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Em meio ao debate sobre o clima, um tempo para refletir sobre alimentos e remédios que consumimos

Compartilhe:     |  13 de dezembro de 2019

O ano era 1906. O Congresso dos Estados Unidos, então na era Roosevelt, promulgou um Decreto sobre a Pureza dos Alimentos e Remédios. Era uma lei que, pelo menos teoricamente, daria às pessoas alguma segurança sobre o que ingeriam e não tinha sido plantado e colhido pelas próprias mãos. Havia em curso uma expansão das indústrias de alimentos processados, química e farmacêutica, o que começava a afastar os cidadãos do contato com a terra e da noção de que alimentos e remédios vindos da natureza eram totalmente benéficos e eficazes para mantê-los vivos. Rótulos mostrando uma quantidade cada vez maior de substâncias químicas sintéticas, capazes de substituir o natural pelo artificial, com a promessa de serem mais eficazes, passaram a ser vistos como a vanguarda, um pé no futuro e, quem sabe, a chance de se chegar alcançar a vida eterna.

Cem anos se passaram e o jornalista Randall Fitzgerald, preocupado com as ameaças químicas contra a saúde de todos, escreveu o livro “Cem anos de mentira” (Ed. Ideia e Ação), em 2006, que veio parar na minha estante há poucos dias e, desde então, não saiu das minhas mãos. Quase ao mesmo tempo, a Fundação Heinrich Böll Stiftung enviou-me sua última publicação brasileira, escrita por Gabriel Bianconi Fernandes, na qual denuncia as “Novas biotecnologias e velhos agrotóxicos” como um “modelo insustentável que avança e pede alternativas urgentes”. Ainda no mesmo tempo, desde ontem passei a ver, aqui no site do G1, o anúncio da Anvisa, pedindo a ajuda da população na Consulta Pública sobre rotulagem nutricional.

A simultaneidade em que chegaram a mim essas informações não me deixa outra alternativa senão esquecer por um momento a Conferência das Partes sobre o Clima (COP 25), que está acontecendo em Madri e lançar meu holofote particulares sobre a questão da nossa nutrição. No fundo, está tudo interligado. Pois que, com o aquecimento global em curso, fenômeno causado pela nossa industrialização excessiva, alguns países, como a Síria, já sentem dificuldade em plantar por causa da seca. Será falsa a promessa de que vai ser com tecnologia que vamos conseguir enfrentar este problema e produzir os alimentos que precisamos daqui para frente? Tendo a crer que sim.

Antes de qualquer coisa é bom lembrar que o governo brasileiro liberou, em seu primeiro ano de vida, 325 agrotóxicos, num ritmo que já é considerado o mais alto da história desde 2005. E que isto não é pouca coisa. E que há um sem-número de estudos e pesquisas comprovando o aumento de doenças fatais com nossa exposição a tais substâncias. E que o que está por trás de tanta liberação é o interesse comercial, um projeto de desenvolvimento a qualquer custo. Um custo que pode ser bem alto para a saúde humana, como comprovou Fitzgerald em suas pesquisas:

“Nos últimos cem anos, a taxa de mortalidade devido ao câncer subiu de 3% para 20% do total de mortes ocorridas. A incidência de diabetes cresceu de 0,1% para quase 20% da população. As doenças cardíacas passaram de algo praticamente inexistente para um fator responsável pela morte de 700 mil pessoas por ano”.

O jornalista é cético com relação ao quanto podemos confiar nas informações liberadas pelos governantes; na indústria que “põe no rótulo” ou, mesmo, na ciência. E sugere que se confie na própria intuição na hora de fazer escolhas sobre alimentos.

“Se tivermos de ser utilizados como cobaias, que seja segundo nossos termos. É preciso que aprendamos a confiar em nossas próprias experiências, nossos poderes de observação e em nossa intuição”, escreve ele.

Faz sentido. Sobretudo se considerarmos o alerta feito pelo engenheiro agrônomo, mestre em História das Ciências Gabriel Bianconi Fernandes, na publicação lançada pela Fundação Heinrich Böll, de que a solução oficial dada há cerca de 15 anos, justamente com o propósito de tentar diminuir o uso abusivo de agrotóxicos, são as lavouras transgênicas, que aplicam um volume significativo destes produtos. E elas vêm dando lugar a uma nova frente tecnológica, as novas biotecnologias, “parte integrante e constituinte do paradigma da Revolução Verde”, que “parecem estar encontrando um vazio regulatório”.

Várias questões estão em jogo na discussão sobre os velhos agrotóxicos e sua relação com as novas biotecnologias, entre eles o próprio esgotamento dos recursos naturais combinado com os efeitos das mudanças climáticas, garante Fernandes. O mais complexo é que o sistema pesquisa-desenvolvimento-inovação ligado a este modelo atual não quer dialogar com nenhum outro.

A agroecologia, por exemplo, que sugere técnicas orgânicas de produção, com ações integradas, não recebe investimentos. Se estamos vivendo, como se sabe, uma era de incertezas e de muitos desafios por conta das mudanças do clima, por que não dialogar com todas as formas que se apresenta para criar soluções?

Expedição Campo: agroecologia

Expedição Campo: agroecologia

“A tecnologia dominante só pode oferecer respostas dentro do sistema que lhe deu origem e da qual ela é parte: falhas com sementes transgênicas são respondidas com mais sementes transgênicas. A naturalização desse modelo e a aceitação de seus impactos passam pela construção deliberada da ideia de que não há alternativas viáveis ao atual modelo”, escreve Gabriel Bianconi Fernandes.

Saber disso já é um primeiro passo para se pensar em outras alternativas. E, como sugere o jornalista norte-americano em seu livro, a escolha pode ser de cada um. Uma pesquisa realizada com os consumidores pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos em 1926 constatou, segundo Randall Fitzgerald conta em seu livro, que “a maioria dos norte-americanos preferia consumir alimentos frescos aos processados industrialmente, por razões de sabor e valor nutritivo”. No entanto, 100% dos entrevistados concordaram quanto ao fato de os alimentos processados serem mais práticos.

“Em vista disso, eles se mostravam dispostos a sacrificar o sabor e o valor nutricional de suas refeições para gastar menos tempo em prepará-las”, escreve ele.

Nada mais justo e democrático do que fazer escolhas. O que se quer, no entanto, é que haja informações circulantes para que tais opções sejam tomadas com base sólidas. Há momentos em que desembalar um produto pode ser mesmo mais prático do que descascar, cozinhar, refogar antes de comer. Nesta hora, que bom que se pode ter esta opção.

Mas ela não pode ser oferecida com base em informações falseadas e preços irrisórios. Nenhum suco de fruta industrializado, por exemplo, é capaz de substituir o suco da fruta in natura. Nem chega perto. Nenhum leite, por exemplo, é melhor do que o leite materno para nutrir o recém-nascido. É importante que essas informações fiquem cada vez mais claras para todos.



Fonte: G1 - Por Amelia Gonzalez



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