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Em tempo de casamento real, uma visita aos pensamentos de Charles, o príncipe ambientalista

Compartilhe:     |  19 de maio de 2018

Hoje foi o dia do casamento real. Confesso que acho bastante bizarro todo este movimento em torno de uma união entre duas pessoas, mas preciso deixar de lado meus pensamentos pouco ortodoxos e entender que, no fim das contas, é de uma cultura que se está falando. E eu respeito todas as culturas. Mas, de verdade, vou sentir falta de Rachel Zane, a personagem que Megan Markle interpretava em “Suits”, excelente série da Netflix.

Fato é que o mega evento me aproximou um pouco da vida dessas pessoas nascidas para viver o papel de reis, rainhas e princesas. Assisti à biografia de Diana Spencer, bom documentário também disponível. Impressionei-me, de novo, com o barulhão que ela provocava cada vez que saía às ruas. Indignei-me novamente com o papel dos paparazzi, ainda mais com o fato, indiscutível, de que tal intromissão na vida alheia tornou-se ainda mais espraiada com a farta distribuição de câmeras em telefones e com a facilidade com que se consegue fazer chegar as imagens à mídia. Vide, por exemplo, o vídeo em que o ex-ministro José Dirceu é conduzido à prisão, feito hoje mesmo por um amador. São novos tempos, mas como em tudo, é preciso dosar também essa prática.

Voltando aos passos da família real, lembrei-me de um livro lançado em 2011 pelo príncipe Charles (por sinal, a quem Megan Markle pediu para acompanhá-la ao altar) que se chama “Harmony – A Revolução da Sustentabilidade” (Ed. Campus Elsevier). E penso que posso dar alguma contribuição para conhecermos um pouco sobre os pensamentos de Charles a respeito da natureza e os impactos que a humanidade tem causado ao tratar com tanto descuido os bens naturais. A quem interessar possa.

Sim, o príncipe Charles é um ambientalista muito preocupado com os problemas socioambientais do mundo. E, como só acontece a um membro de famílias reais, teve tempo e ferramentas suficientes para se aprofundar no tema. O livro é denso, tem mais de 300 páginas, e reflete bastante o resultado de tanta especialização.

Logo no início, Charles dá o tom daquilo que o leitor vai encontrar nas páginas que se seguem. O príncipe faz um apelo forte, dizendo que o mundo está precisando de uma revolução, uma mudança radical “no modo como enxergamos o mundo e como atuamos nele”.

“Os alarmes da Terra estão soando alto e, por isso, não podemos continuar indefinidamente ocultando a verdade, buscando encontrar justificativa questionável após outra para evitar a necessidade de a raça humana agir de forma mais benigna em relação ao ambiente”, escreve o príncipe de Gales.

Na narrativa que se segue, ele vai abordar assuntos absolutamente conhecidos e respeitados por quem, como eu, se dedica a estudar as propostas que surgem – ou não – para um desenvolvimento sustentável. Charles reconhece que todos os problemas que enfrentamos no mundo, hoje, estão, de alguma forma interligados. E é interessante perceber, no texto, que ele praticamente se justifica por tratar de tantos assuntos ao mesmo tempo.

“Temos de examinar a situação como um todo, a fim de melhor compreender os problemas que enfrentamos”, escreve ele.

A humanidade está equivocada, com erro de percepção, garante o príncipe. Uma forma de ajudar a se construir um novo olhar sobre o mundo é com informação, e Charles se presta a compartilhar com o mundo tudo aquilo que aprendeu em 30 anos de estudos. Simpático. Sobretudo quando, logo nos primeiros capítulos, introduz um pensamento filosófico, anti-dogmático e anti-mecanicista. E aproveita para cutucar os ateus e o empirismo:

“… afinal, nenhum tomógrafo conseguiu capturar a imagem de um pensamento nem de um pouco de amor… sendo assim, o pensamento e o amor também não existem”, escreve.

Bem, talvez fosse o momento de discordar um pouco de Sua Alteza, já que está misturando as coisas. Mas, sigamos na leitura porque há aspectos menos abstratos e de suma importância para se entender como pensa o possível futuro rei da Inglaterra sobre os impactos da industrialização na natureza. Para ele, o meio ambiente foi sendo reduzido ao que é hoje: matéria-prima. Dessa forma, Charles critica a concentração de esforços no sentido de ver sempre resultados funcionais de tudo aquilo que se vê ao redor.

“A matéria-prima é um elemento funcional, mas só pode ter uma função quando é removida do ecossistema do qual depende, enviada a uma fábrica e transformada em outra coisa que é vendida como um produto. Posso ouvir pessoas dizendo: ‘E qual é o problema?’ A resposta é, não há problema algum, se prestarmos atenção ao quadro como um todo. Como as coisas são, nos concentramos apenas nos resultados, naquilo que sai da linha de produção. Não levamos em conta o impacto que esse processo exerceu sobre todo o sistema – que, aliás, também nos inclui”, escreve o príncipe.

O livro é, também, uma aula de história, já que visita eras antigas e personagens importantes para a humanidade. Ele conta, por exemplo, os primórdios das descobertas químicas do alemão Justus Von Liebig, considerado “pai do segmento de fertilizantes”, já no fim do século XIX. Descreve suas experiências como danosas à humanidade e traz também o contraponto, quando o filósofo Rudolf Steiner, um século depois, proferiu uma série de palestras sobre a crise na agricultura.

“Ele (Steiner) descreveu a abordagem de Liebig como uma proposta que retirava a agricultura do reino da vida e colocava-a no reino da morte… Hoje vivemos com o legado do trabalho pioneiro de Liebig, pelo qual a grande maioria dos alimentos que consumimos é produzida por um método de agricultura que se tornou assustadoramente desconectado da Terra”, diz Charles.

Por fim, mas não menos importante, o Príncipe de Gales faz uma homenagem sincera aos indígenas, defendendo que esses povos passem a ter o controle da terra para inibir o desmatamento. E dá o exemplo da Floresta Amazônica:

“Os mapas que mostram os padrões recentes de desmatamento nesta vaga região comprovam como a diferença tem sido impressionante. Em muitas das áreas mais atingidas, onde o desenvolvimento se deu fora das reservas indígenas, o processo de desmatamento está praticamente completo. Contudo, os povos indígenas receberam o controle da terra, as florestas têm sido mantidas, em sua maioria, e as emissões de gases estufa e perda de biodiversidade foram reduzidas”.

Sua Alteza Real, assim, mexe num vespeiro, já que tem muita gente contra essa ideia, como se sabe. Mas ganha, por outro lado, a simpatia dos colegas ambientalistas. O livro vale a pena, sobretudo pelas informações e dados históricos.



Fonte: G1 - Amelia Gonzalez



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