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Exclusiva – Retamane, união pela conservação de tartarugas marinhas no Nordeste

Compartilhe:     |  6 de outubro de 2020

Por Rita Mascarenhas*

Tartarugas marinhas ocupam o litoral brasileiro como áreas de reprodução, alimentação e abrigo. De norte a sul, nos 8 mil quilômetros de costa, encontram-se cinco das sete espécies viventes de tartarugas marinhas no mundo.

Esses animais encontram-se em várias categorias de ameaças antrópicas à sua sobrevivência, de acordo com a união Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e em listas nacional e regionais – Livro Vermelho de Fauna Ameaçada (IBAMA).

Os primeiros trabalhos para proteção desses animais em território brasileiro datam dos finais dos anos de 1980 com a fundação do Centro TAMAR – de Conservação de Tartarugas Marinhas, um dos centros de proteção de fauna do ICMBio. Ocupando cerca de mil quilômetros de costa em pontos chave do litoral, pelo TAMAR, restam, todavia, muitos quilômetros para serem monitorados e reforçar as ações de proteção às tartarugas marinhas e seus ambientes.

As atividades reprodutivas são vinculadas às praias onde os verões são calorosos, com praias formadas por enseadas abertas e próximas a arrecifes de corrais. Sendo assim, o Nordeste brasileiro, somado ao litoral do Espírito Santo e parte do litoral fluminense, é o grande bolsão de reprodutivo dessas espécies.

No início da década de 2000, surgem novas iniciativas de proteção às tartarugas marinhas na costa nordestina, organizações civis, centros de pesquisa e universidades, geralmente  baseadas no trabalho voluntário, em praticamente todos os estados da região passaram a ampliar e fortalecer a conservação e conhecimento da biologia e distribuição das cinco espécies presentes no Brasil.

Novas praias identificadas como de desovas, resultam em conhecimento de novas populações ou subpopulações de cada espécie, maior número de neonatos nascidos a cada estação reprodutiva, dando uma dimensão mais real da importância do Brasil para a continuidade da existência de tartarugas marinhas no planeta.

Dada essa importância, essas instituições ao longo da costa do Nordeste se unem em forma de rede, de modo a trabalhar em constante intercâmbio de informações, técnicas de manejo e pesquisas, fortalecendo o objetivo comum de manutenção, ampliação e conservação da região como área de reprodução de tartarugas marinhas.

Essa rede fundada em 2012, recebe o nome de RETAMANE – Rede de Conservação de Tartarugas Marinhas do Nordeste.  A REDE possui uma coordenação bianual. A formação inicial conta com nove instituições (Mapa 1), onde se pode observar que mais que o dobro de território passou a ser monitorado à partir de 2012.

Atualmente são 13 instituições que compõe a Rede e, portanto, o espaço territorial do litoral do Nordeste brasileiro protegido no que tange às tartarugas marinhas é aproximadamente 4 vezes maior que os anteriores mil quilômetros.

1- Associação Guajiru – Paraíba

2- APC Cabo de São Roque – Rio Grande do Norte

3- Ecoassociados – Pernambuco

4-Fundação Centro Brasileiro de Proteção e Pesquisa das Tartarugas Marinhas – Pró-Tamar – Sergipe, Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará, e Fernando de Noronha

5-ICMBio – Reserva Biológica do Atol das Rocas – Arquipélago  de Atol das Rocas

6-Instituto Biota de Conservação – Alagoas

7-Instituto Tartarugas do Delta – Piauí

8-NUMAR – Rio Grande do Norte

9-Oceânica – Rio Grande do Norte

10- PAT- Ecosmar – Sul da Bahia

11-UFAL / Laboratório de Ictiologia e Conservação e Laboratório de Biologia Marinha e Conservação UFRN / Laboratório de Morfofisiologia de Vertebrados – Alagoas

12-UERN / PCCB – Rio Grande do Norte

13-UFRPE / Laboratório Interdisciplinar de Anfíbios e Répteis e Laboratório de Estudos Herpetológicos e Paleoherpetológicos – Pernambuco

Com as atividades coordenadas da RETAMANE, podemos listar os seguintes resultados de forma geral:

1- a tartaruga de pente apresenta desovas em abundância em 5 estados do Nordeste (Bahia, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, destacando que na Paraíba são atividades registradas em praias urbanizadas o que requer manejo diferenciado e suma importância para entender o comportamento desses animais face a alterações de seu ambiente natural, podendo ainda ser uma população distinta nessa região sem a presença de híbridos;

2- A tartaruga oliva tem Sergipe como bolsão principal de desova, mas apresenta um número significativo de desovas em Alagoas, o que amplia sua área de distribuição e assim compreende-se que a população reprodutiva no Brasil é maior que o anteriormente conhecido;

3- A tartaruga de couro só apresentava registro de desovas para o Espírito Santo e com as atividades do Grupo Tartarugas do Delta no Piaui, revela-se uma outra população desses animais extremamente raros em território brasileiro. O que significa que há populações distintas dessa espécie em atividade reprodutiva.

4- A tartaruga cabeçuda segue com seu principal local de reprodução o litoral da Bahia, entretanto apresenta desovas em número menor, mas constantes em outros locais do litoral.

5- A tartaruga verde provavelmente é a espécie mais conhecida ao longo de toda a costa nordestina, bastante costeira, alimenta-se de bancos de algas muito próximos das praias, são bastante avistadas e têm, no Nordeste, importantes locais em atividades não reprodutivas e seus registros reprodutivos seguem sendo as ilhas oceânicas da região.

A RETAMANE é um exemplo de que esforços conjuntos e podem trazer, em médio e longo prazo, resultados bastante positivos pra a conservação, seja diretamente pela atuação em monitoramentos de praias e oceanos, seja pela produção de documentos, publicações, reinvindicações de medidas legais e produtos técnicos elaborados.

 

*Rita Mascarenhas é doutora em Ciências Biológicas, presidente Retamane 2019-2021 e coordenadora do Projeto Tartarugas Urbanas – Ong Guajiru



Fonte: Espaço Ecológico



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