Entrevista

Entrevista com Luca Peyron

Compartilhe:     |  6 de março de 2021

Digital e tecnologia: “Mais do que conhecimento técnico, é preciso sabedoria”.

Aquilo que foi vivido durante os meses da pandemia “foi um teste de estresse significativo do potencial, mas também do poder da máquina em relação ao humano”. Essa convicção é do Pe. Luca Peyron diretor do Serviço para o Apostolado Digital da Arquidiocese de Turim, na Itália, ao aprofundar as oportunidades e os desafios introduzidas pelas tecnologias. Um contexto no qual “a Igreja também deve se esforçar para que coisas boas aconteçam”.

Celebra-se nessa terça-feira, 9, a 18ª edição do Dia da Internet Segura, o dia mundial para uma utilização positiva das tecnologias e a prevenção dos riscos. Os meses de restrições e a impossibilidade de uma frequentação presencial de serviços e relações vividas em 2020 por causa da Covid-19 nos mergulharam ainda mais nesse mundo que apresenta oportunidades e perigos não só para os nativos digitais.

“A pandemia nos tirou a corporeidade, e a tecnologia nos iludiu que poderia recuperá-la. Mas não é assim”, afirma o Pe. Luca Peyron, diretor do Serviço para o Apostado Digital da Arquidiocese de Turim, com o qual procuramos analisar os diversos aspectos em jogo.

Eis a entrevista.

Pe. Peyron, no ano passado, a pandemia nos forçou a estar mais distantes e nos induziu a estar mais conectados. Talvez nunca como nos últimos meses, a internet entrou tão prepotentemente nas nossas vidas…

A internet tem duas faces: uma técnica, porque é uma série de máquinas conectadas por meio de cabos submarinos e satélites que falam um mesmo código; mas é também um ambiente em que vivemos, nos movemos, estudamos, discutimos, contamos a nós mesmos e ouvimos o relato dos outros. Essas duas faces estão conectadas entre si. Na pandemia, assistimos a uma hipertrofia da máquina em relação ao ambiente, porque ela nos forçou, de alguma forma, a nos adequar à tecnologia da qual dispúnhamos para transformar a nossa existência.

Nós mudamos?

Transformamos o modo como vamos à escola ou à universidade, o modo como estamos em contato com os nossos entes queridos e o modo como vivemos as nossas relações, até transformar o modo como nos sentimos como Igreja e vivemos, por exemplo, a celebração dos sacramentos. Acredito que a pandemia foi – e em parte ainda é – uma máquina do tempo que nos levou 10 anos para a frente. Com o fim da pandemia, não vamos voltar 20 anos para trás; provavelmente nos posicionaremos em uma fase intermediária. Este foi um teste de estresse significativo do potencial, mas também do poder da máquina em relação ao humano. Este é o kairós a ser captado: a partir desse teste de estresse, o que podemos entender sobre o futuro que já vivemos?

Que resposta você dá?

Precisamos muito mais de sabedoria do que de conhecimento técnico. A verdadeira lacuna que a pandemia evidenciou não está apenas no fato de que algumas famílias não tinham um dispositivo ou uma conexão. O problema está na sabedoria e na sapiência com as quais habitamos um ambiente. Por isso, não devemos cometer o erro de pensar que utilizar a máquina conectada nos restitui automaticamente a sapiência de estar em um ambiente. Não é assim, até porque a máquina não é apenas um instrumento, mas também um agente: é um dispositivo, isto é, põe as coisas em ordem. Portanto, usá-lo ou não nos muda, assim como nos muda o fato de sermos usados por ele.

Esse aspecto lembra a importância da proteção dos usuários na sua complexidade…

Precisamos de uma dupla segurança. Por um lado, a técnica, que significa instrumentos invioláveis no que diz respeito à privacidade, aos nossos dados, impossibilitando a intromissão de terceiros nas conversas, a espionagem industrial, a manipulação dos dados, da realidade, dos contextos. Mas, depois, há uma segurança que deve ser garantida a quem tem mais fragilidades nesse ambiente: crianças, menores, pessoas culturalmente menos estruturadas, mas também os imigrantes digitais. Dificilmente imaginamos que uma tela possa esconder uma armadilha. E, se na vida de todos os dias, podemos ser desconfiados, na rede o somos muito menos. Mas quantas narrativas fictícias podem existir na web!

O slogan que acompanha o Dia da Internet Segura é “Juntos por uma internet melhor”. O que cada um de nós pode fazer?

Pode parecer um contrassenso, mas devemos recuperar a corporeidade. De fato, uma internet melhor juntos é possível se nos dermos conta de como é necessário salvaguardar, preservar e potencializar o conceito de bem comum, que só existe na realidade da nossa corporeidade. Só uma cultura do bem comum é capaz, a partir dos indivíduos, de gerar um ambiente no qual o bem seja posto em comum. O digital e a tecnologia são espelhos do humano, e é somente na medida em que o humano é consciente de si mesmo que o seu espelho pode lhe devolver algo positivo. Iludir-se que é possível mudar um sem mudar o outro é viver desencarnados, mas isso, como sabemos, é uma heresia para nós.

O Serviço para o Apostolado Digital, fundado por você por mandato do arcebispo de Turim, se insere nessa reflexão. Como ele nasceu e como se desenvolveu?

Reagimos a um pedido da Igreja universal que veio do Sínodo sobre os jovens, conectando-a com outro pedido explícito que o papa fez em Florença, durante o Congresso Eclesial. Assim, no âmbito da Pastoral Universitária da Arquidiocese de Turim, nasceu o Serviço Diocesano para o Apostolado Digital e, dentro dele, o projeto “Rerum Futura”, que reúne jovens católicos, judeus e muçulmanos para refletirem juntos sobre esses temas. O objetivo é duplo: entender como a tecnologia funciona e o que isso significa para a humanidade; e trazer essa reflexão para dentro da Igreja e levar para fora a reflexão que a Igreja faz.

Que acolhida vocês tiveram?

Há um entusiasmo crescente, ad intra e ad extra. Dentro da Igreja, há evidentemente perplexidade e preocupação, dentro daquela mudança de época que o Papa Francisco narrou. A Igreja deve ler os sinais dos tempos, e o Apostolado Digital tenta acompanhar a reflexão sobre esse âmbito, que já não é tão pequeno. Pelo contrário, do ponto de vista cultural, é enorme. O grande desafio do trans-humanismo está ligado à tecnologia, e não a outra coisa.

E fora da Igreja?

Também aí existe a mesma perplexidade. Mas há também uma predisposição à escuta daquilo que a Igreja tem a dizer, totalmente inédita em relação aos últimos séculos, eu diria. Esta é, portanto, uma ótima oportunidade de diálogo Igreja-mundo reciprocamente fecundo. Nos últimos meses, estabelecemos colaborações com mundos muito diferentes e muito distantes. E é interessante notar como é desejado e esperado o pensamento de quem tem sobre as costas uma bagagem de teologia, filosofia e antropologia como o nosso.

Voltando ao âmbito eclesial, o que está se movendo?

Há uma sensibilidade crescente, um fermento significativo. E também uma pequena conversão, no sentido de que sempre relegamos a internet às comunicações sociais. Não se trata apenas do site da paróquia ou da página da paróquia no Facebook, há muito mais. Porque a internet não é apenas redes sociais, é também Inteligência Artificial, a internet das coisas, o blockchain. Há poucos dias, a presidente da Comissão EuropeiaUrsula von der Leyen, disse que “o futuro digital da Europa está contido em duas palavras: dados e inteligência artificial”. Se for assim, onde as raízes cristãs da Europa entram em jogo? Talvez, entrem em jogo muito mais nesses contextos, nesses arranjos, nas normativas e nos investimentos relativos, do que em congressos sobre as raízes cristãs da Europa.

Um belo desafio…

A Igreja deve ser “Mater et Magistra. Não pode ser apenas mestra. E ser mãe significa ser generativa: de um olhar, de uma perspectiva, de uma projetualidade, de um horizonte. Não podemos esperar que as coisas aconteçam para depois julgar se são boas ou más. Este é o tempo em que a Igreja deve se esforçar para que coisas boas aconteçam. Porque, quando acontecem coisas ruins, o julgamento do que aconteceu muitas vezes é tardio, ineficaz, ineficiente e pouco ouvido.



Fonte: IHU On-Line - Servizio Informazione Religiosa (SIR) - Alberto Baviera - A tradução é de Moisés Sbardelotto



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