Entrevista

Entrevista com o Secretário de Proteção Animal do Rio de Janeiro

Compartilhe:     |  9 de janeiro de 2021

Vinicius Cordeiro tem 57 anos, advogado, é o indicado pelo prefeito eleito Eduardo Paes para ser o novo gestor da Secretaria de Proteção Animal, que está sendo recriada na nova Administração do Município. Cordeiro já esteve na 1ª versão da antiga SEPDA como subsecretário no período 2015-16, e sobressaiu no segundo semestre de 2016 como Secretário, ao implementar o aumento do número de castrações, atendimentos clínicos e programas como o de animais comunitários, paralisado na gestão seguinte. Com exclusividade, seu primeiro pronunciamento público é aqui, no “GRITO DO BICHO”, falando dos seus planos e das perspectivas na política pública de proteção animal na Cidade do Rio de Janeiro.

A imprensa chegou a anunciar a escolha do vereador Luiz Carlos Ramos na SEPDA. Depois anunciou você. Como foi o processo de escolha?

Na verdade, só fui eu anunciado pelo prefeito (risos). E o que houve foi uma especulação, natural até, do nome do vereador Luiz Carlos Ramos Filho, pelo fato dele ter ocupado a Pasta, e ter uma atuação no segmento. Mas penso que meu nome surgiu naturalmente, pelo fato dos bons números e resultados alcançados no período da minha rápida gestão, e também, durante a campanha, participei diretamente no processo de elaboração da Carta Compromisso do candidato com a Proteção Animal, e na elaboração do Programa de Governo, que em boa parte, acolheu as propostas que encaminhamos ao então candidato, em conjunto com alguns representantes da sociedade civil; por último, alguns sabem que já exerci outras funções públicas executivas e que tenho experiência administrativa, fundamental num momento de crise como esse.

A recriação da SEPDA vem da campanha?

Na verdade, entendo que a recriação da Secretaria é uma aspiração da sociedade civil, incluindo-se a mim, já que logo em 2017 houveram manifestações neste sentido, quando todos sentiram a diminuição drástica de recursos, atendimentos clínicos, castrações, e a perda de prestígio político. Aliás, naquele ano, algumas cidades no país, como Porto Alegre, extinguiram a Pasta.

Espero que o exemplo do Rio contamine e faça com que outras importantes cidades se espelhem em nós. Por último, volta a expressão “Proteção Animal”, substituindo o termo “Bem Estar”, dando uma amplitude conceitual. Mas infelizmente, a Nova SEPDA chega em meio à desorganização administrativa, crise financeira na Cidade. Teremos que reconstruí-la em médio prazo, infelizmente, e recuperar o espírito que norteou a criação da Secretaria, em 2000.

Então a SEPDA vai passar por restrições, e até que ponto a crise vai afetar os seus serviços?
Toda a Administração Municipal sofrerá cortes. De serviços, cortes no número de comissionados, gratificações, e expansões previstas. Em nosso caso, isso significa menos serviços. Com paciência e muito diálogo, tentarei ao máximo preservar a rede de atendimentos, e sobretudo, tentar melhorar as coisas na Fazenda Modelo, que não é somente um abrigo, mas o maior Centro de atendimentos de cirurgia e atendimento clínico da rede municipal.

A crise financeira que passa a Prefeitura do Rio e afeta a saúde pública e mesmo os salários do funcionalismo. Mas confiamos que em médio prazo, possamos recuperar a capacidade de investimento, e a prefeitura recupere a sua saúde financeira. Confio na capacidade gerencial do prefeito Eduardo Paes e de sua equipe da Fazenda, liderada pelo dep. Pedro Paulo Teixeira.

O que não depende de dinheiro, que pode melhorar?

Várias coisas. A qualidade no atendimento nos postos. Temos que reciclar nossos funcionários, desde os recepcionistas, tratadores, veterinários e sobretudo a assessoria. O foco deve ser nos animais, e o atendimento público deve ser humanizado e mais adequado. Isso também deve se refletir nas instalações. Maior limpeza, conforto para o público devem ser metas que devemos perseguir.

Por último, o manejo dos animais, e na área dos animais de guarda da fazenda, devem ser urgências. Também desejo rever a qualidade das rações, objeto de críticas de muitos voluntários da proteção.

Você falou em atendimento. Poucos tem conseguido marcar cirurgias, e muitos protetores não conseguem atendimento. Quais são seus planos sobre a qualidade do acesso ao Programa Bicho Rio?
Pretendo democratizar e ampliar o número de protetores independentes que conseguem acesso ao programa. Vamos auditar e estudar medidas emergenciais para que não ocorra de que poucos tenham acesso. E em relação às marcações, desejo reabrir a possibilidade de acesso por telefone. Muitas usuárias são idosas, e merecem não passar por essa dificuldade que o acesso digital oferece a uma parcela razoável da população, infelizmente.

Como serão as mudanças na equipe e no quadro de veterinários da atual SUBEM? Todos serão demitidos?

Mudanças na Assessoria são normais, em troca de Governo. Trago quadros técnicos, mas será a salutar a permanência de veterinários ou servidores que sejam da conveniência da nova Administração. Mas aproveito para revelar algo trágico, que pode comprometer nosso trabalho: a gestão Crivella desmontou a SUBEM, e contratou veterinários pela Vigilância Sanitária (SUBVISA), que talvez tenha de encerrar as contratações. Isso nos dará um problema para nós, já que compromete os serviços, e precisaremos de um tempo que espero, breve, para recompor o quadro, sem comprometer os limites orçamentários.

Falando em orçamento, qual o orçamento previsto?

O PLOA 2021 aprovado pela Câmara Municipal para a SUBEM era pouco mais de 7 milhões de reais, insuficiente, aliás, para nossas necessidades. Conto com o apoio político da sociedade civil e da Câmara para pressionar e dar suporte para as necessidades que se impõe à SEPDA. Lidamos com vidas. Preciosas vidas.

Como será o relacionamento com os Vereadores da Causa Animal?

Republicano. Eles tem a legitimidade do voto popular e tenho de ouvir suas críticas, sugestões. Transparência é fundamental. Nestes últimos 4 anos, reclamei e critiquei muito a falta de transparência na Prefeitura e na SUBEM, e pretendo ouvir e agir com a sociedade civil, e uma boa relação com os vereadores tem de ser construída. Independente de partidos.

Você está conversando com quem da sociedade civil?

Já conheço e tenho uma boa relação pessoal com alguns dos protagonistas da Causa, e me desculpe fazer citações, mas tenho uma grande admiração por gente como a Maria, da SOZED, a Marly Moraes, a Andrea Lambert, da ANIDA; o Reynaldo Velloso da OAB, o Marcelo, da SUIPA, a Renata Prieto, da G.A.R.R.A., uma parceira de vários gestores; a Rosana Guerra, dos Indefesos, entre outros, e recentemente busquei diálogo com os protetores e grupos que atuam na Fazenda Modelo, como a OPA e protetoras independentes que não conheceram meu trabalho em 2016.

Há muito com quem se conversar, mas acho que quanto mais nos aproximarmos e cooperarmos melhor. Mais uma vez digo que o foco não deve ser as personalidades, como alguns miram, mas devem ser os animais. Preciso que nesta hora de crise, até gente que tem divergência entre si coopere conosco. A SEPDA não é do Governo, é do Povo, é uma (re) conquista da Proteção Animal organizada.

Enfim, tenho conversado e procurarei estreitar relações com alguns parceiros naturais de nosso órgão, como a Polícia Civil (fui muito bem recebido pelo Dr. Mario Roberto, novo titular da DPMA), Batalhão Florestal, Guarda Municipal, Parques e Jardins, e a Vigilância Sanitária, que precisa se coordenar de forma mais eficiente com a SEPDA. Aviso que estou de portas abertas, mas a prioridade será para as questões de interesse coletivo.

Qual será seu foco inicial na gestão?

Inicialmente, operar para com cortes e restrições, os atendimentos e o funcionamento da fazenda modelo sejam garantidos, ou minimamente comprometidos, ate que tudo se normalize, em médio prazo. Mas nos 100 primeiros dias, pretendo voltar com ações de repressão ao tráfico de animais, e combate aos maus tratos, e reestruturar a fiscalização e ouvidoria.

Pretendemos relançar o Programa de Animais Comunitários nos moldes de 2016, retomando a prioridade de castração das grandes colônias, e o programa de Educação, tanto com a Rede Municipal, que não chegou a ser concretizado, bem como em nível externo, em sindicatos, igrejas, associações de moradores, e nas redes sociais, divulgando a pauta da proteção animal, e investindo na conscientização da população.

Pretendemos também elaborar e enviar ao Legislativo uma proposta para reestruturar a legislação, aperfeiçoando o combate aos maus tratos, e viabilize a implantação do Conselho Municipal e do Fundo; Tenho, aliás, grande preocupação em questões que continuam salientes, como a do Nise da Silveira, que chegamos a iniciar o atendimento no Posto do Eng. de Dentro, em 2016, e no Campo de Santana. É preciso um esforço adicional no combate ao abandono, e no monitoramento e ações de castração nas colônias. Temos também que incentivar o voluntariado e a participação da sociedade.



Fonte: Anda - O Grito do Bicho - Sheila Moura



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