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‘É hora de botar os bodes na sala’

Compartilhe:     |  14 de junho de 2020
Alice Amorim, coordenadora de política climática e engajamento do Instituto Clima e Sociedade Foto: ANAREZENDE.COM / DivulgaçãoAlice Amorim*
A implementação das metas climáticas, em sintonia com o Acordo de Paris, oferece várias oportunidades para o Brasil se reinventar, mas é preciso decidir olhar para elas como caminhos e não como pedras que irão surgir pela frente
Temos pouco tempo e uma janela de oportunidade. O período de agora até o final de 2021 será essencial para definir o modelo econômico brasileiro (e global) que vigorará pelo menos pela próxima década. A implementação das metas climáticas, em sintonia com o Acordo de Paris, oferece várias oportunidades para o Brasil se reinventar, mas é preciso decidir olhar para elas como caminhos e não como pedras que certamente irão surgir pela frente.
Em evento sobre Mudanças Climáticas e Recuperação Econômica promovido esta semana pelo Instituto Clima e Sociedade, Embaixada da Alemanha e Delegação da UE no Brasil, ficou claro que a União Europeia resolveu colocar suas metas de redução de emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa) no coração da estratégia de recuperação econômica pós-Covid-19. E que é preciso agir já, nas próximas semanas, e não nos próximos anos. Não temos tempo a perder.

A proposta de orçamento da UE para os próximos 7 anos sugere quase 25% dos recursos para ações de mitigação e/ou adaptação à mudança do clima. Isso não é pouca coisa, mas como se diz, a vontade política se mede mais pela alocação orçamentária do que por belas palavras.

É verdade que a situação europeia é bem diferente da brasileira, dos pontos de vista financeiro, populacional, territorial ou político. Porém, ao invés de nos concentrarmos nas diferenças, precisamos olhar mais para as semelhanças, nos desafios e nas possíveis soluções.

Para citar um exemplo: o pacote de recuperação econômica europeu (lançado no dia 27 de maio) elenca setores chave: eficiência energética nos edifícios, economia circular, energia limpa, agricultura sustentável, restauração de ecossistemas e transportes sustentáveis.

Será que no Brasil não podemos decidir apostar em eficiência energética nos prédios ao invés de simplesmente “apoiar a construção civil” para gerar empregos em massa que vão nos aprisionar em edifícios envidraçados ultrapassados que geram uma conta de luz astronômica?

Por que ao invés de apostarmos as fichas da recuperação em construir rodovias para enchê-las de caminhões movidos a Diesel não fazemos um direcionamento estruturante dos investimentos para termos um modelo ferroviário no Brasil? A NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) do Brasil dá algumas pistas de como podemos investir em setores que nos levam a redução de emissões.

Em paralelo aos esforços de enfrentamento à pandemia e às demandas emergenciais, é preciso que tenhamos, com urgência, uma base para discutir que estrutura econômica desejamos ter, que setores queremos priorizar no Brasil, e como as medidas que serão tomadas impactam (para o bem ou para o mal) as nossas gritantes desigualdades sociais.

As mazelas socioeconômicas e ambientais que a Covid-19 deixou explícitas mais uma vez – falta de saneamento básico, precariedade dos empregos, disparidade educacional das escolas públicas e privadas – não podem voltar para a gaveta depois que a poeira da pandemia baixar. E não são questões sociais apenas, elas precisam estar no coração da nossa recuperação.

Precisamos agora colocar os bodes no meio da sala e lidar com eles na estratégia de recuperação pós-Covid-19. Trazer as desigualdades sociais, o racismo estruturante, a poluição do ar, mares e rios, a destruição das florestas e nossa baixa competitividade global.

Precisamos decidir investir em tecnologia de ponta para ampliar a cobertura do saneamento básico, investir em inteligência de dados para promover empregos digitais, investir em qualificação da população brasileira para atuar em setores que nos tornem mais competitivos e gerem menor impacto ambiental. Se crises são mesmo sempre oportunidades, a hora de decidir que caminho seguir para colocar o Brasil em outra trilha é essa.

* Coordenadora de Política Climática e Engajamento do Instituto Clima e Sociedade – ICS



Fonte: Época



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