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Em semana de temporal, 785 árvores caíram. O que pensar sobre isto

Compartilhe:     |  14 de fevereiro de 2019

A cidade do Rio de Janeiro, onde moro, está em regime de atenção enquanto escrevo este texto. Há chances, segundo os meteorologistas, de um temporal menos intenso do que o de quarta-feira passada, mas assim mesmo vai chover bastante e é bom que a gente se cuide. Há uma semana, tivemos por aqui um casamento de ventos que chegaram a 110km/h com um volume de água que descia do céu como há muito não se via. O resultado, infelizmente, foi o que o carioca já sabe que vai ver depois de fortes temporais: caos urbano, deslizamentos e, neste caso em especial, seis mortos.

Ouvindo a entrevista que o prefeito Crivella deu na manhã seguinte eu reparei que ele fez muita referência às árvores. A tempestade arrancou muitas delas. O prefeito disse que a cidade tem um milhão de árvores, e é claro que foi apenas modo de dizer. Houve um dado quantitativo horas depois para ilustrar o estrago e o caos urbano: o secretário municipal da Casa Civil, Paulo Messina, afirmou que houve 186 quedas de árvore pelas ruas da cidade. E a Comlurb, a meu pedido, mandou-me uma espécie de relatório do seu trabalho de limpeza de quarta até ontem (12), onde consta que caíram foram registradas 781 árvores.

Fato é que, numa rápida caminhada no fim de semana, entre Laranjeiras e Botafogo, eu mesma contei três troncos que um dia foram árvores. Não sei se caíram por causa da tempestade ou se tiveram que ser retiradas, mas causa sempre um incômodo forte ver a cena. Árvores são fundamentais para a humanidade, para que se possa ainda ter um pouco de qualidade de vida em cidades que cresceram e incharam tanto quanto o Rio, São Paulo… No caso da tempestade de quarta, foram ao mesmo tempo vítimas e algozes porque, quando caem, causam estragos na vida urbana, um transtorno enorme, e não é a toa.

Pensando sobre esta contradição enquanto acompanho a evolução da chuva, que já cai em alguns pontos do Rio, busquei, via internet, a opinião de alguns ambientalistas. Com dados de realidade, visão histórica e muitas censuras, fui costurando o pensamento. Há um sentimento confuso na população urbana sobre as árvores. Todo mundo adora, desde que elas não sujem os carros, as ruas, não atrapalhem o caminhar nas calçadas e, principalmente, que não caiam onde possam atrapalhar o fluxo do trânsito.

O que talvez não se perceba, sobretudo na hora das enchentes, é que quanto mais árvores uma cidade tiver, maior será a chance de a água das chuvas escoar para o lugar certo em vez de empoçar e causar enchentes. O que precisa ter é um olhar diferenciado e mais cuidadoso para o processo de arborização urbana.

A começar, pela escolha das árvores que serão plantadas na cidade. Historicamente, sabe-se que as primeiras sementes plantadas em solo urbano foram trazidas da Europa: mangueiras, jaqueiras, fruta-pão, tamarindo, figueiras, são espécies exóticas que acabaram se dando bem no nosso clima. Ninguém pode negar o prazer de se refrescar à sombra de uma mangueira, por exemplo. O que acontece é que uma árvore não é apenas a copa. Ou melhor: quando se vê uma árvore muito frondosa, é preciso atentar para o que está no subsolo. Quanto maiores e mais robustas, mais fornidas serão também suas raízes. E é aí que está o problema maior.

Gola é aquela parte que se deixa em volta de uma árvore, depois de plantada, para que ela respire e possa absorver a água. Quanto mais apertada a gola, menos espaço terão as raízes: esgoeladas, elas subirão e vão estufar a calçada, causando estragos tremendos.

Mas, há árvores que possam ser consideradas ideais para uma cidade? Sim, há. O Oiti, por exemplo. O problema é que, com a melhor das intenções, muitos moradores tomam para si a decisão de enfeitar a rua e acabam plantando árvores totalmente inadequadas. Repito: com a melhor das intenções. Mas, como se sabe, nem sempre uma boa intenção é o melhor caminho para se resolver um problema verdadeiro. Há casos em que, por conta de as raízes de uma árvore terem crescido acima da tubulação, os técnicos da companhia de água ou de telefonia precisaram tirá-las para consertar um vazamento seríssimo numa rua. Ou devolver a internet.

Pode acontecer também, como já aconteceu muitas vezes, que a árvore passe a atrapalhar uma ligação feita pela companhia que cuida da iluminação das ruas. É preciso, então, podar alguns galhos, mas isso também tem que ser feito com muito rigor. Mesmo – de novo! – com a melhor das intenções, os funcionários da companhia de luz não estão capacitados para isso, e acabam causando uma mutilação (termo empregado pelos ambientalistas) na árvore. Poda inadequada, que acaba com as características arquitetônicas e mexe com a estrutura da árvore.

O que deveria haver então, e isto foi consenso entre os artigos dos ambientalistas com os quais fui “conversando” via internet, é uma espécie de “processador central”. Algum funcionário ou órgão que pudesse ter uma visão macro de toda a cidade e conseguisse fazer a interface entre os serviços necessários para mantê-la funcionando e o plantio de árvores, que são necessárias, muito necessárias.

Hora de tergiversar. A chuva começou a cair forte, e vou pensando que talvez este “funcionário processador” seja o próprio meio ambiente. Quando ainda se acreditava que os bens naturais eram finitos, ninguém ligava muito para uma árvore que caísse ou que fosse mal plantada. Aos poucos este conceito foi mudando, e o meio ambiente passou a fazer parte das decisões governamentais, mas sempre ocupando um lugar subalterno – já foi secretaria de obras e meio ambiente; secretaria de habitação e meio ambiente, assim por diante.

Até que, por pressão internacional e argumentos racionais de quem antevê as coisas, o meio ambiente passou a protagonizar e a mostrar que ele é o link entre todas as coisas. E que precisa ser ouvido nas tomadas de decisões, já que são os ambientalistas que poderão botar o dedo na ferida e dizer: “olha, isso não vai dar certo”. Eis o problema. Foi aí que o meio ambiente também passou a se tornar o vilão para muitos, sobretudo para a camada da população que se esquece que as pessoas precisam vir antes do lucro, que a vida humana está acima de tudo.

Estamos neste momento. Sem floreios, o ministro do meio ambiente Ricardo Salles diz, em todas as entrevistas, que o desenvolvimento será priorizado porque é isso que o brasileiro quer. E que, para isso, é preciso relaxar em várias medidas que poderiam empacar este caminho. Muita gente aplaude. O bom é que estamos numa democracia, onde é possível também criticar, avisar, discordar. É este o papel dos ambientalistas.

Amélia Gonzalez  — Foto: Arte/G1



Fonte: G1 - Amélia Gonzalez



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