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Em destaque: A vermicompostagem e a “Jardins Orgânicos” na gestão de resíduos orgânicos

Compartilhe:     |  8 de outubro de 2020

Por Claudiana Mª da Silva Leal* e Eduardo José Diehl**

Fritjof Capra (1996) assevera que a preservação da vida do planeta é um alvo Humano, visão sistêmica. Assim, cidadãos proativos devem internalizar mudanças de hábitos aos quais eclodem a preservação ambiental.

A sociedade do futuro na perspectiva da sustentabilidade dependente do conhecimento gerado e socializado. Leff (1999), complementa, a atenção voltada para a educação na interface natureza/sociedade será ardilosa na construção de uma sociedade sustentável.

No Brasil, a Lei 9.795/1999, política Nacional de Educação Ambiental associada a Política Nacional de Resíduos Sólidos, Lei 12.305/2010, determina a separação dos resíduos sólidos na fonte geradora, ou seja, quando os resíduos são produzidos.

Nessa responsabilidade, o panorama é de sucesso na redução dos resíduos sólidos, consequentemente, na execução eficaz da coleta seletiva e reciclagem, na sequência.

No Brasil, cerca de 60%, dos resíduos sólidos, de origem urbana, são matéria orgânica, ou seja, mais da metade de nossos resíduos são orgânicos. (IBGE 2000). Estes ao transformarem-se em adubo, afiançam solo rico em nutrientes garantindo víveres para segurança alimentar, bem como, conforto ambiental pela presença da vegetação abundante incluindo hortas e jardins.

Compostagem e vermicompostagem

Compostagem por Pereira Neto apud Souza (1988) é um processo aeróbio controlado, desenvolvido por uma colônia mista de micro-organismos, efetuado em duas fases distintas onde ocorrem as reações bioquímicas de oxidação mais intensas, predominantemente, termofílicas e a fase de maturação, quando ocorre o processo de humidificação.

Segundo Rezende (2009), a compostagem inicia pela compreensão do processo do ciclo do carbono ou ciclo da matéria orgânica, em que vegetais produzem matéria orgânica, estes são consumidos pela cadeia de consumidores primários, os mesmos alimentos pelos secundários, e assim por diante na cadeia alimentar.

Naturalmente, a decomposição de resíduos é livre, mas em ambiente artificial copia-se a natureza porém de forma controlada para produção de adubo.

As minhocas vermelhas da Califórnia (Eisenia foetida) são acrescentadas a compostagem para tornarem-se vermicompostagem, cujo resultado é a produção de fertilizante de alta qualidade física, química e biológica para o solo, o húmus. Destacamos aqui, que as minhocas tem fototropismo negativo, não suportam luz, e necessitam de uma camada de folhas sobre elas no processo controlado de vermicompostagem.

Segundo Leal & Diehl (2012), a vermicompostagem doméstica portátil é uma mini usina de adubo orgânico que promove a educação ambiental, pelo exercício cotidiano da destinação final dos resíduos orgânicos transformando-os em adubo, resultado de uma pesquisa experimental aplicada por mais de uma década, pelo paisagista Eduardo Diehl e aplicada em seus jardins orgânicos e hortas urbanas, também, utilizada na gestão de resíduos por Claudiana Leal.

Neste processo, o conhecimento modelado pela natureza, atende a não geração de chorume e busca promover a decomposição acelerada nos processos biológicos e bioquímicos.

Os materiais utilizados na vermicompostagem são: 1- úmidos, os “coloridos” (nitrogênio), os resíduos orgânicos da cozinha, cascas e restos de vegetais, legumes crus e frutas, borra de café incluindo o filtro, os chás com saquinho, folhas verdes, cascas de ovos triturados após secagem, e pão esfarelado; e 2- secos os “marrons” (carbono), folhas secas, pó-de-serra e palha secas de diversas origens, material de varredura da casa e pátio, aparas de madeira, palitos e fósforos, flores secas, pequenos ramos e arbustos picados, papel jornal, papelão rasgado, papéis rasgados. O tamanho destes materiais devem ter entre 02 a 06cm para uma melhor digestão microbiana, evitando o risco de compactação e falta de oxigênio.

Os materiais inadequados para a vermicompostagem são carnes, peixes, ossos, espinhas, mariscos, laticínios, gorduras, queijo, iogurte, manteiga e molhos, cortiça, os resíduos de jardim tratados com pesticidas e cinzas de carvão de churrasqueira, têxteis, estopas com óleos, graxas, tintas, produtos químicos em geral. Os excrementos de cães e gatos contem microrganismos patogênicos, também devem ser excluídos, pois sobrevivem à vermicompostagem.

Manejo da vermicompostagem

A vermicompostagem doméstica portátil necessita de garfo, pazinha de jardim, luvas e de uma caixa resistente, durável, de or marrom, industrializada a partir do polipropileno (PP), contendo até 40 a 60% de resina reciclada, em dois tamanhos, 38 litros (pequeno – dimensões, 28x55x37cm, recicla 200g por dia) e 130 litros (grande – dimensões 56x78x41cm, recicla 500g por dia). A tampa da caixa deve ser perfurada com broca de 12mm, para oxigenação, ver Figura 1 e 2, permitindo a aeração e os processos biológicos de oxidação degradando os resíduos orgânicos.

A escolha da localização da caixa deve ser de fácil acesso, em local sombreado, protegido de chuva e ventilado, também, sem barulho excessivo, e próximo ao ponto de geração dos resíduos orgânicos. O arrumação da vermicompostagem no interior da caixa, no mínimo, três camadas: 1ª. camada, marrom (mantem as condições de umidade, temperatura, ventilação e iluminação adequadas, bem como, terra rica em micro e macro organismos, (minhocas e seus ovos, bactérias, fungos e leveduras, actninomicetos, protozoários, ácaros, colêmbulos, coleópteros, insetos, pequenas aranhas, e outros anelídeos), acelerando o ciclo da matéria orgânica; 2ª. camada, a colorida; 3ª. camada marrom ou mulch de altura entre 10 a 15 cm.

Denomina-se mulch, o ambiente favorável a fauna de solo, este tem a finalidade de bloquear o cheiro característico da decomposição dos resíduos orgânicos, e assim, protege o acesso de moscas diretamente no composto evitando deposição de seus ovos.

Em resumo, a arrumação da vermicompostagem se assemelha a uma “lasanha”, guardando as devidas proporções, ou seja, após as três camadas citadas segue na sequência sendo o marrom sempre a última camada.

O tempo de maturação dos resíduos orgânicos na vermicompostagem inicia a partir de três semanas, após este período, as minhocas necessitam de mais resíduos orgânicos e o composto já vai sendo formado para ser utilizado.

O odor da vermicompostagem é adocicado devido a fermentação e de terra molhada quando concluído o processo. Caso ocorra cheiro ruim, bactérias indesejáveis produzindo gases, falta de oxigênio no sistema, por colocação de carnes e/ou alimentos cozidos na proporção maior que a suportável ao tamanho da caixa. A solução, reter a colocação do material colorido por pelo menos três dias, revolver o material e adicionar pó de serra ou terra seca.

Pode acontecer, ainda, a presença de moscas das frutas (Drosophila melanogaster) proveniente de frutas maduras com ovos dessas moscas, daí, larvas de moscas eclodem em abundância. O controle Figura 1 Composteira portátil tampada de novas moscas deve-se a colocação de reforço na última camada (marrom) com folhas secas. Havendo estabilidade no processo de vermicompostagem observa-se que a fauna de solo se mantem tranquilas no interior da caixa.

A umidade da vermicompostagem deve ser em torno de 50%, e não precisa de água adicional, pois as cascas de frutas e vegetais frescos já contêm em média 80% de umidade. Na prática, aperta-se com a mão um punhado de composto pronto, e entre os dedos não deve escorrer líquido, umidade adequada. E, recomenda-se misturar os materiais secos e molhados, dando reviradas periódicas, para evitar o excesso de umidade no fundo da caixa.

A aquisição do adubo está diretamente ligado a relação carbono/nitrogênio. Carbono, fonte de energia e o Nitrogênio influencia diretamente a reprodução dos microrganismos. Para o início do processo de compostagem a relação Carbono/Nitrogênio deve ser da ordem de 30:1 (KIEHL, 1985). Acima de 40:1 falta nitrogênio que ocasiona a diminuição da velocidade de decomposição. Abaixo de 25:1 tem excesso de nitrogênio com volatilização da amônia.

O tempo da vermicompostagem são 60 dias. Após, deixá-lo repousar em saco de ráfia aberto, em local protegido do sol e chuva, por mais 3 a 4 semanas, ou seja, finalizar a maturação. O uso do húmus deve ser na proporção 1/3 de composto para 2/3 de terra.

O composto em sendo peneirado, o que ficar retido na peneira deve retornar ao processo, por estarem repletos microrganismos. A vermicompostagem da “Jardins Orgânicos” amplia a reciclagem dos resíduos sólidos domésticos diariamente, dando destino final sustentável aos resíduos orgânicos da cozinha, formando, ainda, uma consciência pratica aos cidadãos na preservação ambiental, uma atuação planetária responsável para o futuro das gerações.

*Claudiana Mª da Silva Leal é doutora em Engenharia Civil e gestora de Resíduos Sólidos
*Eduardo José Diehl é médico veterinário e paisagista,
[email protected] e [email protected]



Fonte: Espaço Ecológico



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