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Especialistas explicam como o distúrbio de imagem se agravou durante a pandemia

Compartilhe:     |  28 de abril de 2021

Que atire o primeiro iPhone quem nunca usou um filtro no Instagram e pensou: “Nossa, queria ter este nariz”.  Ou aquela boca maiorzinha, o rosto mais afinado. Ou ainda, sei lá, a barriga da Bruna Marquezine e as pernas também. Pois parece mesmo inegável a influência das redes sociais – e de toda a estrutura patriarcal de imposição de padrões de beleza para mulheres – na nossa relação com o espelho e com nós mesmas. Então tá, mas sem radicalismo: o que há de errado em querer dar um upgrade no visual?

Dismorfia (Foto: Getty Images)
Dismorfia (Foto: Getty Images)

Olha, nada, se isso é resultado de uma reflexão pessoal, bem pensada e genuína. O problema é que há uma linha muito tênue aí. Sempre foi, mas parece estar cada vez mais fácil, cair nas armadilhas externas que aprisionam nossa mente e fazem com que não consigamos mais nos achar bonitas e “cismemos”, obsessivamente com certas características físicas. “Aquela pessoa cujo discurso parece sempre focado em se comparar ou salientar algum defeito do corpo, sabe?”, pontua a psicóloga Andreza Wurzba.

Um comportamento tão grave que pode chegar a níveis de sintomas parecidos com a depressão: “O indivíduo não consegue mais valorizar conquistas pessoais e tais pensamentos consomem tempo e energia diários muito grandes”. Trata-se, sim, de uma doença, o Transtorno Dismórfico Corporal, que atinge cerca de 2% da população mundial. No Brasil, estima-se que mais de 4 milhões de pessoas, entre 15 e 30 anos, sobretudo mulheres, sejam diagnosticadas. “Traumas como bullying podem acarretar o quadro de TDC, mas, na maioria das vezes, ele nasce na nossa própria casa, por estímulos e comportamentos nossos”, diz Andreza. Veja se você se enquadra no perfil e, principalmente, como fazer as pazes com sua imagem no espelho, nas fotos, na vida, a seguir.

O diagnóstico não é simples, afinal, a linha é tênue entre se sentir insatisfeita com alguma parte do corpo ou pensar de maneira obsessiva sobre o assunto. “Um exemplo é quando o paciente nunca fica satisfeito com o resultado de um procedimento e sempre quer mais. É quase como um ciclo vicioso”, explica o cirurgião plástico Alan Landecker.

Tá, mas só a cirurgia em excesso é um sinal? Não! Atitudes como se observar no espelho de maneira compulsiva, praticar exercício físico horas a fio, sentir uma insatisfação constante com o corpo, usar roupas largas para esconder alguma região e, em casos mais graves, ter vergonha de sair de casa, podem ser um sinal de que algo está bem errado – e esse algo não é a sua aparência, tá?

Dismorfia (Foto: Getty Images)
Dismorfia (Foto: Getty Images)

O que é o quê

Transtornos alimentares x Dismorfia corporal
Eles podem andar juntos, mas não quer dizer que são a mesma coisa. Um transtorno alimentar, como a anorexia, por exemplo, envolve consequentemente o transtorno de dismorfia corporal. Isso acontece pois a pessoa se enxerga maior do que é no espelho e, com isso, passa a forçar a retirada dos alimentos, e muitas vezes, fica sem ingerir nada por dias. Já no TDC, a busca pelo corpo ideal não envolve, necessariamente, a relação com o quê e o quanto se come.

Como tratar?

Como em todo transtorno psíquico, o tratamento do TDC envolve ajuda profissional (de terapeutas ou psiquiatras, dependendo da gravidade) e muita autoanálise. “Nós somos um conjunto de coisas: trabalho, vida social, espiritualidade, e por aí vai. Quando você percebe que todos esses âmbitos estão direcionados para sua aparência, é hora de buscar ajuda”, indica a psicóloga Andreza  Wurzba.

Dismorfia (Foto: Getty Images)
Dismorfia (Foto: Getty Images)

De bem com o espelho

Olhar para seu corpo e sua história com mais empatia e carinho é o primeiro passo do caminho. Os próximos:

Desconecte-se
Parece óbvio, mas largar o celular um pouco te ajuda a desligar a mente e, com isso, parar com as comparações, que rolam quase involuntariamente. Para começar com calma, programe-o para bloquear as redes sociais uma hora antes de dormir.

Proteja-se
Entenda seus gatilhos e dê o unfollow sem pena. Tá tudo bem em não seguir a Kendall Jenner se você acha que seu grande objetivo é ser igual a ela. A internet está lotada de mulheres que compartilham histórias com que você pode se identificar.

Toque-se
Sinta o seu corpo de verdade. Andreza Wurzba dá a dica: “Apague as luzes, coloque uma música e aplique um hidratante gostoso, sentindo cada partezinha do seu corpo”. Use os sentidos para perceber o quão incrível é essa máquina.

Peça ajuda
Acha que sofre de dismorfia corporal? Procure ajuda. Mesmo que no começo seja com uma amiga em que confia, para depois se abrir com um psicólogo ou psiquiatra para auxílio. Você não está sozinha nessa!

A luta (diária) delas

“Passei anos brigando incessantemente com o espelho, com a academia, com as roupas. Ainda não venci a guerra, mas algumas batalhas, sim, ao entender que beleza não é um músculo definido nem um número na balança.” Giovana Romani, Diretora de conteúdo da Glamour

“Tenho consciência de que adotei roupas oversized (que eu amo, inclusive) com a finalidade de esconder meu corpo. Ainda não tenho um final feliz pois a balança ainda me deixa triste, mas é um processo.” Luanda Vieira, Editora de beleza e wellness da Vogue

“Quando estou para baixo e sei que vou descontar no meu corpo, gosto de me desligar das redes sociais um pouco. A cura não é imediata, é algo que tenho que trabalhar todos os dias.” Andressa Almeida, Modelo



Fonte: Glamour - JULIA RIBEIRO



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