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Epidemias, mudança climática e guerra nuclear podem provocar um sofrimento extremo

Compartilhe:     |  4 de fevereiro de 2020

fim do mundo sempre é pessoal, por vezes social e só uma vez literal. No entanto, a vivência irrefutável de que tudo nasce para decair costuma se trasladar para a ordem cósmica, e a ideia do Apocalipse é onipresente nas sociedades humanas. O universo costuma se encontrar entre uma criação onde tudo era bom e um final, muitas vezes próximo, que chegará porque, com nossa inépcia e maldade, corrompemos os dons que nos foram entregues. Dom Quixote recorda, ante um grupo de pastores, a visão da Grécia clássica quando fala de alguns séculos felizes “aos quais os antigos puseram o nome de dourados”, uma utopia comunista na qual “os que nela viviam ignoravam essas duas palavras de seu e meu”. Agora, após várias degradações, nós nos encontramos na idade do ferro, e a situação vai piorar. Algo similar contam os hindus, que dizem que vivemos no período Kali Yuga, uma era de disputas e hipocrisia que também é a última antes que algum tipo de cataclismo purifique o planeta.

A mesma tendência dos humanos de realizar analogias que confundem o ciclo da vida e do mundo pode fazer desprezar o medo de um desastre de dimensões planetárias. Se tantos povos ancestrais acreditaram que o final estava perto e erraram estrepitosamente, é fácil descartar sem rodeios os arautos do Apocalipse. Isso é o que deveria ser feito, por exemplo, com os pesquisadores do Boletim de Cientistas Atômicos, que na semana passada adiantaram seu metafórico relógio do fim do mundo e o deixaram a apenas 100 segundos do trágico final. Mas as situações nem sempre são comparáveis, e nos últimos séculos a humanidade incrementou sua capacidade de causar desastres planetários —e também de prevê-los.

O relógio do fim do mundo foi criado, fundamentalmente, para advertir sobre os riscos de aniquilação da civilização humana se a Guerra Fria, na qual durante décadas os Estados Unidos enfrentaram a União Soviética, se transformasse num conflito atômico. Hoje, porém, avaliam-se muito mais riscos, como uma inteligência artificial e uma biotecnologia descontroladas. E, segundo escreveu o físico Lawrence Krauss, membro do conselho de cientistas do relógio do fim do mundo, “essa multiplicação das ameaças elevou a sensação de alarme”. “O relógio do juízo final está hoje mais perto da meia-noite que durante a crise dos mísseis de Cuba (na época, ficou a sete minutos do final, contra os 100 segundos atuais), quando o mundo esteve realmente à beira do holocausto nuclear”, acrescentou, num artigo publicado no The Wall Street Journal em que duvidava da validez do instrumento.

Testes nucleares do Exército dos EUA no atol de Bikini (ilhas Marshall).
Testes nucleares do Exército dos EUA no atol de Bikini (ilhas Marshall). US ARMY

Nem todas as ameaças são iguais, e nem os cataclismos têm as mesmas dimensões. Como o próprio Krauss dizia, a mudança climática associada à atividade industrial, uma das supostas grandes ameaças para a continuidade da civilização, terá provavelmente efeitos devastadores, mas eles serão sentidos no longo prazo e não serão iguais no mundo todo. María José Sanz, diretora do Centro Basco para a Mudança Climática, afirma que o aumento de mais de dois graus na temperatura média do planeta “pode provocar danos muito importantes para as sociedades humanas, que terão dificuldade de se adaptar a uma frequência de fenômenos climáticos extremos nunca vistos”. Mas isso não significa que a Terra se transformará num planeta hostil à vida, como Marte, nem que uma espécie como a humana, que já conta com mais de oito bilhões de indivíduos e uma capacidade tecnológica impressionante, terá sua continuidade ameaçada.

A mudança climática associada à atividade industrial, uma das supostas grandes ameaças para a continuidade da civilização, terá provavelmente efeitos devastadores, mas eles serão sentidos no longo prazo e não serão iguais no mundo todo

Sanz aponta, no entanto, alguns perigos difíceis de prever. “Além do aumento progressivo da temperatura, o sistema climático tem alguns pontos de inflexão”, explica. A quantidade de gelo dos polos, o sistema de monções tropicais e a corrente norte-sul, que faz com que Nova York seja muito mais fria que Madri apesar de estarem na mesma latitude, e que tem a ver com a quantidade de água doce que desemboca nos oceanos —que, por sua vez, está relacionada com o gelo dos polos—, são mecanismos que regulam o clima planetário e que podem mudar de repente. “Se esses pontos forem ultrapassados, pode haver mudanças muito abruptas, e isso é o que não se pode prever. Sabemos que estão aí, que estamos acelerando o trajeto rumo a esses pontos de inflexão, mas não sabemos o que vai acontecer se eles forem ultrapassados. Nem as consequências disso”, completa.

Como deixa claro o sucesso do gênero zumbi, as doenças infecciosas, como o coronavírus de Wuhan, são também uma fonte de terror apocalíptico. E, nesse caso, o medo não vem sustentado apenas por possíveis padecimentos futuros, mas por milhões de mortos. Durante grande parte da história, quando não se sabia o que provocava as infecções, alguns micróbios podiam dizimar a população que atingiam. O historiador Eric Hobsbawm estimou que apenas 6% ou 7% dos marinheiros ingleses mortos entre 1793 e 1815, durante as guerras contra Napoleão, faleceram nas mãos dos franceses. “Oitenta por cento morreram por causa de doenças e acidentes”, escreveu. A sujeira, os serviços médicos e a falta de higiene eram inimigos muito mais temíveis que os canhões franceses.

Calcula-se que a peste negra, provocada por uma bactéria, acabou com um terço da população da Europa. A gripe espanhola matava até 20% dos infectados e aniquilou 6% da população mundial. Para muitos dos habitantes da América pré-colombiana, embora não os exterminassem completamente, os vírus provocavam uma espécie de fim do mundo. “Na colonização da América, o principal soldado foram os vírus”, afirma Víctor Briones, professor de saúde animal da Faculdade de Veterinária da Universidade Complutense de Madri.

Calcula-se que a peste negra, provocada por uma bactéria, acabou com um terço da população da Europa. A gripe espanhola matava até 20% dos infectados e aniquilou 6% da população mundial

“Que uma infecção coloque em perigo a continuidade de uma espécie é muito difícil, embora isso quase tenha acontecido com doenças às vezes banais, como a sarna na camurça-dos-pirineus [uma espécie de caprino]. E a peste bovina provocou tanta mortandade na Europa que levou à fundação das faculdades de veterinária”, prossegue Briones. Em humanos, a gripe espanhola de 1918 “despovoou as zonas rurais”, e a praga de Justiniano do século VII pôde ter influenciado o final do Império Romano. “Reduziu a população de tal maneira que não havia braços para cultivar a terra nem gente para defender a fronteira. A ordem social se alterou”, diz Briones. E conclui: embora ele veja a possibilidade de que uma doença provoque uma grande mortandade, considera muito difícil a extinção da humanidade por essa via.

Ainda que não haja extinção, algumas doenças que não chamam a atenção do público nos países desenvolvidos matam centenas de milhares de pessoas. Somente o HIV, a tuberculose e a malária acabam com a vida de cerca de 2,5 milhões de pessoas por ano, a maioria nos países pobres. “Em cidades como Jacarta, Dar es Salaam [Tanzânia] e Cairo, onde a maior parte da população não mora em edifícios de vidro e aço, mas de chapa e latão, onde há uma imigração em massa, uma gestão deficiente dos resíduos e pouco acesso aos recursos sanitários, há doenças que provocam uma grande mortandade”, afirma Briones. A hecatombe ali não é um medo difuso no futuro, mas a vida cotidiana.

gripe espanhola, uma das maiores pandemias conhecidas, acabou com apenas cerca de 6% da população mundial

Durante as guerras napoleônicas, 80% dos marinheiros ingleses mortos faleceram por doenças e acidentes, não pelas armas inimigas



Fonte: EL PAÍS - DANIEL MEDIAVILLA



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