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E se… a humanidade fosse extinta totalmente da noite para o dia?

Compartilhe:     |  19 de julho de 2020

“Inabitável. Desistam. Isto aqui é uma arapuca”, são as últimas palavras no relatório. “Perdemos 15 membros da expedição, mortos por radiação. Mas acho que finalmente concluímos a contento nossa pesquisa sobre a civilização dos Rénléi. Só não sabemos de onde vêm todos esses bichos amarelos tão amigáveis.”

Era o fim de uma missão que começara séculos antes. Habitantes de um planeta ao redor da estrela Polaris (que na verdade é um sistema binário, com dois sóis) detectaram um sinal misterioso, na forma de ondas eletromagnéticas. Era música. Boa música. E decidiram partir para averiguar. Chegando aqui, o primeiro desgosto foi descobrir que já era tarde. Não existia mais a espécie que havia produzido aquela música.   

Rénléi quer dizer “humanidade” em mandarim, a língua mais falada do mundo. A transmissão de música para a estrela Polaris foi feita no aniversário de 50 anos da Nasa, em 2008 – as ondas eletromagnéticas de transmissões de rádio comuns, em FM, chegam ao espaço, mas se espalham em todas as direções e é improvável que tenham força suficiente para serem identificadas. Uma transmissão direcionada como essa, em que a Nasa enviou canções dos Beatles, teria mais chances de atingir outros seres inteligentes na galáxia. O tempo de viagem das ondas, à velocidade da luz, para atingir a Polaris seria de 432 anos. O tempo para os visitantes chegarem aqui não poderia ser inferior a esse – digamos 437 se se locomovessem a 99% da velocidade da luz.

Suponha, então, que a visita do pessoal inteligente do Sistema Polaris aconteça 900 anos após a transmissão da Nasa. E que a humanidade deixe de existir abruptamente no ano de 2030 – sem guerra nuclear nem nenhum evento espetaculoso, só com todos os humanos morrendo da noite para o dia, talvez por conta de um vírus exageradamente mortal. 

Esses visitantes encontrariam muitos cachorros – mas um pouco diferentes daqueles com que estamos acostumados. Existem 470 milhões de cães mantidos como pets. Sem humanos para alimentá-los, a maior parte morreria, claro. Entre os que conseguissem escapar para a rua, os menores seriam canibalizados pelos maiores – cães partem para esse último recurso quando abandonados em abrigos, por exemplo.

Os que sobrevivessem a esse apocalipse zumbi dos cachorros provavelmente acabariam cruzando até chegar a uma forma comum em cães sem dono na natureza: grandes cachorros amarelos, como os dingos da Austrália e vira-latas rurais da China e da Índia.

O fato é que seria uma população estável e numerosa. Metade da população canina mundial, de 1 bilhão de indivíduos, já vive por conta própria. E a humanidade lhes fez o favor de tornar o mundo um lugar com poucos predadores de grande porte, como leões e tigres. Esses vira-latas disputariam alimento com os “gatos ferais”. São animais que também existem hoje – geneticamente idênticos aos gatos domésticos, mas que acabaram criados em ambiente selvagem, sem contato com humanos, e formam bons grupos de caçadores.

Animais de fazenda teriam também que achar um jeito de escapar, e ocupariam outros nichos. Porcos já fogem e se transformam em “javaporcos”. Vacas dependem de pastagens, o que pode ou não ser o ambiente em torno delas: as que são criadas em confinamento, em regiões sem pastagens, como a maioria das raças leiteiras, acabariam extintas. Outras, vai do lugar: a Amazônia acabaria por clamar de volta os terrenos desmatados e convertidos em pastagens. De mato baixo, no Brasil, restariam apenas o Cerrado, o sertão e as pradarias do Sul. 

Com tanta carne disponível, predadores como as onças se tornariam muito mais comuns. Mas, para a natureza em geral, a notícia não é boa notícia. Quase todas as plantas agricultáveis são “espécies invasoras”, trazidas, e controladas, por humanos. Sem gente por perto, o trigo poderia tomar o lugar de gramíneas no Cerrado. Essa invasão pode levar à extinção de espécies nativas.

Na falta de um corpo de bombeiros, não haveria como controlar certos incêndios – causados por raios e rupturas de tubulações de gás abandonadas. O fogo, então, acabaria logo com parte dos prédios e das casas. As edificações que escapassem desse destino pirotécnico também não aguentariam muito tempo. A maioria, com suas estruturas em concreto armado (metal coberto por cimento) acabaria por ruir pela corrosão do aço. O tempo de vida de um prédio moderno, sem reformas, é calculado em no máximo 100 anos.

Em um lugar como São Paulo, em meio a ruínas, ainda seria possível encontrar asfalto: a natureza estaria, lentamente, partindo-o com suas raízes, mas é incapaz de crescer em cima. Os aliens provavelmente ficariam intrigados com outra coisa: os milhares de painéis de vidro espalhados por entre essas ruínas. Um carro pode ser decomposto inteiramente por corrosão – a última parte a sumir é o motor, em cerca de quatro séculos. Os vidros, porém, até serem reduzidos a partículas, como areia, levariam milhares de anos.

E teria a radiação. Usinas nucleares contam com vários métodos para evitar catástrofes. Alguns deles são automáticos e param reações nucleares sem intervenção humana quando elas saem do controle. Outros exigem geradores a diesel ou a presença contínua de fluido refrigerador.

Algumas usinas acabariam sofrendo meltdown, mas provavelmente nada tão espetacular como Chernobyl – apenas uma contaminação interna. O problema é que, com o tempo, os prédios das usinas decairiam. Uma hora ou outra, o ambiente acabaria contaminado em 440 lugares ao redor do mundo com radiação, incluindo Angra dos Reis.

Também não seria fácil para os arqueólogos do espaço descobrirem como era exatamente o nosso modo de vida. Computadores, celulares, discos rígidos e placas de memória também sofrem degradação natural. Os HDs em SSD, a coisa mais resistente que temos hoje para guardar informação (seja na nuvem, seja em casa), podem durar alguns séculos sem se desintegrar, mas não muitos. Mesmo livros só são preservados em condições muito especiais, exigindo a ausência de luz ou circulação de ar para resistir ao tempo. Haveria certamente alguns lugares onde essas condições permitiriam a preservação de alguns fragmentos de nosso passado.

A “era das trevas” digital, aliás, já é uma realidade, com a destruição de dados pela degradação de fitas magnéticas e discos flexíveis que nunca foram convertidos. Nossa história estará mesmo nas ondas eletromagnéticas que soltamos para o espaço, com nossas músicas, nossos filmes, nossas conversas pelo celular. No fim, esse eco é tudo o que vai restar daquilo que chamamos de humanidade.



Fonte: Superinteressante



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