecnológico disponível para harmonização da relação água-energia-alimento. A Embrapa tem disseminado tecnologias de baixo custo para construção de pequenas barragens para captação de enxurradas, que promovem a infiltração da água no solo, reduzindo a erosão e elevando o lençol freático. E precisamos ampliar a adoção de sistemas de irrigação que otimizem o uso de água e energia, além de práticas conservacionistas que protejam o solo e reduzam evaporação. Florestas plantadas, cultivos e pastagens bem manejados podem contribuir para a conservação da água, pelo solo, mitigando os efeitos negativos decorrentes da grande dispersão entre precipitações das estações chuvosa e seca.

Por fim, é preciso superar o mito da abundância. Cerca de 80% da água doce do Brasil está na região amazônica; os outros 20% abastecem larga extensão do território brasileiro onde habita 95% da população. O avanço do processo de urbanização nos força a discutir o impacto das cidades na poluição dos nossos recursos hídricos e na ampliação do uso insensato da água. Descarregar esgoto não tratado nos rios ou lavar carros e calçadas com água tratada precisam se tornar coisas do passado.

A crescente escassez hídrica indica que não estamos diante de um desafio trivial. O aumento da consciência coletiva para o uso sustentável da água se tornou uma questão de sobrevivência.



Fonte: NCO - Núcleo de Comunicação Organizacional Embrapa Meio Ambiente - Cristina Tordin



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