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Extrativismo gera renda para famílias que vivem na Reserva Chico Mendes

Compartilhe:     |  19 de abril de 2015

Há 27 anos, o líder seringueiro Chico Mendes morreu em defesa do ideal de preservação da floresta Amazônica. Hoje, além de toda a lembrança dessa luta, existe também uma reserva que leva o seu nome. Ela fica no Acre e é a maior reserva extrativista do país. Em boa parte da reserva, o extrativismo ainda é a principal fonte de renda das famílias.

Na cidade de Xapuri, os moradores ainda guardam a memória de Chico Mendes e sua luta em defesa da floresta. Um museu preserva sua história. A casa onde ele morava é ponto turístico e um museu preserva a sua história.

Em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes foi assassinado quando saía na porta do quintal. Os assassinos, um fazendeiro e o filho, foram condenados a 19 anos de prisão. Cumpriram a pena e hoje já estão em liberdade.

A Reserva Chico Mendes foi criada em 1990 para colocar em prática o sonho do líder seringueiro. Grande parte da área fica entre os municípios de Xapuri e Brasileia. É a maior reserva extrativista do país – quase um milhão de hectares –  e abriga cerca de duas mil famílias.

O leite da borracha é matéria-prima das mais importantes da região e grande parte vem da Reserva extrativista.

Antes da criação da reserva, em 1984, o Globo Rural visitou seringais da região, no auge dos conflitos entre fazendeiros e seringueiros.  O repórter Ivaci Matias acompanhou a luta de Chico Mendes e seus companheiros para impedir a destruição da floresta.

A reação dos seringueiros e o apoio de ambientalistas até do exterior foram fundamentais.  Pelo menos em uma região do Acre, grande parte da mata permanece intacta e a árvore da borracha continua importante para muita gente.

O preço do látex nunca esteve tão bom. Os seringueiros recebem R$ 8 por quilo de látex, 300% acima do preço praticado na produção dos seringais plantados em outras regiões do país. Há duas explicações para isso: valorizar o trabalho de quem extrai das árvores nativas na Amazônia e preservar a floresta.

Com a experiência de quem nasceu e cresceu na floresta, o seringueiro Gerson da Silva sabe bem o que é extrair da natureza o sustento da família e com a consciência de quem não se preocupa apenas em ganhar dinheiro.

“A floresta para nós representa várias coisas. É até uma mãe para nós. Eu sinto por ela um amor, nasci e me criei até hoje na floresta e não tenho muita ideia de sair para a cidade”.

Um grupo de 300 seringueiros da reserva já tem comprador certo e com a vantagem de nem precisar sair de casa para entregar o produto.

A coleta dos seringais é levada para uma fábrica de preservativos em Xapuri. Ela processa 250 toneladas de látex por mês e 70% vêm da reserva extrativista. A compensação financeira, três vezes acima do valor regional, estimula mais ainda os seringueiros, segundo a diretora da fábrica, Dirlei Bersch.

“O látex no Acre e o látex associado à produção de preservativos, ele agrega um serviço ambiental. Por isso ele tem uma remuneração superior ao preço de mercado”.

Uma usina beneficiamento de castanha do Pará, ou castanha do Brasil, mais um produto extraído na região, também fica em Xapuri, perto da reserva, e pertence a uma cooperativa com dois mil produtores. Todo ano, na época da colheita, que vai de janeiro a abril, mais de sete mil toneladas chegam de vários pontos da floresta.

A produção brasileira passa de 38 mil toneladas por ano. Só o estado do Acre responde por 35% e a colheita é feita na base do facão.

A castanha no passado não era toda aproveitada. Como ela começou a dar preço, quase que a gente não deixa castanhas para as cotias comerem”, conta Manoel José da Silva, presidente da Cooperacre.

O primo de Chico Mendes, Raimundo Mendes de Barros, que ainda mora na reserva, se orgulha de viver o extrativismo.

“Eu tiro aqui 250, 300 latas de castanha por ano. Vendido a R$ 30 dá R$ 8 mil por ano. Também vendo banana, seringa, abacaxi, ovos, galinha, pato. A gente consegue juntar renda pra sobreviver com a família”.

Ninguém reclama na reserva nem da castanha nem da borracha. Mas outra atividade provoca muita polêmica: a extração de madeira. Há uma serraria que funciona legalmente dentro da unidade de conservação. O lugar tem um plano de manejo florestal aprovado pelos órgãos ambientais.

No plano, algumas árvores são selecionadas para o corte, mas sempre deixando a maioria dos exemplares da mesma espécie em pé, que irão garantir a regeneração daquela área desmatada da floresta.

Os produtores criaram uma cooperativa que se encarrega da extração e comercialização para explorar o manejo. As famílias de 5% do valor final. São R$ 60 por metro cúbico de madeira pelas árvores licenciadas, aquelas que podem ser retiradas da floresta.

Quem ganha mais dinheiro nessa história vive fora da reserva. Alexandre Nogueira é um jovem empresário. O negócio dele é comprar as toras da cooperativa, serrar e vender na cidade.

A cooperativa entregou ao empresário por R$ 350 o metro cúbico que o assentado vendeu por R$ 60,00. Alexandre revende a mesma madeira por R$ 1,2 mil a 1,3 mil.
“Eu não diria justo. É que o mercado meio que obriga a esse preço”, diz Alexandre.

Segundo Tião Aquino, presidente da associação dos produtores da reserva, nem toda árvore é extraída de forma legal na Chico Mendes.

“Há invasores retirando madeira e há o próprio morador também de forma clandestina e não regulamentada”.

De acordo com dados do INPE, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, do início da sua criação até o fim de 2013, a Reserva Extrativista Chico Mendes perdeu 5%o de sua cobertura vegetal, mais de 46 mil hectares.



Fonte: Globo Rural



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