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Especialista profere palestra sobre aquecimento global e mudanças climáticas

Compartilhe:     |  8 de abril de 2019

Por Alexandre Nunes

A questão ambiental no mundo de hoje já não é mais simplesmente uma questão ecológica, é uma questão estratégica para o mundo, para o desenvolvimento das Nações, das economias dos países, para o bem-estar e saúde das pessoas. A afirmação é do representante do Brasil no Painel de Alto Nível sobre Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU, Saulo Rodrigues Filho, geólogo, doutor em Ciências Naturais, com pós-doutorado em Estudos Ambientais e em Desenvolvimento Sustentável.

Ele foi um dos convidados para proferir palestra durante o Fórum 15 Anos do Espaço Ecológico, no último dia 22 de março, no auditório do Sebrae, em João Pessoa. Saulo Rodrigues abordou o tema “Mudanças Climáticas: Desafio, Civilização, Século XXI” e, na ocasião afirmou que o meio ambiente vem galgando, ao longo das últimas décadas, um status cada vez mais elevado, em termos de importância para nossa civilização, uma vez que muita evidências têm sido observadas de que a deterioração da qualidade ambiental tem levado a prejuízos e impactos que tem custos cada vez mais elevados.

“Essa semana, tivemos a oportunidade de assistir a um espetáculo triste, mas que vem se tornando cada vez mais recorrente e frequente, e cuja intensidade tem se elevado cada vez mais. São os impactos climáticos extremos, como o ciclone que arrasou com a costa leste da África, especialmente em Moçambique e no Zimbabwe, atingindo mais de um milhão de pessoas e com milhares de vítimas fatais”, lamentou.

O cientista explicou que eventos como esse tem sido observados, inclusive no Brasil, a exemplo dos dois mais emblemáticos dos últimos anos, como o furacão Catarina que atingiu a costa de Santa Catarina, no Vale do Itajaí, em 2014, também com efeitos extremamente danosos, e o evento na Serra Fluminense, em Teresópolis e Nova Friburgo, no ano de 2011, também extremamente avassalador, com uma chuva tão intensa que simplesmente produziu enchentes e uma solifluxão – um termo técnico na Geologia – ou seja, que encharcou o solo e o arrastou relevo abaixo pela ação da gravidade. Os deslizamentos de terra levaram com eles milhares de vidas e a um custo econômico, pelos danos causados, extremamente elevado.

Outros eventos derivados das mudanças climáticas, citados pelo especialista, foram a crise hídrica de 2014, que levou a problemas de abastecimento de água na cidade de São Paulo, a cidade mais populosa do Brasil, a crise do abastecimento de água que ocorreu em Brasília, em 2017, além da seca prolongada no semiárido brasileiro, que perdurou por quase 7 anos, de 2011 a 2017, também com características de ineditismo na história recente. “A elevação das temperaturas tem provocado ilhas de calor nas cidades. Tem sido observado aumento de temperatura que em algumas regiões do Brasil, nos últimos 40 anos, já passam de 2 graus celsius de elevação, chegando até 3 graus Celsius elevação”, acrescentou.

Saulo explicou que alguns esforços internacionais para o enfrentamento dos desafios da mudança climática, como o Acordo de Paris, de 2015, que fala da necessidade de se conter a elevação das temperaturas médias da terra, para não deixar que ultrapassem um grau e meio, ou 2 graus. A comunidade científica estabelece esse limite, pelo fato de que, nos últimos milhares de anos, conforme estudos paleoclimáticos, que variações podem atingir 10 graus de variação, mas isso numa escala geológica das eras glaciais e interglaciais que levam milhares de anos para acontecer.

“Em curto espaço de tempo de décadas, o que a gente tem observado é o impacto produzido pela humanidade, que tem ocasionado a intensificação do efeito estufa na atmosfera, que por sua vez faz aumentar as temperaturas. É preciso calibrar as nossas preocupações sobre o quão importante são essas mudanças. É preciso avaliar isso muito bem, tendo como perspectiva aquilo que a ciência tem para nos mostrar, em relação aos fenômenos climáticos ocorridos no passado, na nossa história geológica. É muito importante a gente conhecer o passado, para ter um entendimento mais claro do presente e também condições de projetar mudanças futuras”, recomendou.

O geólogo esclareceu que o sistema climático envolve um conhecimento científico bastante complexo, com diversas disciplinas, desde física, química, geologia, hidrologia e biologia. “São muitas ciências que precisam ser integradas nesse conhecimento interdisciplinar, para que a gente possa dar conta do entendimento desse complexo quadro diante do qual nos encontramos hoje. Os impactos climáticos podem ser enfrentados de uma forma mais efetiva, se tivermos políticas e iniciativas para o fortalecimento da sociedade, diante desses impactos. O melhor exemplo que eu conheço vem aqui do Nordeste”, prosseguiu.

Para o cientista ambiental, iniciativas como o Programa Um Milhão de Cisternas, que de fato conseguiu, por meio de uma tecnologia social, envolvendo a participação da sociedade para construção das cisternas, mitigar os efeitos da falta da chuva, se não resolve todos os problemas do semiárido, obviamente, serve como atenuante muito importante, na medida que as pessoas conseguem armazenar água da chuva para uso futuro, quando a chuva não vem.

Saulo Rodrigues ressaltou que é importante entender que o sistema climático envolve uma multiplicidade de componentes, que vai desde do ciclo hidrológico, passando pelo ciclo de nutrientes, pela circulação atmosférica, pela interação da biosfera com a atmosfera, pela interação da atmosfera com a hidrosfera. Tem a criosfera que são as áreas geladas que também interage com esse sistema. Tem a irradiação solar que é a fonte de energia principal nossa e tem também a antroposfera que somos nós. “E é justamente devido à importância cada vez maior dos impactos humanos sobre os sistemas naturais, produzindo efeitos que vão ficar registrados para gerações futuras estudarem, tal como a gente faz hoje. A gente estuda o que aconteceu no passado para entender o presente. No futuro, eles vão fazer a mesma coisa e esses estudiosos, lá no futuro, vão encontrar muitos vestígios que nós estamos deixando aqui, em termos de alteração do funcionamento dos ecossistemas”, previu.

O pesquisador destacou como resultantes dos impactos humanos, a questão de efeito estufa, da perda da biodiversidade, das mudanças de uso da terra, do impacto sobre a água, dos poluentes químicos, dos plásticos, dos microplásticos que estão se acumulando nos oceanos e nos sistemas naturais. “Isso tudo produz efeitos que podem seguramente ser rastreadas no presente e no futuro também, e são justamente as evidências desse impacto muito pronunciado da ação humana, que nos permitem denominar os últimos 200 anos, a partir da revolução industrial em particular, como um novo período da história geológica da terra”, analisou.

Segundo explanou Saulo Rodrigues, a maior parcela do aquecimento global, muito provavelmente, se deve às atividades humanas que aumentam a concentração de GEE na atmosfera. A composição química da atmosfera continuará se alterando ao longo do século XXI com efeitos persistentes por vários séculos. Os Modelos climáticos estimam que a temperatura global irá aumentar de 1.4 a 5.8º C neste século (XXI), dependendo do esforço das nações para implementar políticas de mitigação de gases de efeito estufa. Ele acrescentou que 80% do aquecimento global atual são devidos ao CO2; 80% de toda energia produzida são consumidos por 25% da população mundial que vivem nas nações industrializadas; Existem 30% mais CO2 hoje na atmosfera terrestre do que na época da revolução industrial.

“Toda a sociedade está sendo convocada a rever, de forma muito clara, os padrões que consumo que vem sendo praticados até o momento. Mesmo assim, ninguém vai parar de produzir porque tem aquecimento global e há resistência muito grande para se admitir essa evidência das mudanças climáticas, porque existe um conflito com interesses econômicos muito poderosos, sobretudo da indústria de petróleo e da indústria de mineração de carvão. É preciso produzir de outra forma. É preciso que a gente encontre alternativas tecnológicas para a produção de energia renovável de baixo impacto de carbono e que sejam competitivas”, argumentou.

Antes de finalizar a palestra, Saulo Rodrigues ressaltou que a questão da distribuição das oportunidades, do consumo da renda, das condições de vida no mundo. Ele revelou que 80% da energia produzida no mundo é apropriada por apenas 25% da população mundial, como resultado da desigualdade que existe no mundo, não só no Brasil. “O Brasil é pródigo nisso, mas no mundo inteiro a desigualdade está presente. Isso nos coloca diante de uma discussão sobre justiça ambiental e climática, que é um debate relevante, porque os países que menos produzem impacto sobre o sistema climático, os países em desenvolvimento, da África, da Ásia, da América do Sul, são aqueles que têm as piores condições de enfrentamento dessa nova realidade climática. os mais vulneráveis é que vão pagar o preço mais elevado em questões como segurança alimentar, segurança hídrica e segurança energética. A questão ambiental e a questão climática, cada vez mais, têm uma importância muito grande em termos de políticas com P maiúsculo e isso a gente não pode deixar de debater, porque o nosso futuro depende disso”, conclui.



Fonte: Revista Espaço Ecológico



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