Entrevista

Entrevista: “Sugiro que percebamos que todos nós somos o meio ambiente”

Compartilhe:     |  18 de julho de 2020
Agustina Besada, empresária e especialista no combate ao plástico (Foto: Divulgação)
Agustina Besada, empresária e especialista no combate ao plástico (Foto: Divulgação)

“Como podemos continuar fazendo as mesmas coisas com a natureza sem tomar responsabilidade nesta situação?”, questiona Besada. “Estamos mandando espaçonaves ao espaço e não podemos fazer melhor do que isso? Podemos. Só precisamos nos comprometer e nos esforçar para estruturar uma nova forma de nos desenvolver como sociedade, criando sistemas de produção mais sustentáveis”, defende.

Ao longo de sua carreira, a empreendedora tem se dedicado a entender, alertar e ajudar a resolver o problema do plástico nos oceanos. Besada, inclusive, já atravessou o Atlântico duas vezes para investigar a presença do material nas águas. A empresária também é fundadora e codiretora da Unplastify, uma organização latinoamericana que utiliza educação e ações de alto impacto para conscientizar a população. Corajosa, ela também é exploradora da National Geographic e aliada do projeto “Planeta ou Plástico?”, organizado pela Nat. Geo pela difundir informações sobre a problemática por trás do uso e descarte inadequados do plástico.

Em entrevista exclusiva a GALILEU, Besada fala sobre consumo consciente, mudanças de hábito e ativismo em tempos de pandemia. Confira:

A pandemia não deu trégua para o meio ambiente. Enquanto a fiscalização é prejudicada por conta das recomendações de saúde, o desmatamento da Amazônia bate recordes. O que podemos fazer para evitar isso?

Sempre haverá pessoas que tirarão vantagem de situações como essa para continuar explorando os nossos recursos. Momentos como este deveriam mostrar que, em algum ponto, somos todos iguais, somos da mesma espécie e sofremos as mesmas ameaças. Não estamos separados da natureza. Uma vez que percebemos isso, podemos demandar melhorias das autoridades, fazer parte da solução. Acho que podemos usar esse momento para pensar em como podemos melhorar, como podemos criar um novo modelo de desenvolvimento, que não dependa da máxima exploração.

Consumir responsavelmente, selecionar os produtos que compramos, nos informar e apoiar organizações, reguladores e empresas que estão nessa luta são algumas formas de reverter o cenário.

Como podemos sair da pandemia mais conscientes e ativos do que somos hoje?

Uma coisa interessante que tem acontecido durante a quarentena é que algumas pessoas começaram a estar mais atentas do seu desperdício. Dentro de nossas casas, estamos vendo quanto lixo produzimos, qual é o nosso impacto no planeta. O que eu sugiro é que percebamos que todos nós somos o meio ambiente. Este é o primeiro passo. O segundo é se informar sobre o assunto. Por último, eu encorajo as pessoas a tomarem uma atitude. Podemos estar cientes do problema, nos informar, mas nada adianta se não começarmos a agir. É só uma questão de entender que nós podemos fazer parte da solução e descobrir como podemos contribuir para incorporar novos hábitos em nossa rotina para esse objetivo.

A partir da sua experiência como diretora do Unplastify e pensando especificamente no problema ambiental dos plásticos, que hábitos podem ser integrados no nosso dia a dia para reduzir seu o consumo?

Eu gosto de como você formulou a frase porque, quando as pessoas pensam sobre a questão do plástico, elas se lembram da reciclagem. Infelizmente, esta não é a única solução. Como as taxas de reciclagem ainda são muito baixas, não podemos confiar nela para resolver esse problema.

O que nós sempre encorajamos a fazer no Unplastify é reduzir seu consumo e trabalhar a nossa relação com esse material, pois o problema não é o plástico em si, mas o uso e o abuso dele. No geral, plásticos não são realmente necessários: há sempre uma alternativa para substituí-los. Então, podemos começar por isso: cada um de nós pode escolher desistir de um objeto.

Especialistas têm apontado que máscaras e luvas podem se tornar novos agentes poluidores em meio à pandemia. Como devemos lidar com isso?

O que eu sempre falo é que esse uso é compreensível por se tratar da prevenção e combate a um problema de segurança e saúde públicas. O que precisamos reduzir são os plásticos descartáveis que não são realmente necessários ou que podem ser substituídos. Também é importante nos atentarmos a como tem sido feito o descarte desses equipamentos de proteção, evitando que sejam despejados na natureza, nos oceanos.

Além das vantagens para o meio ambiente, o consumo consciente também pode trazer benefícios à economia, que vive em crise?

Sim! A chamada economia circular trata de manter, o máximo possível, os recursos em uso no sistema. Neste caso, objetos reutilizáveis são circulares, porque eles substituem o lixo que geramos, mantendo-se na cadeia de consumo por mais tempo.

Precisamos repensar o nosso sistema, como compramos, como projetamos operações, como produzimos. Toda forma de desenvolvimento deveria envolver meio ambiente, economia e aspectos sociais.



Fonte: Revista Galileu - LARISSA LOPES



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