Notícias

É importante prestar atenção aos princípios da dieta nórdica, uma nova versão da mediterrânea

Compartilhe:     |  5 de outubro de 2014

Há pouco mais de dois anos, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, ex-vice presidente da TV Globo, e Ricardo Amaral, seu amigo há 56 anos, passaram por uma experiência inesquecível no Noma – restaurante dinamarquês eleito quatro vezes pela revista The Restaurant o melhor do mundo. Amaral conta que, logo ao chegar, foi colocado à mesa um “pires com um molhinho branco”. Havia ainda dois vasinhos com flores e galhos secos, na descrição de Boni. Os dois conversaram, beberam vinho e nada de o serviço começar. “Aí veio um cara lá de dentro avisando que podíamos começar a comer. Como não sabía­mos o que fazer, ele pegou um galho seco, passou no molho e comeu. E nós dois achando que aquilo era a decoração”, diz Amaral.

O cardápio do Noma, com seus galhinhos secos, flores,verduras e legumes que mudam ao sabor das estações, é o mais admirado e copiado exemplo da nova dieta nórdica, ou “viking” – um método de reeducação alimentar que se espalha entre aqueles em busca da formula mágica do emagrecimento. Seu princípio é simples e se espelha na dieta mediterrânea, aquela que, mostram estudos científicos, faz com que italianos, gregos, portugueses e espanhóis sejam mais saudáveis e esbeltos. Ela reúne 80% de grãos, legumes, verduras ou frutas vermelhas, e 20% de carnes – ou peixes, aves, ou, no caso dos nórdicos, caça. Carne vermelha, só raramente e em microporções, quando o desejo for incontrolável.

A dieta nórdica surgiu a partir das queixas de dinamarqueses a respeito das dificuldades de seguir a mediterrânea. Ela parece óbvia para os adeptos de uma alimentação saudável, mas vem embalada num pacote conceitual, um decálogo de princípios estabelecidos em 2004 durante um encontro de chefs dinamarqueses, suecos e noruegueses, capitaneado por Claus Meyer. Celebridade no mundo gastronômico, ele é uma espécie de Jamie Oliver da Dinamarca. Tem programas de TV, um conglomerado de empresas do ramo de alimentação saudável e é sócio do Noma.

O Manifesto da Nova Dieta Nórdica é quase uma versão alimentar do Dogma 95, a doutrina criada pelos cineastas dinamarqueses Lars von Trier e Thomas Vinterberg, para alguns, responsável pelo surgimento de obras de arte cinematográficas nos anos 1990 e, para outros, por uma leva de filmes insuportavelmente chatos. Segundo o manifesto, os cardápios devem privilegiar alimentos produzidos localmente, de forma orgânica e se adaptar às estações. Se a colheita de frutas silvestres ocorre durante o verão nórdico, nada de incluí-las nos pratos de inverno.

Nórdica (Foto: Reprodução)

Animais usados na alimentação devem ser bem tratados. Esqueça, então, o salmão criado em cativeiro. Todo aquele ômega-3 de sua carne só será eficaz se for pescado em frios mares dinamarqueses – ou suecos, ou noruegueses. O azeite de oliva, base da dieta mediterrânea, mas artigo raro nos países do norte, cede lugar ao óleo de canola, abundante na região. Arenque, pão de centeio, tubérculos e carne de rena também fazem parte da dieta.

Seus resultados benéficos foram comprovados pela Universidade de Copenhague. Um estudo publicado neste ano acompanhou 147 pessoas durante e depois da adesão à Nova Dieta Nórdica. O objetivo era testar o nível de aceitação, a eficiência da proposta e a manutenção do objetivo. O maior desafio de quem precisa emagrecer, muitas vezes, não é nem a perda de peso em si, mas a manutenção no longo prazo, quando geralmente as pessoas abandonam as dietas adotadas e voltam a engordar. Quanto mais radical o regime, piores as chances de sucesso na etapa posterior.

Mediterrânea (Foto: Dzmitry Shyshkouski / Alamy)

Os participantes se submeteram à dieta monitorada por 26 semanas e foram acompanhados nas 52 semanas seguintes, sem intervenção de especialistas. O trabalho chegou a conclusões bastante otimistas. Constatou altos índices de satisfação de quem fora submetido à dieta e baixo índice de recaídas. Os participantes também aumentaram a prática de atividades físicas.

A obesidade está entre os principais fatores de risco de mortalidade no mundo todo. É considerada uma doença de estilo de vida. A realidade tem mostrado que o sucesso de uma dieta depende de fatores como disponibilidade dos alimentos sugeridos, um dos pilares da dieta nórdica. Responsável pelo estudo, o médico Thomas Meinert Larsen explicou num congresso de cardiologia em Barcelona que seus princípios podem ser aplicados em qualquer lugar do mundo. “Toda dieta que afasta do junk food, do ultraprocessado e dos açúcares em todas as suas formas e que estimula o consumo de vegetais é válida”, diz o farmacêutico Maurício Lima, doutor em bioquímica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, apenas 5,8% das norueguesas estão acima do peso. Estão entre as mulheres mais magras dos países do Primeiro Mundo. É um incentivo e tanto. Mas aqui começam os mal-entendidos. Loucos para emagrecer, seguidores da dieta nórdica esquecem seu princípio básico – usar alimentos locais – e saem em busca de “berries” exóticos, arenques e outros acepipes distantes de suas realidades.

“Dieta nórdica significa comer o que está próximo de você. É o que fará bem não só a seu organismo, mas para a sustentabilidade do planeta. No Brasil, por que não substituir o trigo usado para fazer pães pela mandioca? É esse o sentido”, diz a dinamarquesa Trine Hahnemann, autora de The nordic diet: using local and organic food to promote a healthy lifestyle, livro que reúne 180 receitas que seguem os princípios do Manifesto.

Trine esteve no Brasil durante a Rio+20. Foi às compras em busca de produtos locais e orgânicos para preparar um jantar para convidados do conselho de ministros nórdicos. Usou peixes, mandioquinha (batata-baroa), couve, beterraba e frango orgânico, numa proporção de 50% de legumes e verduras, 30% de grãos e 20% de carnes. Quase enlouqueceu tentando encontrar alimentos que se adaptassem ao “dogma”, segundo a chef brasileira Flávia Quaresma, convocada às pressas para ajudá-la. “Ela teve dificuldades em encontrar produtos orgânicos de boa qualidade, para suas receitas. Levei-a para conhecer meus fornecedores, e no fim deu tudo certo.”

Menifesto  (Foto: Época)

Flávia acha graça daqueles que tentam seguir à risca os preceitos da dieta nórdica. “O que eles fizeram foi adaptar a dieta mediterrânea para sua região. Não temos de comer arenque. Chega a ser uma burrice procurar isso por aqui, onde temos sardinhas em abundância”, diz. No Brasil, Trine se encantou com a tapioca e com os sucos de frutas. Adorou suco verde, feito com couve e laranja-lima. Esbelta, Trine lembra outro princípio, válido não só para os adeptos da dieta nórdica. “Não adianta só comer alimentos locais, saudáveis. É preciso controlar a quantidade de alimentos que se ingere. É uma mudança de vida, uma volta à velha alimentação caseira.”



Fonte: Época



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

Educação canina para iniciantes: 5 dicas

Leia Mais