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Espaço Ecológico destaca artigo sobre o meio ambiente e a arqueologia do Seridó paraibano

Compartilhe:     |  8 de outubro de 2020

Por Juvandi de Souza Santos (foto)* e Lucas Ramon Porto de Assis** 

O Seridó paraibano, enquanto região geográfica corresponde à área do centro-norte do estado da Paraíba, cujos municípios estão sob a égide do rio Seridó e seus afluentes, além dos inúmeros açudes e barragens deste proveniente, das águas desse essencial corpo fluvial. Com as divisões territorial e regional do IBGE, o Seridó, em território do estado da Paraíba, foi estabelecido enquanto pertencente à Mesorregião da Borborema, e partido em duas microrregiões: o Seridó Oriental e o Seridó Ocidental, que serão tratadas neste artigo enquanto unas. Incorpora, assim, quinze municípios (Junco do Seridó, Salgadinho, Santa Luzia, São José do Sabugi, São Mamede, Várzea, Baraúna, Cubati, Frei Martinho, Juazeirinho, Nova Palmeira, Pedra Lavrada, Picuí, São Vicente do Seridó (Seridó) e Tenório) que compartilham entre si algumas características de naturezas ambiental, econômica e mesmo cultural.

Similarmente à homônima região do Rio Grande do Norte, o Seridó paraibano é bastante singular no que diz respeito aos aspectos físico-climáticos, também a isto se somando os de riqueza arqueológica-paleontológica-espeleológica, nomeadamente relacionada à Pré-História da localidade, consubstanciada, assim, em grande número de abrigos sob rocha, onde se observam grandes e belos painéis rupestres, somados às pinturas em matacões ou afloramento rochosos, bem como às icônicas gravuras realizadas em grandes rochas no decurso de rios ou cursos de água, as chamadas Itacoatiaras, sendo a mais recente destas descoberta neste ano de 2020, em Pedra Lavrada, município que bem representa a diversidade de vestígios que caracterizam o Seridó (Figura 1). Com relação aos sítios paleontológicos, esses existem e numa quantidade bastante significativa, especialmente os tanques naturais e algumas lagoas, que guardam em suas profundidades materiais fósseis da megafauna pleistocênica.

Figura 1- Área Arqueológica do Seridó, contemplando os estados de Rio Grande do Norte e Paraíba.

Fonte: Martin (2020).

Assim sendo, é importante que sejam conhecidas algumas características naturais deste Seridó. Primeiramente, estando na área central da Paraíba, a região é como o apogeu da vegetação de caatinga, com sua flora herbáceo-arbustiva e xerófila (de raízes longas e profundas, prevalência de espinhos em lugar das folhas, como mecanismo de reserva de nutrientes e água) sustentada por um solo pedregoso e bastante suscetível à erosão, e com a fauna diversificada do bioma, compreendendo mais de 170 espécies de mamíferos e de répteis, além das 591 de aves. Sendo assim, o clima que engloba os municípios localizados no Seridó é tipicamente Tropical Semiárido, com índice pluviométrico limitado a 550 mm por ano, muito mal distribuído e irregular, somado, ademais, com temperaturas médias a variar entre 25º e 28º C, o que impõe o risco, presente em toda a região, de longos períodos de estiagem e seca, observados com recorrência (Figuras 2 e 3).

Figuras 2 e 3 – Retratos da paisagem de Caatinga, em período de chuvas e estiagem, incluindo aspectos de relevo, característica do Seridó Paraibano.

Fonte: Renalle Ruana Pessoa Ramos – Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=33118930.

Como todos os biomas brasileiros, a Caatinga tem sofrido considerável devastação em algumas áreas, e no Seridó este processo este intrínseco desde meados do século XIX, quando o plantio de algodão caracterizava a região. As pressões antrópicas da altura do apogeu algodoeiro impunham a devastação de grandes áreas férteis, nomeadamente nos vales do rio Seridó e afluentes, ou mesmo o desvio de cursos de água para a irrigação, e atividades deste tipo foram desenvolvidas ainda com alguma intensidade até os anos 1980. Atualmente, o principal fator de devastação ambiental nos municípios do Seridó diz respeito à difundida urbanização, em vista da expansão constante das cidades na região, especialmente no Rio Grande do Norte, metrópoles locais que exercem essencial papel na subsistência dos municípios em sua zona de influência. Apesar disso, iniciativas como a Áreas de Proteção Ambiental e Parques Naturais têm-se difundido entre grupos populares e o poder público, em vistas de serem vantajosas para a comunidade duplamente: garantem a conservação da vegetação e da fauna naturais, retardando a desertificação que ameaça a subsistência especialmente de pequenos agricultores, e minorando os efeitos e a intensidade das longas estiagens; além disso, são fontes de renda bastante significativas, uma vez que o ecoturismo é, em verdade, um dos setores de mais destaque em economias locais cujo potencial para esta prática seja tão vasto, em especial considerando as preocupações internacionais e os compromissos que o próprio Brasil firmou com a comunidade de nações no sentido de preservar os seus biomas.

Outro importante aspecto que caracteriza o Seridó, seja no Rio Grande, seja na Paraíba, é o seu relevo. É uma região caracterizada por serras circundantes a estes vales, com altitudes que chegam a 500 metros em relação ao nível do mar, assim propiciando saliências e abrigos rochosos que lhe são característicos, desta maneira elevando a região a patamar de potencial arqueológico ímpar, já provado pelas constantes pesquisas que ali se desenvolveram no decorrer da década de 1980 até o presente, originando uma quantidade de sítios arqueológicos sem par. Isso também se deve ao Seridó, de uma forma geral, ser visto como uma importante área de transição, um grande corredor que teria contribuído em épocas passadas para que grupos humanos oriundos de outras regiões do Brasil, a exemplo do sudoeste do que hoje corresponde ao estado do Piaui, terem usado essa área em seus deslocamentos sazonais. A prova inconteste disso são os inúmeros sítios arqueológicos de arte rupestre existentes no Seridó, que apresentam a Tradição Nordeste e a subtradição Seridó, além das incontáveis Itacoatiaras que apresentam características peculiares, enquadradas na subtradição Ingá (Figura 4).

 

Figura 4 – Pedra de Retumba evidenciada, município de Pedra Lavrada, Seridó da Paraíba, fevereiro de 2020.

Crédito da imagem: Juvandi de Souza Santos.

Por fim, essa imensa região do Seridó na Paraíba apresenta, como no restante do Estado, problemas ambientais sérios: desertificação, péssimo uso do solo, caçada a animais, destruição de matas ciliares, retirada da cobertura vegetal, etc., além de muitos sítios arqueológicos (pré-históricos e históricos), encontrarem-se pichados e tanques naturais com fósseis de megafauna completamente vandalizados.

Tendo em vista os problemas apontados acima, grupos de trilheiros tem se mobilizado para buscar soluções, como: reflorestamento, educação ambiental e patrimonial junto às comunidades mais afetadas, catalogação de sítios arqueológicos-paleontológicos e espeleológicos e seus devidos registros junto aos órgãos competentes e, talvez, o mais importante: a tentativa em se criar uma grande Área de Proteção Ambiental (APA) envolvendo inicialmente os nove (09) municípios do Seridó Oriental da Paraíba.

 

*Prof. Dr. Juvandi de Souza Santos (Arqueólogo/Paleontólogo/Historiador – UEPB)

**Acadêmico de História Lucas Ramon Porto de Assis (Bolsista de PIBIC/CNPq/UEPB)

 

 

 

 



Fonte: Espaço Ecológico



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