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‘É como uma nota ruim no boletim materno’, diz mãe que teve depressão pré-natal

Compartilhe:     |  8 de maio de 2019

Tive depressão pré-natal quando esperava minha primeira filha, em 2012. Não é algo sobre o qual eu penso com frequência, sete anos depois do pior dos meus sintomas, embora ocasionalmente eu tenha um lampejo de lembrança daquela situação de humilhação. Como quando estou no trem e passo pela Canal Street — a parada do metrô que usava para ir ao trabalho durante meus dias mais sombrios.

Naquela época, eu escrevi uma série sobre depressão pré-natal na qual discuti a difícil decisão de voltar aos antidepressivos no final do meu primeiro trimestre de gestação. Naquele momento, não tinha percebido que eu tinha dois fatores de risco principais para a depressão durante a gravidez: meus episódios anteriores de depressão clínica e o fato de que interrompi o uso dos antidepressivos para engravidar. Quando eu tive meu segundo filho, em 2016, decidi manter a minha dose diária de 10 miligramas de Prozac durante essa gravidez e não recaí.

Se você tem ansiedade ou depressão graves enquanto está grávida, a decisão de se medicar não é uma questão de “riscos versus benefícios”, afirma Pooja Lakshmin, professora assistente clínico de Psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade George Washington.

— É uma questão de risco-risco, porque qualquer um dos lados em que você escolher vem com algum risco — diz ela. — A depressão e a ansiedade não tratadas têm efeitos profundos sobre a mãe, o bebê e toda a família.

Entre os riscos da depressão pré-natal não tratada estão nascimentos prematuros e baixo peso ao nascer. No entanto, usar antidepressivos durante a gravidez podem levar a exatamente esses mesmos problemas.

Embora ambos os meus filhos tenham nascido saudáveis e não tenham problemas duradouros, ainda me sinto envergonhada pelo que passei, como se precisar de ajuda psiquiátrica durante a gravidez fosse uma nota ruim no boletim materno.

Uma em cada cinco mulheres experimentará transtornos de humor e ansiedade perinatais, incluindo ansiedade pré-natal e pós-parto, depressão e psicose. Cerca de 8% das mulheres nos Estados Unidos tomam antidepressivos durante a gravidez.

No Brasil, segundo um estudo Conselho Regional de Enfermagem (Coren), cerca de 10% das mulheres sofreram ou vão sofrer de depressão pré-natal.

Perguntei à Dra. Lakshmin — assim como à Dra. Samantha Meltzer-Brody, fundadora e diretora do Programa de Psiquiatria Pré-natal da Universidade da Carolina do Norte e co-autora de um estudo de 2017 publicado na “The Lancet Psychiatry” que identificou cinco diferentes subtipos de depressão pré-natal — sobre como as mulheres podem obter os melhores cuidados de saúde mental durante a gravidez e depois.

Aqui estão as dicas delas:

Conheça os fatores de risco para depressão pré-natal

Um histórico de doença mental não é o único fator de risco para a depressão pré-natal, ressalta Meltzer-Brody. Outros fatores de risco incluem um histórico de eventos adversos na vida, como abuso sexual, falta de apoio social e pobreza.

Há também um componente hormonal:

— Há evidências de que a sensibilidade hormonal em mulheres durante o ciclo de vida reprodutivo torna algumas vulneráveis a distúrbios durante qualquer mudança hormonal.

Assim, mulheres que têm uma história de transtorno disfórico pré-menstrual (depressão grave ou ansiedade na semana anterior à menstruação) ou que reagem mal ao controle hormonal da natalidade podem ter maior probabilidade de ter transtornos de humor pré-natais.

Se você tem histórico de doença mental, comece a planejar antes de engravidar

Isso muitas vezes não é possível, já que cerca de 45% das gestações — considerando apenas os EUA — não são planejadas. Mas, se você sabe que quer engravidar, comece a trabalhar com um psiquiatra em quem você confia, recomenda Lakshmin.

Uma aspecto importante a considerar é a gravidade de sua doença. Se você tiver sido suicida ou hospitalizado enquanto estava sem medicação, você pode não ser uma boa candidata para tomar remédios.

Se você estiver prestes a interromper a medicação para engravidar, faça-o cerca de dois a três meses antes de começar a tentar, afirma Lakshmin. Dessa forma, você tem tempo para ver como você se sente sem remédio antes da avalanche hormonal da gravidez. E nunca pare de tomar remédio por conta própria — você deve conversar sobre sua medicação com um psiquiatra.

Procure outras formas de suporte, recomenda Lakshmin, sabendo que a parte de medicação do seu tratamento não estará mais lá. Consultar-se com um terapeuta com mais frequência, praticar ioga pré-natal ou ter apoio extra de amigos e familiares pode ajudar.

Se você tiver sintomas persistentes de ansiedade e depressão durante a gravidez, peça ajuda

Ansiedade e depressão não tratadas durante a gravidez não se resolvem magicamente quando você dá à luz, ressalta a médica Meltzer-Brody — esse problema é, aliás, um importante fator de risco para depressão pós-parto.

A depressão pré-natal durante o primeiro trimestre é muitas vezes mal-diagnosticada, porque náuseas, vômitos e fadiga podem fazer mulheres que não estão clinicamente deprimidas sentirem-se para baixo.

Se você está deprimida, mal-humorada ou ansiosa por duas semanas sem alívio durante qualquer trimestre da gestação, e é uma mudança marcante em relação ao seu normal, consulte um profissional de saúde, aconselha Meltzer-Brody.

Para ansiedade leve ou moderada e depressão durante a gravidez, recomenda-se a psicoterapia baseada em evidências. Para ansiedade moderada ou grave ou depressão, a medicação pode ser necessária, diz Meltzer-Brody.

Se você se sentir suicida ou tiver pensamentos de autoagressão, não espere duas semanas. Procure ajuda médica imediatamente.



Fonte: O Globo - Celina - Jessica Grose, do New York Times



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