Notícias

Especialistas se unem para criar o maior banco de dados sobre espécies exóticas das Américas

Compartilhe:     |  11 de setembro de 2020

Na época das grandes navegações europeias a melhor forma de conservar carne era levar animais vivos nos navios. Assim chegaram na América do Sul os primeiros javalis (Sus scrofa). Hoje, eles competem diretamente com as espécies nativas e alteram o ambiente, tornando-se um dos mais problemáticos mamíferos invasores do mundo. Para Clarissa Alves da Rosa, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), era crucial ter dados da distribuição do animal invasor, obtidos durante em sua tese de doutorado defendida em 2015. “Por eu já trabalhar com essa temática de invasões biológicas, na época focada principalmente no javali, surgiu a ideia, partindo de mim, do Bruno Ribeiro (Universidade Federal de Goiás – UFG) e dos professores Mauro Galetti e Milton Ribeiro (Universidade Estadual Paulista – UNESP/Rio Claro), em fazer um data paper específico de mamíferos invasores. Esse trabalho foi iniciado em 2017 com o objetivo de reunir informações de mamíferos exóticos em toda região Neotropical”. A iniciativa culminou num artigo publicado na revista Ecology, reunindo 73.738 registros de 642 pesquisadores, dos anos de 1574 a 2018.

As invasões biológicas são uma das principais causas da perda de biodiversidade e se tornaram um grande problema mundial. A disponibilidade de informação é o primeiro passo para prevenir que espécies exóticas se tornem invasoras. Nesse sentido, os data papers – artigos científicos que buscam reunir grandes volumes de dados em plataformas de acesso público e gratuito – são fundamentais, e o Brasil vem dando exemplo para todas as regiões do planeta de como se consegue, em pouco tempo, recuperar e organizar informações importantes para o entendimento da biodiversidade, questões ecológicas, influências de degradação e mudanças climáticas. “Um conjunto considerável de informações está se tornado acessível. Outros países já perceberam nossa estratégia de como montar essa rede e de como estimular seu funcionamento. Hoje podemos quantificar mais de 3 mil pesquisadores que estão disponibilizando suas informações. Esse é um grande exemplo que estamos dando com esta open mind. Temos um grupo de pessoas bem-intencionadas que está fazendo com que as coisas aconteçam”, comemora Milton Ribeiro.

Registro de distribuição de pequenos roedores. Figura: Acervo Neotropical Alien Mammals.

O grupo iniciou a articulação para construção da base de dados de espécies exóticas e invasoras a partir de uma lista de pesquisadores que atuam com mamíferos. “Essa lista foi compilada pelos professores Mauro, Milton e parceiros. Fizemos então um convite oficial com instruções de como cada pesquisador deveria acrescentar os dados no nosso banco de dados, pois a padronização das informações é muito importante nesse tipo de banco de dados. Os pesquisadores foram estimulados a participar e a repassar, de forma livre, o convite a outras pessoas que poderiam ter dados de mamíferos exóticos. Em poucas semanas, uma lista de pouco mais de 100 pesquisadores se transformou em mais de 600 pessoas”, explicou Clarissa.

De acordo com a pesquisadora, todas as pessoas que tinham dados coletados e que participaram com esses dados foram incluídas como autoras do trabalho. “Nosso objetivo não foi coletar novos dados, mas sim organizar e padronizar os já existentes. Então, no momento que o pesquisador aceitava o convite, o mesmo deveria preencher uma planilha padrão com informações da espécie, local de registro, tipo de ambiente, método, etc. As informações eram então revisadas por nossa equipe, havendo sobretudo uma preocupação na identificação correta da espécie e de sua localização geográfica”.

Neotropical Series

Os pesquisadores Mauro Galetti e Milton Ribeiro lideram os projetos denominados Atlantic Series, com dados sobre a Mata Atlântica, e Neotropical Series, que abrange a área desde a fronteira norte dos Neotrópicos (incluindo México, sul dos EUA e regiões do Caribe), até o sul austral da América do Sul (Argentina, Uruguai e Paraguai). Por meio desses projetos temáticos, bases de dados sobre a biodiversidade dessas regiões são publicadas em forma de artigos científicos, tornando-se públicas e de acesso gratuito. “Avançamos bastante no conhecimento da biodiversidade em geral, mas muitas vezes acabamos ficando sem tanto acesso a tal história, pois poucas foram as vezes que esses conhecimentos se tornaram acessíveis”, justificou Ribeiro. “Temos que nos preparar no Brasil, como país continental que é, para buscar conhecimento de todos os Neotrópicos. Temos dados da maioria dos lugares, de onde e quantas vezes os animais foram registrados. Estamos num ponto ótimo para conhecer cenários da real situação do impactos que as espécies exóticas estão causando na biodiversidade e em diferentes ambientes”.

Espécies exóticas

Registro de distribuição de javalis (Sus scrofa). Figura: Acervo Neotropical Alien Mammals.

Uma espécie exótica é aquela que originalmente não faz parte de uma região. De acordo com Clarissa Alves, os mamíferos foram os primeiros organismos introduzidos intencionalmente em várias partes do mundo. “Essa introdução começou a ocorrer de forma massiva nas grandes navegações europeias. Sem refrigeração, a melhor forma de conservar a carne era levar animais vivos (ex. porcos, cabras, etc.) e, ao chegar em um novo território, os animais vivos eram introduzidos de forma a reproduzir e manter o estoque de carne. Posteriormente, nos séculos 18 e 19, muitos animais foram introduzidos para caça, força de trabalho e carne. Atualmente, mamíferos seguem sendo introduzidos intencionalmente para fins de caça ou não intencionalmente, ocasionado de escapes de animais pets”.

Contudo, não só espécies de outros países são consideradas exóticas. É o caso, por exemplo, do tamanduá-bandeira (Tamandua tetradactyla) ou do lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), listados no artigo. “Essas espécies são ameaçadas no Bioma Cerrado e detectamos que estão se fazendo presente em outras regiões. Mesmo que uma espécie seja considerada sensível, não necessariamente é positivo que ela esteja em outros locais. Com o avanço da fronteira agrícola, perde-se floresta nos biomas de Mata Atlântica e Amazônico, por exemplo, e cria-se ambientes abertos e semiabertos, como os do Cerrado, favorecendo a expansão dessas espécies e deslocando seu centro geográfico de atividade. Alguém em Ubatuba/SP pode achar que o lobo-guará agora faz parte do ambiente da região. Não. O que temos são indivíduos que, devido ao desmatamento, encontraram condições favoráveis para se deslocar de uma região originalmente de Cerrado para outra. A espécie pode estar invadindo, o que pode não ser necessariamente positivo, pois ela pode causar impactos em outras que dividem o mesmo recurso e que precisam do mesmo ambiente”, informou Milton Ribeiro.

Espécies domesticadas

Registro de distribuição de gatos domésticos. Figura: Acervo Neotropical Alien Mammals.

Ribeiro explica que os avanços das ações humanas abriram espaço para que espécies nativas ou exóticas viessem de outros países e regiões e ocupassem o espaço, e que isso favorece algumas espécies e outras não. As espécies domesticadas, por exemplo, causaram mudanças na biodiversidade que demandam maior conhecimento. “É prematuro afirmar que as espécies domesticadas e não domesticadas definitivamente são prejudiciais à biodiversidade, todavia sabe-se que há uma modificação na dinâmica natural. Precisamos entendê-las em cada contexto mas, no geral, espécies que não são de uma região tem mais chances de causar impactos negativos”.

Os cachorros e gatos domésticos, por exemplo, são espécies favorecidas, pois tem à sua disposição toda produção nas residências ou nas propriedades rurais. Contudo, são animais que, quando exercem seus instintos, acabam adentrando nos ambientes naturais. “Quando eles entram nessas áreas naturais, devemos considerar que levam algo para os animais nativos e podem trazer algo para os animais que vivem na sua área de origem, bem como repassar algo para os humanos. Assim, precisamos pensar do ponto de vista das zoonoses”, alertou Ribeiro. “Sabíamos que haveria um impacto potencial desses animais sobre a biodiversidade, mas não tínhamos dados sobre para onde eles estariam indo e qual fauna nativa estaria circulando por essas áreas. A partir de agora, com essa série de levantamentos que fizemos, teremos condições de avaliar o impacto de forma mais precisa”.

Outro exemplo de animal doméstico causador de impactos em potencial é o gado. “Ainda não sabemos quase nada sobre os impactos do gado nos Neotrópicos. O que sabemos é que se trata de uma fauna de grande porte que muitas vezes é favorecida pelo tipo de manejo. Quando vários indivíduos adentram nos ambientes naturais, eles mexem com quase toda aquela estrutura, principalmente a da parte de baixo da floresta, o sub-bosque, criando uma abertura de até 2 metros do solo para cima que chamamos de ‘bosqueado’. Com isso, toda a fauna e flora daquele ambiente é comprometida”, lamentou Ribeiro.

Impactos dos mamíferos invasores no Brasil

A pesquisadora Clarissa Alves explica que no Brasil podemos dividir, a grosso modo, os mamíferos invasores em três grandes tipos:

1) Animais domésticos de vida livre, como é o caso do gado e dos cães e gatos. Uma espécie doméstica passa a ser classificada como exótica e invasora quando é criada de forma livre, ou seja, a espécie ainda recebe assistência humana (assistência alimentar, médica, etc.), mas habita um ambiente natural, onde pode causar muitos impactos como pisoteio de solo e córregos (ex. o gado) ou predação de animais nativos (ex. cachorro e gato).

2) Animais advindos do hemisfério norte, sobretudo da Europa. Das espécies de fora do país podemos considerar o javali e a lebre as espécies mais problemáticas. Elas estão cada vez mais ocupando o território brasileiro, sendo que o javali, por exemplo, já pode ser encontrado em todas as regiões do país. São espécies que, de forma geral, competem diretamente por recursos alimentares com as espécies nativas e alteram o ambiente, mudando padrões de distribuição de espécies. O javali, por exemplo, tem o hábito de chafurdar o solo para se alimentar, e com isso ele remove a cobertura vegetal, deixando o solo exposto, removendo o banco de sementes e reduzindo a germinação de espécies nativas. Ele também destrói córregos e nascentes devido ao hábito de se banhar nesses cursos d’água. A passagem de grandes bandos de javali já foi comparada, em artigos científicos, com o impacto de lavragem do solo, que deixa-o completamente removido e exposto. O javali também é predador de sementes, reduzindo o sucesso reprodutivo de algumas espécies vegetais, além de predar animais (embora seja menos comum).

3) Animais brasileiros que são introduzidos em outros locais do país. O caso mais emblemático são os pequenos primatas vendidos como pet. Muitas primatas brasileiros possuem distribuição restrita a algumas regiões do Brasil. Motivados pela venda de pet, os primatas têm sido transportados e soltos no Brasil todo e o principal impacto tem sido a hibridização de espécies, ou seja, a reprodução de espécies do mesmo gênero, mas não da mesma espécie, resultando em descendentes não férteis e levando à morte gradual das gerações de uma população. Isso tem acontecido até mesmo no grupo do mico-leão, que possui diversas espécies, todas ameaçadas de extinção e que estão hibridizando em alguns locais, levando ao risco de se perder duas espécies ameaçadas de uma vez! Então, de forma geral, espécies de mamíferos invasores modificam ambiente, predam, competem e alteram ciclos hídricos e de nutrientes.

Políticas públicas

O Brasil possui uma ampla legislação que trata da invasão de espécies nos âmbitos estadual e federal. Porém, segundo Clarissa Alves, não há nenhuma lei federal ou material público de base que consolide conceitos e que seja claro sobre qual a atitude do país em relação a essa temática. “Isso tem levado a alguns casos pontuais de excesso em alguns estados, levando a legislações contraditórias na esfera federal e estadual e causando, entre tomadores de decisão, uma verdadeira confusão sobre quais diretrizes devem ser adotadas”.

Segundo a pesquisadora, ainda temos muito a avançar, mas o país já vem fazendo isso na última década. “Como exemplo temos uma legislação que permite o controle do javali que, apesar de ainda estar sujeita a algumas falhas, abriu precedentes para que se discutisse no país, pela primeira vez, o manejo de fauna exótica de forma ampla e clara. Depois veio o Plano Javali, uma iniciativa histórica que uniu Ministério do Meio Ambiente e Ministério da Agricultura. Junto com o Plano Javali começou a ser estruturado o Plano Nacional para Espécies Exóticas Invasoras, o qual ainda está em andamento. Essas são iniciativas que estão mudando a forma de encararmos as invasões biológicas, pois dão mais segurança a gestores públicos, estimulam inclusive uma área ainda muito defasada no país, que é o manejo de espécies de fauna. Porém, como tudo relacionado ao meio ambiente nos últimos dois anos, essas iniciativas, que estavam sendo realizados de forma contínua e progressiva, foram reduzidas, dependendo muito mais da boa vontade das pessoas atuantes do que das instituições públicas”.

Lobo-guará é capturado em Jacareí, interior de São Paulo Foto: Divulgação/Corpo de Bombeiros/SP.

Lacunas de conhecimento

Além da defasagem de políticas públicas, há também possíveis lacunas na amostragem desses registros. Nas regiões Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste do Brasil, por exemplo, há bem menos registros do que nas regiões Sul e Sudeste. Segundo Ribeiro, esse viés pode ser explicado pela “sociologia da amostragem”, devido aos métodos de esforço e coleta. “Observando a Amazônia, vou perceber que existem dados próximos às vias de acesso, que são os rios e rodovias. Então durante a análise posso erradamente concluir que os animais estão perto dos rios e dos acessos. Mas sabemos que isso não é verdade. O acesso para entrar na floresta não é fácil para se fazer coleta de dados”.

Outro ponto que o pesquisador considera importante é sobre onde estão as principais linhas de financiamento de pesquisa. “Pesquisar é caro, tanto do ponto de vista dos levantamentos como do ponto de vista humano. Daí acredito que as universidades e institutos de pesquisa acabam influenciando para onde podemos conhecer mais”.

Para o pesquisador Paulo Henrique Marinho, que contribuiu para o artigo com dados coletados principalmente em áreas de Caatinga, o Nordeste ainda carece de investimentos em pesquisa. “O ainda carente investimento em pesquisa prejudica esse mapeamento, pois pode dar a falsa noção de que, no Nordeste, o problema das espécies invasoras é menor. Mamíferos exóticos invasores estão por toda a Caatinga, sejam eles totalmente domésticos, como ovelhas e cabras, que aqui ocorrem nas maiores densidades encontradas no Brasil, ou animais asselvajados como as várias populações de jumentos abandonados que hoje se reproduzem livremente nas áreas menos antropizadas”.

Contudo, Ribeiro acredita que essa realidade vem sendo modificada, graças à formação de redes de pesquisa. “Felizmente percebo que os grupos de pesquisa estão montando suas redes, e essa cultura pode fortalecer esses conhecimentos. Os dados já existentes podem subsidiar excelentes análises, mesmo que parte dos pesquisadores não consigam compartilhar as informações. Eles podem se organizar em redes e buscar estratégias para o preenchimento de lacunas de informação. Uma linha de pesquisa importante é saber das lacunas de conhecimento. Faltam levantamentos? Então precisamos de políticas que façam com que eles aconteçam”, conclui o pesquisador.



Fonte: ((o))Eco - Carolina Lisboa



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

Gatos: dicas de cientistas para cuidar bem do seu pet

Leia Mais