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Especialistas alertam para os riscos do primeiro verão da pandemia no Rio

Compartilhe:     |  21 de dezembro de 2020

O verão começa oficialmente às 7h02 desta segunda-feira, e a estação que é a cara do Rio encontrará um cenário completamente diferente dos anteriores. Apesar da previsão de uma estação típica, com dias longos e quentes, como prevê o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), os próximos três meses marcam o verão da pandemia, com o fim da estação quase no mesmo dia em que se completa um ano da primeira morte por Covid-19 no estado. No último domingo da primavera, com termômetros na casa dos 38 graus, a cidade já teve um prenúncio de como deve ser o verão: além do calor, praias cheias, nenhum distanciamento nas areias, banhistas sem máscara e ausência de fiscalização.

O epidemiologista Roberto Medronho, professor da UFRJ que lidera estudos sobre a Covid-19, destaca que é a primeira vez em que o Rio irá encarar a Covid-19 no verão, época em que, com o calor, cariocas não costumam ficar em casa. Em nota técnica, ele e outros cientistas sugeriram nova proibição à permanência nas praias:

— Num período de festas de fim de ano, onde se fala tanto em fraternidade e solidariedade, a melhor forma de mostrarmos esses valores é ficando em casa. Tenho visto com muita preocupação famílias promovendo festas, pacotes de réveillon sendo vendidos em clubes.

Medronho compara o momento atual ao enfrentado na Europa durante a mesma estação, quando surgiu a segunda onda por lá. O epidemiologista diz ver muitas semelhanças entre os cenários:

— Estamos iniciando o verão, e, infelizmente, o que prevíamos está acontecendo: as pessoas estão se juntando em praias, bares, restaurantes e festas. Foi exatamente assim que a segunda onda chegou à Europa.

Por fim, o epidemiologista alerta para o risco de alto contágio numa situação como a de uma praia lotada.

— Se houver uma pessoa ali na faixa de areia com coronavírus, ela certamente contaminará todas as outras que estiverem ao seu redor, num perímetro de dois metros. Se a pessoa estiver falando alto ou cantando, como acontece também nas baladas, esse perímetro aumenta muito ainda. Infelizmente, essa virose não tem característica sazonal, a transmissibilidade é elevadíssima, independente da estação.

Multidão na areia

No dia em que o estado chegou a 24.473 vidas perdidas e 406.820 casos confirmados de coronavírus, e a média móvel, com alta de 34%, indicou aumento no contágio pelo sexto dia seguido, em contraste com o drama da pandemia, as areias da Zona Sul, ficaram cheias. Equipes do GLOBO percorreram toda a orla e não encontraram fiscais da prefeitura ou policiais militares tentando coibir aglomerações ou conscientizando banhistas da importância da normas sanitárias de prevenção à Covid-19.

No Arpoador, onde a faixa de areia é estreita, o distanciamento entre os banhistas neste domingo ficou quase impossível, com barracas quase coladas umas nas outras. Apenas alguns poucos banhistas conseguiam escapar da aglomeração, tomando sol na pedra. Apesar disso, duas viaturas do Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidão (Recom), da Polícia Militar, estavam estacionadas no calçadão, mas os agentes não atuavam nas areias.

Em Copacabana, Ipanema e Leblon, o cenário era parecido, assim como no Leme. Foi lá que a aposentada Dorinha Silva, de 60 anos, escolheu para dar um passeio, após três meses sem ir à praia. Receosa, a moradora de Copacabana preferiu manter a distância da aglomeração: escolheu um espaço vazio na mureta, e não tirou a máscara.

— As pessoas não temem a doença. Eu prefiro ficar distante. Não tem mais fiscalização nenhuma, mas, se tivesse, faria diferença — diz.

No calçadão, o movimento era mais tímido que em outros fins de semana, mas, ainda assim, com um número considerável de frequentadores pedalando ou caminhando — muitos sem máscara.

No início do mês, a prefeitura do Rio voltou a proibir o estacionamento na orla nos fins de semana e feriados. A medida, no entanto, não evitou que a orla de Copacabana e Leme tivesse um número considerável de carros parados.

Na capital, onde a situação é mais delicada em relação à pressão por internações, a ocupação de leitos exclusivos para Covid-19 mostra com clareza a proporção do avanço da doença: na rede SUS, que inclui leitos municipais, estaduais e federais, 92% das vagas de UTI estavam lotadas neste domingo. Havia 273 pessoas infectadas aguardando transferência, sendo 175 delas, para terapia intensiva.

Segundo o Inmet, o verão deve ter temperaturas máximas dentro da média climatológica, entre 33 e 34 graus, mas valores superiores podem ocorrer eventualmente.

— O verão começará com tempo bom e temperatura elevada, com grande probabilidade de chuvas fortes e queda na temperatura no segundo dia do verão, devido uma frente fria que passará pelo litoral da Região Sudeste — prevê a meteorologista Marlene Leal, do Inmet.

Com as altas temperaturas, um dos desafios será se manter de máscara.

— O uso da máscara no verão vai se tornar mais incômodo, mas é extremamente necessário — alerta o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Alberto Chebabo, .

Chebabo também recomenda aumentar a frequência com que as máscaras são trocadas, já que a eficiência da barreira é prejudicada pela umidade. E a dermatologista Nandara Paiva lembra que, com o aumento da temperatura, o equipamento de proteção pode ainda causar acne e brotoejas. Os problemas, podem ser amenizados por produtos adequados.

A prefeitura informou que realizou fiscalização no fim de semana, aplicou 690 multas de trânsito e rebocou 539 veículos. A PM não se manifestou.



Fonte: O Globo - Letícia Lopes - Arthur Leal - Aline Macedo



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