Entrevista

Entrevista: Pesquisadora Ilma Barros explica Teoria U

Compartilhe:     |  3 de março de 2019

Conhecida como a pioneira da Investigação Apreciativa e Teoria U no Brasil, a doutora Ilma Barros fala, em entrevista exclusiva concedida ao Espaço Ecológico, sobre a Teoria U e o que pode ajudar a melhorar a qualidade da inovação nos negócios.

A pesquisadora também comenta sobre o que difere a teoria U de outras tecnologias sociais e que perguntas temos que começar a fazer a nós mesmos para ter essa conexão com a fonte de onde operamos.

Ela ainda destaca qual reflexão devemos fazer em período de comemorações, a exemplo das festas natalinas, e que conselhos os líderes mundiais dos negócios deveriam ouvir.

Ilma Barros é empreendedora, pesquisadora, educadora, palestrante e autora, especializada em mudança organizacional. Como consultora, ela assessora líderes e organizações como Volkswagen Truck and Buses, Johnson & Johnson, Telefônica do Brasil, Natura e muitas outras a realizar mudanças profundas e sustentáveis nos Estados Unidos, Brasil, Alemanha, Suécia, entre outros.

Confira a entrevista:

Espaço Ecológico – Seja bem-vinda ao Espaço Ecológico com um assunto tão relevante, a Teoria U.

Ilma Barros – Agradeço o espaço para conversar um pouco sobre essa metodologia, essa abordagem. A Teoria U é uma metodologia que foi desenvolvida pelo alemão Otto Scharmer, que é professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. Ele, juntamente com Peter Senge, que é um autor que trabalha com mudanças sistêmicas, construíram essa metodologia, essa teoria que ajuda as organizações a transformarem e fazerem mudanças que não sejam superficiais, mas sim profundas. A Teoria U é um movimento onde o ser humano pode passar por um processo de reflexão interior, porque, claro, as mudanças para a Teoria U começam na pessoa. Se a gente pensar em mudanças, a gente fala que as mudanças acontecem em muitos níveis, e três deles é o indivíduo, a organização e o sistema como um todo. E nessa reflexão sobre o indivíduo, a Teoria U ajuda as pessoas a resgatarem dentro delas aquilo que realmente faz sentido na vida delas, o significado da vida para elas. O que é importante para mim? Qual o trabalho que eu gostaria de fazer da minha vida? Qual o propósito que eu tenho? Por que eu estou aqui? São essas perguntas que a teoria ajuda as pessoas a fazerem a si mesmas, para descobrirem e conectarem com essa energia de vida. Uma energia que verdadeiramente ajuda a fazer o trabalho com T maiúsculo, o trabalho que é aquilo que você ama fazer, não o trabalho que você tem que fazer.

Espaço Ecológico – Que reflexão a Teoria U ajuda a fazer em períodos de transição, a exemplo do Natal e passagem de ano, que ocorreram há poucos dias?

Ilma Barros – A Teoria U ajuda a cada um de nós a fazer essa reflexão de coisas que, por exemplo, no Natal e Ano Novo, um período de reflexão, nos leva a pensar sobre o ano que passou e pensar sobre quais são os nossos desejos e anseios para o ano que inicia. É um período também de refletir sobre quais são as coisas que não nos ajuda mais nesse momento, porque quando temos a xícara cheia de café, colocar mais café na xícara, vai fazer com que o café derrame. A teoria ajuda que você faça essa reflexão. Existem coisas que a gente está fazendo até hoje, que tenta ter resultados e que não está feliz. Você gostaria de ter resultados de algumas coisas na sua vida e você não consegue alcançar. Será que você não está usando as mesmas habilidades, as mesmas competências que você usava antes e que agora não faz mais sentido? Será que você não precisa deixar aí algumas dessas competências e habilidades? Será que você não precisa se desprender delas? Muitas vezes a gente tem convicções, mas será que não está na hora de deixar essas convicções e abrir a mente para quem sabe outras possibilidades, outras soluções na sua vida? É esse tipo de reflexão que fazemos. Também fazemos reflexões sobre como você está emocionalmente, nesse momento de transição, em que saímos de um ano para o outro. Uma reflexão relevante é quem são as pessoas importantes da sua vida, e a Teoria U ajuda quando a gente faz uma reflexão sobre nós mesmos. Estou fazendo aquilo que deveria está fazendo?  Estou tendo os resultados que gostaria de ter? Estou construindo, nutrindo os relacionamentos da minha vida, de forma que eu tenha mais amor, dê mais amor, receba mais amor? A Teoria U ajuda a fazer esse tipo de reflexão. E uma outra reflexão que é importante também fazer, no momento de transição de um ano para o outro, é sobre o que é que você quer construir na sua vida. Por que a gente está aqui? O que é que queremos construir na nossa vida? O que é que eu tenho feito para conseguir conectar com esse desejo, esse anseio que é muito mais relacionado ao nosso propósito de vida? Por que estamos aqui e qual o trabalho com T maiúsculo que viemos fazer aqui? E é essa reflexão que a Teoria U ajuda você realmente a fazer, observar a si mesmo, observar as coisas que você tem alcançado, deixar aí muitas crenças que não ajudam mais e deixar vir aquilo que você verdadeiramente quer para sua vida.

Espaço Ecológico – E em termos de natureza, de que forma o cidadão faz essa conexão?

Ilma Barros – A natureza é interessante, porque na Teoria U a gente acredita que existem hoje três divisões que acontecem na sociedade. Uma divisão é que nós nos separamos do outro, uma divisão social. Quer dizer, nos distanciamos. Quando a gente olha para os números, a questão da pobreza, as diferenças sociais que existem no planeta aumentando cada vez mais, isso é uma coisa que deveria nos afetar muito mais do que afeta, mas construímos como uma barreira entre essa realidade que está lá fora e nós. Nos distanciamos do outro. A outra divisão – falei que eram três – é que nos distanciamos do meio ambiente, da natureza. Ou seja, a degradação que está acontecendo no hoje e o que a natureza pode oferecer para nós como soluções, por exemplo, para as doenças. A gente já sabe que poderia realmente solucionar as doenças que existem hoje com as ervas, com as árvores e com a natureza que a gente tem. Então, a gente não faz essa reflexão suficientemente para ter esse resultado. É uma divisão que nós nos distanciamos do meio ambiente. Não somos mais como os índios que têm essa conexão com a natureza e aprendem com a natureza constantemente. E a terceira divisão é que nos separamos de nós mesmos. Essa é uma divisão espiritual, uma divisão cultural. Então, à medida que eu não observo, eu não olho para aquilo que verdadeiramente quero fazer na minha vida, quando me distancio dessa vontade, eu me distancio de mim mesma, eu passo a ser aquilo que os outros esperam que eu seja, e não aquilo que eu gostaria de ser. Quando a gente fala especificamente sobre natureza, de como conectar com a natureza e como posso fazer essa reconexão, a constatação é que é possível fazer essa reconexão. A reconexão pode ser feita simplesmente por contemplar. Por exemplo, saia de casa, vá caminhar na rua e contemple as árvores, contemple o verde. João Pessoa é uma cidade tão linda, com tanta oferta ecológica, que você pode sair na rua e pode respirar um ar puro que vem do mar; você pode entrar numa mata e respirar a umidade daquela terra. Então, faça isso. Caminhe pela terra, com os pés no chão. Faça algo que o ajude a reconectar com a mãe terra. Isso o ajudará também a fazer essa conexão com você mesmo.

Espaço Ecológico – De que forma a Teoria U pode ajudar a melhorar a qualidade da inovação nos negócios?

Ilma Barros – Na Teoria U, valorizamos muito as empresas. A forma como se ajuda a questão da inovação nas empresas é que, por exemplo, às vezes a inovação vem como um programa, ou seja, de cima para baixo. Ela vem para que você crie algo que não necessariamente está conectado com o desejo verdadeiro do usuário. Então, a Teoria U ajuda as empresas, as pessoas que trabalham com inovação, a conectarem, de fato, com esse usuário. E esse usuário é que te dirá o que ele precisa. Acontece muitas vezes de empresas não terem mais essa mentalidade de inovação e pensam que o usuário tem que comprar aquilo que elas fabricam e, na verdade, as empresas têm que fabricar aquilo que o usuário quer, como ele quer, e não ofertar algo que acha que faz sentido, ou seja, você criar um marketing em cima para vender. Em Teoria U, nós fazemos a conexão ao contrário. A gente faz essa conexão com o usuário. A gente conecta com ele a nível de empatia, que a gente chama de coração aberto, e a gente tenta se colocar no lugar dele. A gente fala que vai usar o sapato do usuário, para ver onde ele aperta. Porque, só assim, eu sinto de fato a dor onde o sapato esteja apertando. E aí posso fazer as mudanças no meu produto, para oferecer algo que realmente faça sentido para o usuário. Em relação à inovação, o pulo do gato da Teoria U é exatamente esse. É que, para nós, não faz sentido uma inovação que seja simplesmente no produto. A inovação tem que acontecer na pessoa. A pessoa que faz o produto precisa estar conectada e, no processo de transformação esteja ela mesma, para inovação dela mesma, a fim de que ela consiga fazer essa conexão profunda com o usuário. Aí, sim, ela vai construir algo que realmente faz sentido para o usuário.

Espaço Ecológico – Essa é a diferença da Teoria U para as demais?

Ilma Barros – Sim, essa é a diferença da Teoria U para as demais metodologias, porque na Teoria U existe uma frase que o próprio Otto Scharmer usa muito que é, na verdade, que qualquer intervenção depende da condição interior do interventor. Então, quer dizer, para que você tenha realmente um produto que seja consistente com a expectativa do cliente, você necessariamente precisa estar também conectado com você mesmo. Então, o seu estado interior vai interferir nas decisões que você toma no seu dia a dia. A diferença é essa, é que não trabalhamos num sistema, se a gente não trabalhar com o indivíduo. A gente trabalha nos três níveis: o indivíduo, a organização e o sistema. Porque a gente acredita que a mudança só se sustenta se cada pessoa passar a se enxergar como parte do sistema, ou passar a se enxergar como parte do problema. Quer dizer, muitas vezes as empresas transferem a culpa. O culpado é o gerente. Estou aqui trabalhando na fábrica ou sou o gerente, o culpado é meu funcionário. E, no entanto, esquecemos de fazer a reflexão de que, se estou nesse sistema, o culpado é a empresa, são as regras, as normas e etc., mas se estou nesse sistema, eu faço parte do problema, eu também estou criando o problema. E é no momento que eu faço essa reflexão e saio do círculo vicioso de culpar o outro, e eu começo a observar de onde vem realmente a minha decisão, ou de mim perceber como parte do problema, como parte da solução, que eu realmente consigo inovar na minha ação. E, aí, é que para nós é muito diferente. Nós não chegamos numa empresa, por exemplo, com a solução, nós co-construímos a solução com a empresa, porque vai depender da qualidade da atenção de cada pessoa que pertence àquela empresa. E é nesse processo de melhorar a qualidade de atenção que a gente trabalha muito no início. Cada pessoa que é integrante desse sistema precisa passar por um processo de autoconhecimento, de autoconsciência, para que ela possa verdadeiramente atuar como responsável e corresponsável pelos resultados que esse sistema está dando.

Espaço Ecológico – Poderia citar algum exemplo da aplicação da Teoria U numa empresa ou num trabalho que a senhora desenvolveu?

Ilma Barros – Sim, tivemos vários trabalhos, aqui no Brasil inclusive, onde fizemos um trabalho na Natura e em outras empresas que são de outros ramos. Um trabalho que para mim é muito interessante e que está em andamento ainda, é o que eu desenvolvo com um colega na Alemanha, com várias empresas. Uma empresa comprou outras empresas e esse trabalho é para integrar cultura. Como a Teoria U pode ajudar várias empresas a integrarem cultura? Na verdade, o processo da Teoria U ajudou e vai ajudar ainda mais a essas pessoas de cada empresa a identificarem as coisas que para elas são importantes manter para preservar certos aspectos culturais. É necessário se conscientizar disso, ao mesmo tempo que começam a perceber e enxergar aspectos da cultura das demais empresas que são importantes manter, conservar e aprender. Quando as pessoas tomaram consciência de que existiam aspectos da cultura que gostariam de manter e conservar, elas começaram a entender quais os aspectos das demais empresas também iriam conservar. E nesse momento dão um salto de aprendizagem, porque uma empresa começa a perceber que pode aprender muito com a outra. E isso começa um processo de colaboração, de cooperação, e todo mundo sai ganhando.

Espaço Ecológico – Que pergunta, ou perguntas, temos que começar a fazer a nós mesmos para ter essa conexão com a fonte de onde operamos?

Ilma Barros – Uma pergunta que gosto muito e que faço constantemente é a seguinte: quem sou eu, quando faço o que eu faço? Porque existe essa coisa de você aprender com o ciclo de aprendizagem que é você faz, você reflete, você conceitua e você experimenta e faz outra vez, e o ciclo continua. Existe também a aprendizagem com o futuro que quer emergir. E é esse futuro que quer emergir que a Teoria U cria consciência para que você conecte com esse futuro que quer emergir. Por isso a importância de você deixar aí algumas coisas de sua vida, para que as coisas novas surjam diante de você. Porque às vezes elas estão lá, mas você não enxerga, porque está tão apegado as coisas antigas que não consegue enxergar as possibilidades diante de você. Uma pergunta muito importante é a seguinte: quem sou eu, quando faço o que eu faço? Uma questão que requer uma reflexão muito maior do que simplesmente você fazer a pergunta. Isso quer dizer que você está em reflexão na ação. Você não está esperando para que a reflexão aconteça amanhã. Mas, à medida que eu estou conversando com você, estou refletindo sobre quem sou eu, quando faço o que eu faço. Isso ajuda na conexão com essa fonte realmente de conhecimento que temos diante de nós e que esquecemos que temos. A outra pergunta é: qual é o meu trabalho com T maiúsculo? Existem pessoas que têm essa conexão muito facilmente, e sabem, e têm uma intuição, pelo menos, e que têm um chamado e o chamado está claro para eles, sobre qual é o seu trabalho, e tem pessoas que precisam de um trabalho maior de refletir sobre isso. Então, o que é que realmente eu tenho prazer fazendo? O que é que eu amo fazer? E uma pergunta que a gente faz muito em Teoria U é: qual é o trabalho que eu pagaria para fazer? E é esse trabalho que você tem que buscar fazer, porque se você ganha fazendo um trabalho que você pagaria para fazer, você ganha muitas vezes. E quem ganha mais ainda é para quem você está trabalhando, porque ele vai ter o melhor de você e o melhor do seu conhecimento.

Espaço Ecológico – Essa colocação é muito importante, realmente, e a equipe que participa do projeto Espaço Ecológico se identifica muito com as colocações que a senhora está fazendo, quer dizer, são quase 15 anos que a gente trabalha dentro dessa filosofia e não tinha essa percepção.

Ilma Barros – A história do Espaço Ecológico realmente resume tudo o que eu falei aqui, porque identifico essa conexão com a paixão e sem necessariamente flexibilizar. Porque se você deixa que essa paixão o guie, o sucesso é o que eu tenho aqui diante de mim.

Espaço Ecológico – Em termos de educação ambiental, de que forma a Teoria U pode ajudar?

Ilma Barros – Nesse processo de consciência ambiental, nós fazemos um trabalho na área de sustentabilidade, principalmente tentando entender que tecnologias sociais ajudam a levar consciência para as escolas e universidades. Então, uma das coisas que faço bastante, no meu caso, é quando eu dou aula, quando eu ensino, por exemplo, em cursos de MBA. Um exemplo foi o ano passado na Universidade Case Western, nos Estados Unidos, quando eu dei o curso que chamava-se Empreendedorismo e Inovação Social. E, na verdade, é trazer essa consciência para pessoas que já não são necessariamente crianças, são adultos, e que vivem um contexto que não necessariamente tenha acesso a essa importância do meio ambiente, mas em trazer essa voz para que essas pessoas façam uma reflexão. O fato da Teoria U ter uma tecnologia de reflexão que vai desde o indivíduo e passa pela reflexão na equipe, na empresa, etc., isso ajuda muito a disseminar a consciência ecológica, porque não estou partindo somente de uma teoria, mas estou partindo também da importância que dá à conexão com quem eu sou como pessoa, conectando essa reflexão com o que é que eu quero deixar de legado na minha vida. E é esse tipo de reflexão, no processo educativo, principalmente na educação sobre o meio ambiente, que precisamos fazer. Porque, sem reconectar o homem à terra, fica muito difícil a gente ter a sensibilidade e saber o que é possível e o que não é possível, quando a gente se refere ao que está fazendo com o planeta.

Espaço Ecológico – Neste sentido, observando o seu trabalho, o seu conhecimento e o seu desenvolvimento sobre o tema, a senhora daria algum conselho aos líderes do mundo?

Ilma Barros – Tem um trabalho com liderança que a gente acha muito importante, que é ajudar aos líderes a começarem a enxergar o ponto cego da liderança. É mais um conceito da Teoria U. O ponto cego da liderança é que nós líderes da atualidade, não necessariamente todos, mas muitos líderes, nos preocupamos muito com o que fazer, como fazer e esquecem do quem está fazendo. E essa reflexão sobre o quem está fazendo que eu gostaria de ver acontecer mais. Então é uma sugestão que deixo aqui, que os líderes comecem realmente um processo de autoconhecimento, de autoconsciência, porque com essa reflexão as ações se tornam muito mais conectadas com o bem comum. Se eu desenvolvo a minha autoconsciência como líder, se o líder de uma empresa, de uma grande organização, desenvolve essa capacidade de autoconsciência, as ações dele terão impacto positivo, consequentemente, porque ele vai partir de um ponto conectado com a fonte, que é essa fonte de onde sai o que influencia, o que alimenta e nutre nossas decisões. Então, se ele faz esse tipo de reflexão, desenvolve essa capacidade de conectar com essa fonte, e desenvolve essa capacidade de autoconhecimento e de autoconsciência, e reflete sobre que impacto terá, porque será um impacto positivo.

Espaço Ecológico – Muito obrigado pela sua participação no Espaço Ecológico. Fique à vontade para a sua mensagem final.

Ilma Barros – Eu quero agradecer também ao Espaço Ecológico pela honra de estar aqui. Me sinto realmente privilegiada, porque como uma paraibana de João Pessoa, conectar com vocês e saber que existe esse movimento aqui na capital da Paraíba, para mim é um orgulho que eu vou levar certamente para todos os lugares onde trabalho, porque são essas iniciativas, como a que vocês começaram há mais de 14 anos, que irão transformar o planeta para algo melhor.



Fonte: Revista Espaço Ecológico



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