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Espécies invasoras afetam o ecossistema do Rio de Janeiro

Compartilhe:     |  26 de maio de 2021

De ‘falso mexilhão’ caribenho à tilápia, que veio da África, conheça espécies invasoras que afetam o ecossistema do Rio

O oceanógrafo Luciano Neves, da Unirio, dedica grande parte de sua pesquisa acadêmica ao estudo de espécies invasoras ou exóticas, como são chamados os seres vivos não nativos de um habitat. O interesse pelo tema começou ainda criança, quando pescava o peixe Tucunaré, que foi introduzido no Reservatório da Represa do Ribeirão de Lajes, em Barra do Piraí, nos anos 50, através de programas oficiais de governo.

— Naquela época construiu-se muitas represas no país, o que dizimava várias espécies de peixes. De 100, 50 sumiam. Aí a solução do governo era introduzir espécies invasoras, e muitas vieram da Amazônia, como o tucunaré. A visão era de que os invasores ocupariam o nicho vazio, só que eles acabaram se expandindo e contribuindo para a perda de diversidade — explica Neves, que ainda lembra da tilápia, originária da África, e da carpa, da Ásia, os dois peixes mais cultivados do Brasil. — Um grande problema é que cria-se um processo de naturalização desses invasores até chegar no ponto em que a pessoa pensa que aquela espécie sempre existiu ali. E o ecossistema se remaneja com a presença da invasora, num desequilíbrio que pode facilitar novas invasões. Vira uma bola de neve.

Nos últimos anos, pescadores da Lagoa Rodrigo de Freitas vêm notando uma quantidade menor de peixes quando suas redes voltam da água. O fato não se explicaria pela poluição, já que o despejo de esgoto diminuiu, relatam. Pesquisadores, então, relacionaram a curiosa situação ao aparecimento de um mexilhão caribenho, identificado em 2014, e que tem grande poder de filtragem, inclusive de microalgas essenciais para a vida marinha, além de deixar a água mais transparente, facilitando a tarefa do peixe em desviar das redes.

O Mytilopsis Leucophaeta foi batizado de “falso mexilhão escuro” por ter características pontuais que o diferenciam de um clássico mexilhão. Ele é menor — tem no máximo três centímetros — e suas conchas não fecham simetricamente. Pelo tamanho pequeno, não costuma ser consumido como alimento pelo ser humano. Luciano Neves coordenará um projeto, batizado “Ecoshift”, que fará um levantamento de dados da população animal e qualidade da água da Lagoa. Nas suas pesquisas, ele descobriu o falso mexilhão, registrado oficialmente em 2014, o que não exclui a possibilidade dele ter chegado antes à Lagoa, até ser percebido.

A principal hipótese é que o mexilhão tenha sido “importado” por alguma embarcação, seja na chamada água de lastro do navio ou encrostado na sua estrutura. A viagem pode ter sido pelo canal do Jardim de Alah, que faz conexão com o mar, mas pescadores da Lagoa, da Colônia Z13, mencionam a possibilidade dele ter vindo junto a algum contêiner em época de montagem da árvore de natal.

Antonio Claudio Paiva, o “Maracanã”, membro da comissão de pescadores da Colônia Z13, explica que o falso mexilhão faz, ao mesmo tempo, o papel de “mocinho e de bandido”.

— Como mocinho, ele filtra poluentes e deixa a água mais clara. Mas como bandido, ele prejudica nossa pesca, porque o peixe vê a rede e foge. O ideal é a água estar mais turva. Nas fases de água muito clara, nós pescamos só um terço do nosso normal. Claro que a pesca não é afetada só pelo mexilhão, há vários fatores envolvidos, mas o fato é que o mexilhão impacta muito, além de ser fedido demais — resume Maracanã, que destaca o poder de reprodução da espécie. — A gente faz raspagem dos deques, mas menos de um mês depois eles voltam. Vão crescendo um em cima do outro, estão dominando tudo.

Incentivo às invasoras como programa de governo

Até o final dos anos 90, diz Luciano Neves, perdurou a visão institucional de incentivo às introduções de espécies exóticas, na fauna e na flora, o que começou a mudar na Eco-92 até chegar em decretos e leis que limitam cultivos e defendem a preservação de espécies nativas. No Rio, por exemplo, foi publicado, em 2011, um decreto municipal para criação de um programa municipal de controle de espécies exóticas e invasora (da fauna e flora), mas que nunca foi implementado na prática. Já em dezembro do ano passado, o presidente Jair Bolsonaro baixou um decreto para cessão de uso de espaços físicos para aquicultura. O texto exclui a necessidade de autorização da Agência Nacional de Águas ou do Ibama para criação de peixes em reservatórios de hidrelétricas, como é o caso do tucunaré.

Com o estabelecimento das invasoras, a dificuldade recai sobre como se equilibrar entre a necessidade de remoção ou possibilidade de controle da expansão. No Reservatório das Lajes, por exemplo, Neves diz que houve uma tentativa de reintrodução do peixe piabanha, nativa, mas que eles foram comidos pelos tucunarés. Já houve também tentativas, no passado, de controle de natalidade do sagui.

— Não é trivial, é necessário um órgão ambiental de controle. Tem animal que já está aqui há tanto tempo que hoje existe mais benefício do que prejuízo, apesar de ter causado impacto negativo no início de sua presença, como o cavalo, que foi introduzido há séculos — afirma Neves.

As principais exóticas da flora

Dentro da flora carioca, as principais invasoras hoje são a leucena (natural do México) e a amendoeira (natural da Ásia), no espaço urbano, e a jaqueira (Ásia), dentro de unidades de conservação, afirma o engenheiro florestal Salvador Sá.

— Há espécies com capacidade maior ou menor de invasão. A jaqueira, por exemplo, tem sementes vigorosas e promove muita sombra, o que inibe outras espécies próximas de crescerem. Mas hoje a mais problemática é a leucena, porque ela tem poder de rebrotar mesmo depois de cortada e produz muitas sementes. Além disso, sua folha solta uma substância que inibe crescimento de outras mudas nativas, expulsando a pitanga, aroreira, guriri (nativas de restinga).

A competição é um problema que culmina na redução da riqueza da biodiversidade. Árvores “expulsas” poderiam ser, por exemplo, fontes de alimento para outros animais. Nas suas ausências, desencadeia-se o desequilíbrio em série do ecossistema.

— O importante é colocar as exóticas nos seus devidos lugares, com cultivo controlado, não dentro de um parque nacional — afirma Salvador Sá, que faz uma analogia para explicar o problema da perda de biodiversidade. — É como você chegar numa feira e só encontrar tomate vendendo. A biodiversidade tem relevância não só ecológica, como econômica e social.

Atualmente, a prefeitura do Rio possui programas para reintrodução de espécies nativas na flora, como mutirão de reflorestamento em comunidades e parques, ou aplicação de medidas compensatórias, como da restinga na orla. Não há, porém, um programa municipal para controle de espécies exóticas, como previa o decreto 33814, de 2011.

Procurada, a Secretaria municipal de Meio Ambiente afirmou que “está em curso o processo que cria os Programas de Conservação e Proteção da Fauna Silvestre e Flora Nativa Carioca”. Atualmente, diz a pasta, as listas de espécies exóticas são constantemente atualizadas e, para acelerar a erradicação das invasoras da flora, ”as medidas compensatórias por seus cortes são isentas nos processos de licenciamento”.

Saiba quais são as principais espécies invasoras no Rio

Falso mexilhão Mytilopsis leucophaeta: Originário do Caribe (golfo do México e sul d os EUA), presente na Lagoa Rodrigo de Freitas desde 2014. Melhora a transparência da água, mas filtra microalgas e compete com mexilhões nativos

Tilápia, carpa e tucunaré: A Tilápia é originária da África, carpa da Ásia e tucunaré da Amazônia, mas são muito cultivados no Brasil e no Rio. São peixes grandes e carnudos, e por isso conquistaram os pescadores, mas inibem o crescimento de peixes nativos e contribuem para perda de biodiversidade

Sagui (mico-estrela): Natural de áreas de cerrado e caatinga, entre Minas e outros estados do Nordeste e Norte. Carismático, se tornou um símbolo do Rio, mas é predador de ninho de pássaros e compete com mico-leão-dourado, que está em extinção.

Coral-sol (espécies do gênero Tubastrea): Originário do Oceano Pacífico, principalmente do sudeste Asiático. Está espalhado em quase toda costa brasileira, como na Região dos Lagos e na Baía de Ilha Grande, após ser introduzida na década de 80. Chama a atenção pela beleza, e é usado para confecção de adornos, mas libera substância que inibe crescimento de outras espécies.

Jaqueira: Originária da Ásia, mas está muito presente no interior de unidades de conservação do Rio. Dá muitos frutos, mas seu porte e sombreamento inibe crescimento de outras mudas nativas.

Leucena e amendoeira: A leucena vem do México e amendoeira da Ásia. Estão espalhadas pelo meio urbano carioca, porque tem rápido poder de proliferação e competem com espécies nativas.



Fonte: Um Só Planeta - Por Lucas Altino - O Globo



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