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Estação meteorológica ajudará cientistas a encontrar respostas sobre o clima

Compartilhe:     |  28 de abril de 2021

A 5,8 mil metros acima do nível do mar, na montanha chilena de Tupungato, Baker Perry e seus colegas escaladores foram surpreendidos nas primeiras horas da manhã por uma nevasca inesperada que os manteve em suas barracas com ventos fortes e neve em redemoinho.

“Faz parte da beleza das montanhas que seja tão desafiador. Esse é um dos motivos pelos quais não há muitas estações ativas nesses lugares”, diz Perry. “Queremos vê-lo em seu momento mais tempestuoso e desafiador também. Faz parte do clima. Precisamos medir isso.”

Segundo Perry, que é cientista climático da Appalachian State University, as montanhas são complexas: elas criam seu próprio clima e as condições podem mudar rapidamente. Em fevereiro, a equipe enfrentou uma jornada de duas semanas pela neve densa em meio a uma pandemia global para instalar uma estação meteorológica logo abaixo do cume do Tupungato, um vulcão adormecido no sul dos Andes, onde o Chile encontra a Argentina.

Agora a mais alta estação meteorológica dos hemisférios sul e ocidental, a ferramenta ajudará os cientistas a entender a rapidez com que o clima da região está mudando. A expedição foi patrocinada pela National Geographic Society e a Rolex.

Com dados sobre temperatura, velocidade do vento e nevadas, os cientistas podem entender melhor como o Chile Central e a capital do país, Santiago, se sairão à medida que as mudanças climáticas pioram a seca histórica da região e diminui suas torres de água, reservatórios de água doce da montanha “embalados” na forma de neve e gelo.

“Os desafios são muito grandes agora”, disse o membro da expedição Tom Matthews, cientista climático da Universidade de Loughborough, no Reino Unido. “Há milhões de pessoas vivendo a jusante dessas torres de água. Elas são parte de um sistema do qual sabemos muito pouco em termos de como ele pode responder à medida que o clima esquenta.”

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À noite, o acampamento Los Penitentes brilha a 4,4 mil metros acima do nível do mar. Ao fundo, em direção ao norte, está a montanha Sierra Bella, com uma altitude de 5,3 mil metros. A noroeste, a montanha Polleras atinge quase 6 mil metros. Ambas estão entre as montanhas mais proeminentes dos Andes no Chile.

FOTO DE ARMANDO VEGA, NATIONAL GEOGRAPHIC SOCIETY
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Hernán Puga Plaza e Manuel Mira, guias de montanha de uma equipe de escaladores chamada Asesores Andinos, carregam alimentos, equipamentos de montanha e suprimentos médicos para o acampamento a 5,2 mil metros de altura.

FOTO DE ARMANDO VEGA, NATIONAL GEOGRAPHIC SOCIETY

Mudanças climáticas no Chile

Tupungato é o terceiro pico mais alto do Chile e a montanha mais alta da bacia do rio Maipo, bacia hidrográfica que abastece sete milhões de pessoas que vivem em Santiago e seus arredores. Com dados melhores sobre quanta precipitação cai em topos de montanhas como Tupungato, os funcionários do governo saberão quanta água eles têm para alocar em um determinado ano.

“Eu estudo geleiras desde 1982. Durante a minha vida, vimos mudanças tremendas nas geleiras e coberturas de neve”, disse o líder da expedição Gino Casassa, Explorador da National Geographic e chefe da unidade de geleiras do governo chileno.

Em um ano seco, diz Casassa, dois terços da água que alimenta o rio Maipo no final do verão vêm de geleiras que estão diminuindo.

O Chile Central é uma ecorregião mediterrânea, climaticamente semelhante a lugares como a Califórnia. Encontra-se logo abaixo do Deserto de Atacama, o deserto mais seco da Terra, e está encravado entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico.

Historicamente, os chilenos estão acostumados a ver anos secos periodicamente: 2010 foi um deles. Depois veio 2011, 2012 e a chuva ainda era pouca.

“Então veio 2014”, que também foi seco, “e isso foi suspeito”, diz René Gerreaud, climatologista da Universidade do Chile, que não fez parte da expedição.

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Marcelino Ortega Martinez prepara os cavalos e mulas para transportar suprimentos para o acampamento Aguas Blancas, a mais de 3 mil metros de altura. Foi lá que o vulcão Tupungato se tornou visível pela primeira vez no leste. Durante essa parte da expedição, os ventos atingiram quase 129 km/h.

FOTO DE ARMANDO VEGA, NATIONAL GEOGRAPHIC SOCIETY

Em 2015, Gerreaud e seus colegas chilenos determinaram que a região estava passando pelo que chamaram de uma megasseca. Neste momento, já se passou uma década de condições de seca. Em média, houve um terço a menos de chuva todos os anos  desde o início da seca em 2010, e até 90 por cento menos chuva em anos particularmente secos.

Embora Gerreaud diga que há uma certa variabilidade natural que influencia as chuvas em longas escalas de tempo, como em décadas, não há dúvidas de que a mudança climática está por trás da megasseca. Enquanto a maior parte do mundo terá condições mais chuvosas com o aquecimento da atmosfera, a geografia única do Chile Central sugere que terá o oposto.

Isso é uma má notícia para o Chile Central, que depende das torres de água da bacia do rio Maipo para obter água doce. Segundo um artigo publicado na revista Nature em 2019, torres de água no mundo todo, dos Andes ao Himalaia, estão ameaçadas pelas mudanças climáticas.

Há dois anos, Perry e Matthews instalaram uma estação meteorológica no Monte Everest, tornando-a a mais alta do mundo. A aventura foi a mais recente das Expedições Perpetual Planet da National Geographic Society, que financia explorações e pesquisas em ecossistemas afetados pelas mudanças climáticas.

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Cavalos e mulas carregados com o equipamento usado durante a expedição cruzam o Mal Paso, um trecho estreito e escorregadio da rota. Ao fundo, a montanha Sierra Bella pode ser avistada.

FOTO DE ARMANDO VEGA, NATIONAL GEOGRAPHIC SOCIETY

 Escalando uma torre de água

A mais de 5,8 mil metros, os escaladores do Tupungato alcançaram altitudes que são uma luta até mesmo para tripulações de helicópteros. Para evitar o chamado ‘mal da montanha’, que pode causar morte ao subir muito rapidamente, os alpinistas tiveram que fazer a caminhada a pé. Demora em torno de uma semana para chegar ao topo do Tupungato e o mesmo para descer.

Nos meses que antecederam a viagem, os membros da equipe treinaram muito para se preparar. Perry, que mora na Carolina do Norte, passou horas escalando trilhas íngremes com uma mochila pesada.

A estação meteorológica transportada para o topo do Tupungato é um tripé relativamente leve e feito de alumínio – embora pese 54 quilos e tenha um metro e oitenta de altura. Ele foi projetado para ser leve o suficiente para ser carregado em uma mochila, mas ainda é forte o bastante para suportar alguns dos ventos mais fortes da Terra.

Prendê-lo no topo exigiu aproximadamente duas horas de aparafusamento e estaqueamento com cabos de tensão – chamados cabos de sustentação – para ajudar a mantê-lo estável. A estação é alimentada por painéis solares e possui uma antena para comunicação via satélite.

Lá, diz Perry, a velocidade do vento é de mais de 190 quilômetros por hora.

Os cientistas também perfuraram sensores de um metro de profundidade que medem a temperatura do solo e rastreiam mudanças em solo permanentemente congelado, chamado permafrost. A estação tem sensores para medir a radiação, a profundidade da neve e o albedo, ou a refletividade do terreno circundante, pois, à medida que menos neve cai e o gelo derrete, as rochas escuras vão absorver mais energia solar e potencialmente acelerar o aquecimento.

Perry diz que há uma série de condições que a estação meteorológica vai esclarecer, como a presença e a espessura das nuvens e quanta precipitação está caindo em um determinado momento.

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Tupungato, visto de cima. As imagens aéreas permitiram que os montanhistas soubessem exatamente quanta neve eles encontrariam em sua viagem. Aqui está a rota que a expedição fez para chegar ao cume.

FOTO DE ARMANDO VEGA, NATIONAL GEOGRAPHIC SOCIETY

O que a estação pode prever?

“À medida que o clima esquenta, as geleiras recuarão rapidamente”, diz Matthews. “Quão rápido? Nós não sabemos. A maioria das observações foi feita na montanha em elevações bastante baixas, por isso não temos informações sobre o que está acontecendo no terço superior.”

Verificar quanta água doce o Chile deixou de gerar em suas montanhas e quando ela pode atingir níveis criticamente baixos é uma previsão complexa de se fazer, diz ele. Em curto prazo, temperaturas mais altas gera mais água, o que pode causar inundações. No entanto, conforme o degelo da geleira acelera, “eles ficam tão pequenos que, embora estejam derretendo muito rapidamente, há menos para derreter”, diz Matthews.

Os cientistas marcam essa transição como “pico d’água” – quando o fluxo de água de curto prazo se transforma em escassez de longo prazo.

Enquanto os EUA e outros países ao redor do mundo, incluindo o Chile, se comprometem a reduzir as emissões que alimentam a mudança climática, o Chile Central ainda deve se preparar para os piores cenários.

Garreaud está cauteloso ao dizer que Santiago pode atingir um “dia zero” por ficar sem água, como os residentes da Cidade do Cabo, África do Sul, temiam que pudesse acontecer por lá em 2018. Ele está otimista de que a região possa se adaptar, usando água de forma mais eficiente e reduzindo o consumo. A cidade também está construindo sua primeira usina de dessalinização.

Apenas três outras estações meteorológicas de alta altitude estão na bacia do rio Maipo, e Casassa espera que a estação se torne uma de muitas. Ele e sua equipe planejam instalar mais em todo o Chile.



Fonte: National Geographic - POR SARAH GIBBENS - FOTOS DE ARMANDO VEGA



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