Entrevista

Entrevista com Carlos Cherniak

Compartilhe:     |  6 de junho de 2020

O futuro incerto da alimentação depois do coronavírus.

No momento em que a pandemia de covid19 ainda não acabou, muitos se perguntam o que será deles e de tanta gente que vive em outras partes do planeta, longe da Europa, Estados Unidos e Rússia, que chamaram a atenção nesses meses. O desemprego e a fome parecem ser duas consequências que irão se espalhar. Como os pobres do mundo sobreviverão? O que a ONU e as nações deveriam fazer para ajudá-los?

Estas e outras perguntas foram respondidas por Carlos Cherniak, atual representante argentino ante três organismos da ONU, com base em Roma: a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação), o PMA (Programa Mundial de Alimentos) e o FIDA (Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola).

Cherniak, diplomata de carreira, atuou, entre outras atividades, como responsável pelos Direitos Humanos na Embaixada Argentina de Roma (2010-2015) e como diretor de Assuntos Parlamentares na chancelaria (2016-2019).

Eis a entrevista.

O PMA estima que por causa da pandemia, cerca de 265 milhões de pessoas sofrerão gravemente a fome, ao fim deste ano. Quais são os países que estão em maiores riscos?

Os países com crises humanitárias por conflitos, migrações, desertificação, falta de alimentos (Iêmen, Síria, Sudão do Sul, Etiópia, etc.), estão particularmente expostos aos efeitos da pandemia. A pandemia de covid19 afeta diretamente os sistemas alimentares, por meio dos impactos na oferta e demanda de alimentos, e indiretamente por meio da diminuição do poder aquisitivo, da capacidade de produzir e de distribuir alimentos.

A maioria dos países afetados pelas crises alimentares está na África subsaariana (Camarões, Gabão, Zâmbia, Botsuana, etc.), onde já existem 73 milhões de pessoas em crise severa de alimentação, segundo a ONU. Contudo, na América Latina e o Caribe também existem problemas.

A CEPAL (Comissão Econômica para América Latina e o Caribe) estima que a pobreza na América Latina aumente em 4,4%, em 2020, ou seja, um aumento de 29 milhões de pessoas. A FAO concorda?

FAO não realiza medições sobre a pobreza, mas, sim, estudos sobre a evolução da insegurança alimentar e os níveis de desnutrição. Neste sentido, antes da covid19, a FAO calculava que na América Latina havia cerca de 187 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar, das quais 18,5 milhões estavam em estado crítico.

Como consequência das medidas de distanciamento social adotadas pela pandemia, os indicadores da FAO mostram que cerca de 10 milhões de crianças na América Latina deixaram de receber sua porção diária de alimentos, já que os refeitórios escolares estão fechados. Diante deste panorama, e conforme evolui a emergência sanitária em nível local, a FAO estima que poderá haver um aumento da insegurança alimentar na região, o que logicamente tem uma correlação com a pobreza.

Qual será o impacto econômico da crise de coronavírus na América Latina?

É difícil poder calcular qual será o impacto econômico da covid19 na América Latina, já que se trata de um cenário dinâmico, onde entram em jogo diferentes variáveis que têm a ver com o que acontecer em outras regiões do mundo. Por exemplo, em março, o Banco Mundial estimava que o PIB (Produto Interno Bruto) global poderia cair entre 1 e 1,5%. Hoje, o mesmo organismo projeta uma queda próxima dos 5%. Situação similar se repete nas projeções da OMC (Organização Mundial do Comércio), que estima uma queda possível de 13 a 32% aproximadamente.

FAO e outros organismos internacionais prognosticam um aumento do desemprego, variações em preços locais e desequilíbrios na demanda global de alimentos. Segundo a FAO, os países do denominado “corredor seco” (Nicarágua, Honduras, El Salvador e Guatemala) e os do Caribe podem enfrentar uma situação difícil, já que são grandes importadores de alimentos. Uma porção importante das divisas para pagar essas importações depende da atividade turística que se vê drasticamente reduzida.

Foi dito que as medidas para controlar a propagação da pandemia, como o distanciamento, prejudicaram as produção agrícola, geraram muito desemprego e agravaram a fome. Você concorda?

As medidas de distanciamento social possuem diferentes incidências, conforme o setor produtivo. Por exemplo, produtos básicos como trigo, milho, soja, que dependem do capital intensivo (ou seja, máquinas agrícolas), segundo a FAO, não sofreram grandes desequilíbrios e os níveis das colheitas são normais. No entanto, os bens que requerem mão de obra intensiva (frutas e verduras), mostram sinais de estresse, não somente em sua produção, mas também no transporte, dado que são bens “frágeis” que necessitam de transporte veloz e cadeias de frio seguras.

Segundo a FAO, no momento, o setor do agronegócio se mantém ativo, portanto as causas do desemprego podem ser melhor explicadas pela queda de atividades como o turismo, serviços gastronômicos, empregos informais, etc. Em relação às estimativas da fome, a FAO conjuga suas projeções com o nível de queda do PIB global.

Por exemplo, caso se mantenha a estimativa de uma diminuição de 5% no PIB mundial como se diz, cerca de 38,2 milhões de pessoas entrariam em situação de desnutrição (fase mais grave da fome). Não se deve esquecer que já existem 820 milhões de pessoas em situação de fome que, conforme a gravidade, encontram dificuldades médias ou críticas para ter acesso aos alimentos.

Em sua avaliação, quais são e serão as consequências, em nível agrícola, da crise do coronavírus?

Os produtos que dependem de mão de obra intensiva serão aqueles que experimentarão maiores dificuldades com base no distanciamento social e as complicações logísticas (ex. transporte aéreo). De acordo com estimativas da FAO, países como Chile, Peru e Equador, podem experimentar uma diminuição de suas exportações. É possível constatar esta situação, por exemplo, nos produtores de bananas (ex. Equador) cujas exportações desde janeiro sofreram uma redução que, em alguns casos, chega a 23%.

A situação é diferente para os produtores de grãos. Para dar um exemplo, a queda do preço do petróleo faz com que os bicombustíveis (que requerem, por exemplo, milho ou trigo) não sejam competitivos, isso diminui o consumo de milho e trigo e faz com que haja uma maior disponibilidade de cereais no mercado.

O que a FAO, o PMA e o FIDA estão fazendo para ajudar os países em crise alimentar por causa da covid-19? O que os países membros da ONU deveriam fazer?

Os três Organismos especializados da Organização das Nações Unidas, com sede em Roma – FAOFIDA e PMA -, diante dos quais represento meu país, estão muito ativos e se comportando à altura do atual desafio. A FAO está reforçando seus programas de auxílio contra a fome e a desnutrição e, ao mesmo tempo, monitorando e alertando sobre a situação da oferta e demanda de alimentos no mundo. O FIDA está reforçando os projetos de auxílio a pequenos produtores rurais e à agricultura familiar. E o PMA oferece auxílio alimentar às populações mais vulneráveis que hoje são mais de 90 milhões de pessoas.

Em relação ao que as nações podem fazer, é imprescindível acabar com todos os tipos de conflitos, porque geram mais deslocados, mais migrantes forçados, mais fome e mais insegurança alimentar. É essencial reforçar o multilateralismo, a coordenação e a solidariedade. Neste sentido, acredito que o comportamento que a Argentina está tendo é exemplar. Como país exportador de alimentos e commodities, sustentou a cadeia produtiva sem interrupções, e isso é essencial para evitar o agravamento da insegurança alimentar global.



Fonte: REVISTA IHU ON-LINE



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