Entrevista

Entrevista: Cardiologista fala sobre natureza e saúde do coração

Compartilhe:     |  17 de novembro de 2019

Em entrevista, o cardiologista Helman Campos Martins fala sobre natureza e saúde do coração e quais são as principais doenças daquele órgão vital para o ser humano. O cardiologista também comenta sobre as tecnologias capazes de antecipar o risco e diagnosticar com antecedência aquelas pessoas que vão ter doenças cardiovasculares.

Outro assunto que o Dr. Helman destaca é se o uso de ômega 3 pode prevenir as doenças cardiovasculares e quais são os hábitos alimentares que devemos cultivar. O cardiologista ainda explica porque apreciar a natureza numa caminhada e realizar exercícios físicos ajuda para termos uma boa saúde.

O Dr. Helman conclui sua entrevista comentando sobre às intervenções cirúrgicas, principais avanços na cardiologia e um conselho para quem quer reduzir o risco de doenças cardiovasculares e, consequentemente, viver mais e melhor.

Confira a entrevista:

Espaço Ecológico – Quais são as principais doenças do coração?

Dr. Helman – As doenças cardiovasculares são as que mais matam. A principal delas é o infarto agudo do miocárdio. Essa doença atinge cerca de 150 mil brasileiros por ano de mortalidade, ou seja, que morrem por infarto. Então, medidas preventivas são importantíssimas para prevenir a morte, como atividade física regular associada a perda de peso, ficar longe do tabagismo, redução do colesterol e diminuição do estresse, além do controle da diabetes, uma doença que acelera muito a doença aterosclerótica, e da hipertensão arterial, quer dizer, precisamos combater esses fatores de risco para evitar lá na frente as complicações maiores.

Espaço Ecológico – Hoje existem tecnologias capazes de antecipar esses riscos e diagnosticar com antecedência aquelas pessoas que vão ter doenças cardiovasculares?

Dr. Helman – É o grande desafio. Existem pessoas que não têm sintoma característico como, por exemplo, a dor no peito, que sinaliza algum problema no coração, ou palpitações. Então é nosso desafio identificar precocemente esses pacientes que podem desenvolver um quadro maior, como o quadro de infarto. Existem exames funcionais como a ergometria, o teste de esteira, a cintilografia do miocárdio, a angiotomografia, mas principalmente a avaliação clínica que é muito importante. Alguns pacientes, alguns subgrupos com pacientes diabéticos, pacientes idosos podem não ter, de maneira clara, a manifestação clínica. Aí está o grande desafio que é identificar pacientes vulneráveis e com um maior risco cardiovascular. Esses pacientes merecem uma atenção especial para que a gente identifique precocemente para tratar as complicações, antes que elas aconteçam.

Espaço Ecológico – Costuma-se falar que o uso de ômega 3 pode prevenir as doenças cardiovasculares. Realmente faz efeito e quais são os hábitos alimentares que devemos cultivar?

Dr. Helman – A questão do ômega 3 vem da avaliação que os esquimós, que têm uma dieta praticamente à base de peixe, rico em ômega 3, não desenvolvem doenças cardiovasculares. A partir daí, entendeu-se que uma dieta rica em ômega 3, ômega 6, poderia ter um efeito protetor. Infelizmente, as evidências científicas são muito pobres no sentido de confirmar. Inclusive, nas diretrizes americanas e europeias colocam essa suplementação com ômega 3 como não indicada. Então, não é uma verdade científica utilizar de maneira sistemática o ômega 3 na prevenção cardiovascular.

Espaço Ecológico – Com relação a nossa alimentação, o que nós devemos realmente consumir e evitar?

Dr. Helman – O excesso de gorduras saturadas, aquela gordura de origem animal que é muito maléfica, além de um tipo de gordura muito encontrado em recheios de biscoitos, a gordura trans, que tem como efeito inflamar os vasos e potencializar o aparecimento da arteriosclerose. Então, uma dieta rica em frutas e verduras, alimentos com baixa quantidade de gordura animal e grãos, são alimentos indicados para prevenir doenças cardiovasculares no futuro.

Espaço Ecológico – E a partir de que quantidade isso é prejudicial, podemos definir?

Dr. Helman – Em relação ao colesterol, recomenda-se que não mais que 200 miligramas de colesterol por dia na dieta. Então, o ideal é que seja feita uma análise nutricional para se mensurar. Mas, com bom senso, já é um ato muito importante.

Espaço Ecológico – Apreciar a natureza numa caminhada e realizar exercícios físicos ajuda para termos uma boa saúde do coração?

Dr. Helman – Isso está bem definido, bem determinado. A atividade física regular pelo menos três vezes por semana – idealmente, cinco vezes por semana – previne doenças cardiovasculares. Estamos vivendo um problema recente com o desenvolvimento das grandes metrópoles em relação à poluição do ar. Então, você fazer atividade física em ambiente poluído, isso seria prejudicial. Estudos mostram, principalmente estudos em cidades da China, que há uma relação direta da poluição atmosférica com as doenças cardiovasculares, principalmente aquela poluição decorrente dos combustíveis fósseis, quando as pequenas partículas causam inflamação dos vasos, aumento da hipertensão arterial, do risco de trombose, de formar coágulo no coração e causar o infarto. Então, comparou-se fazer atividade física em ambiente poluído e não fazer. Mesmo assim, é melhor fazer no ambiente poluído do que ter a vida sedentária. Mas a recomendação é que sejam evitadas vias de trânsito muito pesado, porque esse ar poluído pode causar problemas à saúde de maneira direta. Isso é comprovado em vários estudos científicos e a recomendação que se evite, ou se não for possível evitar, utilize-se máscara de proteção inalatória, para que isso não cause absorção pelo organismo e suas consequências.

Espaço Ecológico – Alguém que toma uma decisão de iniciar uma caminhada, uma atividade física, que cuidados ele deve ter?

Dr. Helman – Vejo com muita preocupação o paciente que passou a vida toda sedentária, está com 45, 50 anos, e está para fazer um programa de corridas sem uma orientação e uma avaliação prévia. A recomendação é que a partir dos 35 anos faça uma avaliação cardiológica, faça um teste funcional, como um teste de esforço. Vai ficar a critério do cardiologista para que se possa liberar esse paciente para os exercícios de forma mais segura. A outra questão é que a gente tem visto muito nas academias a utilização de determinadas medicações que aumentam o metabolismo. São os chamados termogênicos, com apelo de perda de peso rápido e melhora da performance física. Essas medicações a base de altas doses de cafeína podem causar arritmias cardíacas e eventualmente a morte, contração da coronária e espasmo coronariano. Então, o conselho que nós damos é para que eles não utilizem esses termogênicos, que podem causar muitos malefícios, não só para pacientes de idade, como também em jovens.

Espaço Ecológico – O conceito popular de que o infarto é fulminante em jovens e menos grave nas pessoas mais velhas é verdadeiro?

Dr. Helman – Acontece que algumas situações quando a doença arterosclerótica está presente, ou seja, quando as placas de gordura estão comprometendo de maneira crônica o fluxo das coronárias, isso frequentemente acontece mais nos idosos, o organismo vai se adaptando, criando uma rede de colaterais e vai suprindo as áreas irrigadas. Nos jovens isso é infrequente. Realmente, no jovem há o infarto súbito, com formação de coágulo, ou seja, uma placa de gordura que estabilizou e formou um coágulo, causou o infarto e não tem aquela rede colateral pronta para suprir aquele cenário. Isso pode acontecer realmente, mas isso depende de cada caso e da artéria que está comprometida. Então, a gente não pode falar de maneira universal que o infarto de jovem mata menos ou mais, depende do tipo do infarto.

Espaço Ecológico – Ninguém discute que fatores como diabetes, cigarro, vida sedentária, colesterol elevado influem na ocorrência dos ataques cardíacos. Inclusive, isso o senhor está explicando. De acordo com a sua experiência clínica, que força tem as emoções nesta patologia?

Dr. Helman – O estresse é um fator de risco consolidado. Tem aquele paciente tipo A, que luta pela sobrevivência, mas às custas de muito estresse, muita raiva e constrangimento. Isso faz mal para o coração. Talvez o estresse seja o fator de risco mais difícil de controlar, principalmente nesses momentos que vivemos ultimamente. Efetivamente, o estresse funciona como um gatilho para desencadear, por exemplo, um quadro de infarto.

Espaço Ecológico – O primeiro sintoma do infarto é a elevação da pressão arterial?

Dr. Helman – O primeiro sintoma é uma dor no peito constitutiva, mal definida, que você não localiza com a ponta do dedo, que não piora com a respiração, que pode irradiasse para a mandíbula, ombros, membros, dorso, eventualmente na região do estômago, que persiste. Dura em torno mais de 20 minutos. É uma dor que muitas vezes é acompanhada de sinais como sudorese fria, náuseas. Essa dor deve ser valorizada e quanto mais rápido for ao hospital maior chance de sobrevivência desse paciente e as chances de tentar reverter esse processo, seja uma medicação para dissolver o coágulo, que é o trobolítico, seja pela angioplastia, se consegue desobstruir e implantar os stents que normalizam o fluxo da coronária.

Espaço Ecológico – Fala-se muito que no momento de um ataque cardíaco deve-se colocar um comprimido de AS. Procede?

Dr. Helman – Estudos antigos mostram que apenas um comprimido de aspirina infantil, cor de rosa e mais simples e barata, é capaz de reduzir a mortalidade em torno de 24%. Aspirina ou AS é a medicação para ser feita na fase pré-hospitalar mais eficaz para reduzir a mortalidade do infarto.

Espaço Ecológico – Quanto às intervenções cirúrgicas, quais são os principais avanços na cardiologia atualmente?

Dr. Helman – No cenário atual, a cardiologia intervencionista faz um cateterismo cardíaco e você consegue desobstruir as artérias e colocar próteses para manter o vaso aberto. Essas próteses hoje são inteligentes e liberam medicação no local do implante, para evitar que essa obstrução volte. E surge agora as próteses bioabsorvíveis que não tem metal, que você implanta, aciona a medicação no local e, com dois anos, o organismo absorve totalmente essa prótese. Então isso é um avanço da tecnologia que está em evolução e já disponível no Brasil, para nossa população. Outro aspecto importante é o tratamento das válvulas cardíacas, via cateterismo, chamada TAVI. Você consegue implantar próteses e substituir válvulas cardíacas calcificadas que é muito frequente no idoso. A condição cirúrgica dele é de alto risco, mas você consegue implantar essa prótese e com três dias o paciente está casa e sem nenhum corte.

Espaço Ecológico – Em que horário as caminhadas devem ocorrer, cedo da manhã ou no final da tarde?

Dr. Helman – No passado gerou-se uma polêmica quando houve um comentário sobre os pacientes que caminham pela manhã de que teriam um maior risco de infarto. De fato, no período da manhã há um aumento da agregação plaquetária e o sangue fica um pouco mais grosso, mas o malefício do sedentarismo é muito maior do que a caminhada. Então, a recomendação é que caminhe em horários frios, ou seja, no começo da manhã, à tarde e à noite. Nos horários quentes, o risco de desidratação torna a caminhada com risco maior. Então naturalmente é preciso que a pessoa seja avaliada previamente e caminhe, o máximo que puder, em horários que não sejam quentes.

Espaço Ecológico – Qual a avaliação que o senhor faz sobre as doenças coronárias em João Pessoa?

Dr. Helman – Nós vivemos um momento de restruturação no Hospital Universitário Lauro Wanderley, organizando a autocomplexidade cardiovascular. inclusive com cirurgia cardíaca, angioplastia, cateterismo cardíaco, marca-passo cardíaco, para que atenda a população pelo SUS e de uma maneira plena. Vai ser um reforço importante para a saúde pública fazer os procedimentos que são únicos no estado pelo SUS, como por exemplo o ecocardiograma transesofágico. Estamos avançando e espero que seja possível ofertar à população mais esse serviço que possa tratar os pessoenses e os paraibanos.

Espaço Ecológico – Que mensagem o senhor gostaria de deixar para quem quer reduzir o risco de doenças cardiovasculares e consequentemente viver mais e melhor?

Dr. Helman – Uma atividade física regular. João Pessoa é uma cidade verde, a questão da poluição ainda não é um grande problema para a gente. Então, a recomendação é que façam uma atividade física regular pelo menos três vezes por semana, que possam ser avaliados pelo seu cardiologista periodicamente, para averiguar eventuais situações que precisam ser corrigidas, e que procurem viver a vida mais tranquila possível, porque o estresse também é um fator de risco importante. O coração é um órgão que precisa ser bem tratado. As campanhas de prevenção de AIDS e câncer são muito importantes, mas nada mata mais do que o coração, e mata no auge da atividade profissional e familiar. Então, o nosso alerta é para que olhe mais para o seu coração, cuide bem e com carinho, desde a sua dieta. Fuja do cigarro, faça atividade física e vamos viver mais e melhor.



Fonte: Revista Espaço Ecológico



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