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EXCLUSIVO: Espaço Ecológico publica artigo de Vanda de Claudino-Sales sobre as dunas de Fortaleza

Compartilhe:     |  7 de outubro de 2020

A doutora em Geografia pela Universidade Paris-Sorbonne, França, Vanda de Claudino-Sales escreveu artigo sobre a situação ambiental das dunas de Fortaleza.

Confira o texto na íntegra:

Fortaleza, uma história de dunas destruídas….

Por Vanda de Claudino-Sales*

Dunas costeiras são formas de relevo criadas pela ação do vento, que mobiliza areias disponíveis nas praias e as acumulam na forma de cômoros de alturas variadas no interior da zona costeira. Elas podem ser móveis (com migração contínua das areias), fixas (associadas à presença de cobertura vegetal costeira, que imobiliza os sedimentos) e semifixas (com encostas ou dorsos parcialmente móveis, parcialmente fixos). Dentre esses tipos de dunas se situam as dunas parabólicas.

As dunas parabólicas têm forma em meia lua, ou croissant, com braços dispostos longitudinalmente à direção do vento principal, antecedendo o corpo principal da duna. Tais tipos de dunas potencializam a formação de geoambientes e ecossistemas particulares, pois no seu interior comumente ocorrem lagoas costeiras, que evoluem com o vento removendo areias até atingir o nível do lençol freático, o qual então aflora.

Fortaleza, quando da chegada dos portugueses nos anos 1.500, era um só campo de dunas parabólicas de grande expressão Essas dunas eram milenares: com efeito, as dunas do litoral de Fortaleza foram datadas por nós como tendo idade em torno de 1.900 anos. Mas, a cidade cresceu, do ponto de vista urbano, às custas da destruição do seu patrimônio e paisagens naturais. Riachos, córregos, cobertura vegetal nativa, campos de dunas e praias, foram simplesmente desaparecendo ao longo do processo evolutivo histórico de crescimento de sua malha urbana. Nesse percurso histórico, o campo de dunas foi sendo reduzido paulatinamente.

A partir da década de 1970, a destruição ampliou-se, através de desmatamento e terraplanagem, visando a construção de vias de circulação, edifícios residenciais e até uso das areias na construção civil. Apesar da diminuição dramática da paisagem dunar, que coloca as dunas em Fortaleza em situação de remanescentes residuais, a destruição dos terrenos de dunas continua ocorrendo. Na atualidade, restam os setores da Praia do Futuro, Cidade 2000 e Praia da Sabiaguaba, no litoral leste da cidade, como últimos remanescentes de terrenos dunares não completamente degradados, o que representa algo em torno de 17% da cobertura original, segundo os dados do IBAMA de 2018 e da Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceara, de 2015.

O grau de alteração antrópica dos resquícios dunares nas Dunas do Cocó, Cidade 2000 e Praia do Futuro não permite mais identificar toda a riqueza dos recursos hídricos superficiais e vegetacionais que antes caracterizavam esse sistema dunar. Trabalhos de campo realizados na área indicam no entanto a existência de olhos d’agua, lagoas interdunares, áreas alagadas e cobertura vegetal desenvolvida, representando ecossistema ativo e importante no contexto da cidade (Figuras 1,2,3,4,5).

Figura 1. Aspecto geral do campo de dunas do entorno da Cidade 2000. Duna parabólica do tipo fixa, comportando vegetação arbórea bem desenvolvida, a qual cria ecossistema hoje atípico no ambiente urbano de Fortaleza. Esses elementos residuais são importantes no sentido da criação de clima local ameno e controle de cheias. Foto: Vanda Claudino Sales, novembro de 2019.

Figura 2. Área alagada no interior do campo de dunas do entorno da Cidade 2000, representando um resquício das coleções de águas superficiais, do tipo lagoas interdunares, que outrora pontuavam a região. Foto: Vanda Claudino Sales, novembro de 2019

Figura 3. Campo de dunas da Praia do Futuro, representando dunas parabólicas fixas que já foram degradadas, tendo ocorrido retirada da vegetação primaria e terraplanagem relativa em décadas anteriores. A vegetação costeira rasteira voltou a colonizar a área como vegetação pioneira. Foto: Vanda Claudino Sales, novembro de 2019.

Figura 4. Duna parabólica semifixa no campo de dunas residuais da Praia do Futuro, relativamente conservada, que permitiria a realização de atividades educativas e lúdicas, se fosse definitivamente preservada e tivesse usos planejados e monitorados. Foto: Vanda Claudino Sales, novembro de 2019

Figura 5. Dunas do Cocó, com vestígios da vegetação nativa que colonizava a feição, do tipo parabólica semifixa. Foto: Vanda Claudino Sales, outubro de 2019

A destruição das dunas em Fortaleza vem colocando a cidade em contexto de permanente estresse ambiental, dado o elevado grau de impermeabilização dos terrenos que essa prática impõe. A impermeabilização também diminui o reabastecimento dos lençóis subterrâneos, e já é notável, em alguns setores de Fortaleza, a diminuição dos espelhos d’água de lagoas, tais como as Lagoas do Papicu e Lagoa da Precabura, por diminuição da alimentação normal a partir do subsolo.

Os recursos hídricos estão assim diminuindo, desaparecendo ou sendo amplamente degradados. Considerando o fato da pequena altitude dos terrenos locais e a ausência de desnivelamentos topográficos expressivos, a ocorrência de enchentes urbanas vem sendo, então, frequente. Tais fatos implicam em desconforto urbano e prejuízos materiais, tanto para a população quanto para as estruturas urbanas (avenidas esburacadas, calçadas danificadas, galerias pluviais atulhadas por sedimentos e resíduos urbanos, alagamentos causadores de problemas de saúde pública, acúmulo e/ou distribuição de lixo urbano). Esses problemas acabam sacrificando a população duplamente: geram incômodos enquanto estão ocorrendo e há perda de investimentos em outros setores sociais, como educação, saúde, transportes, já que recurso terão que ser redirecionados para a recuperação do que foi danificado pelas enchentes.

Tais mudanças no quadro ambiental traduzem-se por modificação acentuada no clima urbano, e ilhas de calor vêm sendo detectadas em alguns bairros. A temperatura vem também aumentando nos últimos anos, ocorrendo em algumas áreas valores estáveis de aumento da ordem de quase 4 graus centígrados. Para se ter uma ideia da gravidade dessa situação, as modelizações do Painel Intergovenamental de Mudanças Climáticas – IPPC, da ONU, que vem realizando prognósticos e criando cenários futuros em termos de aquecimento global, indica um aumento da ordem de 1 grau para os próximos decênios, o que já implica em desastres ambientais. Ora, Fortaleza já apresenta valor três vezes maior do que o apontando para a média global pelo IPCC.

As dunas parabólicas, seus recursos hídricos e os ecossistemas que criam, jamais voltarão a se desenvolver na zona litorânea de Fortaleza, em função da inexistência de espaço para acomodação de areias nos dias atuais. Na realidade, considerando-se o atual ritmo e forma de ocupação da zona costeira regional com grandes complexos turísticos e construções sem critérios ambientais, pode-se seguramente considerar que tais relevos jamais voltarão a ser produzidos em toda a extensão da zona costeira do Nordeste do Brasil. Em adição, a continuar esse ritmo de ocupação, as formas existentes fatalmente desaparecerão, perdendo- se para sempre paisagens naturais que a história geológica demandou milhares de anos para construir.

Nesse sentido, urge encontrar caminhos legais e jurídicos capazes de proteger em caráter definitivo esses resquícios de dunas do litoral de Fortaleza. A preservação dessas formas dunares é essencial para a manutenção do registro das ocorrências naturais da morfologia primitiva na cidade. As áreas preservadas forneceriam em caráter permanente um refúgio para um grande número de espécies animais da flora e fauna costeira regional e local, e seriam garantiria de uma melhor qualidade de vida para a população, o que se faz absolutamente necessário e urgente.

*Vanda de Claudino-Sales é doutora em Geografia pela Universidade Paris-Sorbonne, França. Professora aposentada do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará e professora visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA, Ceará.



Fonte: Espaço Ecológico



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