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É possivel uma mineração sustentável na Amazônia? Um depoimento realista

Compartilhe:     |  12 de fevereiro de 2020

Quando? Novo século, XXI para ser exata, logo na primeira década e antes da “crise de 2008”. Onde? Juruti, coração da Amazônia. Qual minério? Bauxita, minerada pela ALCOA – largamente utilizado na construção civil e nas mantas asfálticas.

Ainda energizados pelos otimistas anos 90′, quando acreditávamos piamente que o desenvolvimento sustentável batia à nossa porta, nós ambientalistas/ sustentabilistas nos envolvemos com a proposta – audaciosa – de ajudar a criar um “case” de mineração sustentável.

À frente da ALCOA estava Franklin Feder, CEO que o Ricardo Voltolini várias vezes classificou de líder visionário e que conheci pessoalmente. Franklin estava determinado a provar que era possível minerar sem predar.

Convocou um bando de ONGs para ajudar, lembro-me destacadamente do núcleo da FGV liderado por Mario Monzoni, do FUNBIO com Pedro Leitão e do ISER (RJ), ao qual eu mesma estava ligada.

O contexto era de otimismo mas Juruti, localizada no Oeste do Pará estava dividida em duas partes: uma que acreditava nos benefícios que a planta de mineração traria para o local e a outra, liderada por religiosos (acho que uma freira católica) não concordava. No meio de tudo, uma confusão danada, ministério público, prefeito achando que ia se dar bem, comerciantes afoitos, e a secretaria de meio ambiente do estado (Pará) fazendo exigências absurdas – como se a empresa tivesse que fazer todos os investimentos que o Governo nunca fez.

Fui contratada, pelo Conselho de Acionistas da Alcoa para fazer um estudo independente, para estimar o impacto do empreendimento nas comunidades e entre os jovens (em idade escolar e próximos à entrada no mercado de trabalho), bem como sugerir medidas mitigadoras caso houvessem efeitos negativos.

Sobre o estudo, contratado sob sigilo, não falarei aqui. Mas sim o que vi e ouvi quando pisei em Juruti após exaustiva viagem.

Fui alojada na “melhor pousada”, onde também ficavam os engenheiros da empresa. Era uma construção simplória e com cheiro de esgoto – que piorava com o calor e se misturava ao esgoto das ruas – que estavam em obras. A ALCOA estava bancando a construção de calhas para jogar o esgoto direto no Rio.

No jantar encontrei o médico cirurgião de um hospital (recém construído pela ALCOA – como contrapartida em quinhentas mil condicionantes). Ele me relatou que no dia em que chegou a Juruti, à tarde, antes mesmo de descansar ou comer tinha feito cinco cirurgias, todas decorrentes de brigas e conflitos entre frentistas. Algumas vezes envolvendo moradores locais. Em geral, quando os trabalhadores recebem a “semanada”. Ondas de violência, toda semana. Brigas de faca, canivete, raramente arma de fogo. Motivos? Os mesmos que movem os seres humanos há milhares de anos: mulheres, drogas, jogos e disputa de egos na brutalidade.

No dia seguinte, saí para fazer um reconhecimento da cidade (melhor dizendo, da vila em clara expansão urbana desordenada).
Tirando o previsível e acanhado comércio me espantou o numero de sapatarias com vitrines vistosas. Para que tantos sapatos femininos?

Não demorei a descobrir que as clientes eram as prostitutas locais e das vilas do entorno, que acorriam à cidade para atender aos quase 2.000 frentistas que vieram à Juruti – preparar e implantar a “planta” de extração do minério. Todas as cafetinas ou cafetões da região enviam as mulheres em caminhões. Contêineres viram “motéis” com baixa condição de higiene.

Frentistas: gente que derruba as árvores, faz o arrasto, dirige as máquinas e se envolve na construção da infra estrutura necessária. É uma mão de obra composta de homens, uma força que é recrutada até no sudeste. Ela se desloca e é vista como temporária – embora muitos acabem ficando, iniciando pequenos negócios e se casando no local.
Com estes 2.000 homens vem a violência, as doenças venéreas e os costumes “estranhos”.

Depois que o local está “preparado” para receber a planta, chegam técnicos, engenheiros, as ONGs assessoras. O primeiro passo é “construir” do nada, a sociedade civil – onde antes havia vida comunitária e quase tribal. Deu para entender ou preciso desenhar?

A cidade surge então a olhos vistos, todos os dias, crua e nua. Ruas sem sinalização, motocicletas em rebuliço, e buzinas, creche, hospital, hortas orgânicas onde os locais não têm hábito de comer hortaliças.

A extração do minério começa, os melhores empregos são dados “aos de fora” e a administração desse cotidiano doido precisa garantir a paz e o lucro.

Bem amigos, é assim que se extrai minério na Amazônia. E falei apenas do lado “legal” e de uma empresa que – ao menos assim se propôs na época – a seguir a cartilha dos novos tempos.

Nem falei da “crise das commodities” e no que acontece quando uma empresa como a ALCOA é vendida para outra e que então os sonhos vão para um manual de fundo da gaveta.

(Este texto faz parte da série que publico no site Envolverde/Carta capital – quinzenalmente, sobre o ambientalismo no Brasil)

Samyra Crespo é cientista social, ambientalista e pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins e coordenou durante 20 anos o estudo “O que os Brasileiros pensam do Meio Ambiente”. Foi vice-presidente do Conselho do Greenpeace de 2006-2008.



Fonte: Samyra Crespo, especial para a Envolverde



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