Denúncia

Falar com (e pelos) animais

Compartilhe:     |  21 de março de 2015

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Por Adrian Monjeau*

Faz algum tempo, os destinos do mundo eram decididos por umas poucas pessoas: czares, imperadores, reis, papas, caciques, ditadores. Logo a sociedade humana evoluiu até uma fase mais inclusiva, e os povos começaram a poder votar por seus governantes e, através do exercício democrático, decidir sobre os destinos do mundo. Mas até pouco tempo atrás, só podia votar uma minoria de homens: mulheres, índios, negros e um grande etcétera majoritário estavam excluídos de voz e de voto. Hoje em dia, a partir de uma cômoda e civilizada visão retrospectiva, vemos estas etapas da história como bestiais, injustas, discriminativas. Julgados estes atos a partir de nossas perspectivas éticas atuais, refutaríamos estes consensos participativos por serem tendenciosos, por falta de quórum ou de representatividade da maioria dos atores envolvidos. Os condenaríamos como uma brutal demonstração da lei do mais forte, indo contra os antigos e vigentes princípios de igualdade, fraternidade e liberdade. Mas hoje, dizemos nós, a civilização já avançou.

No entanto, apesar destes progressos, faltam, por exemplo, as crianças. Claro, dirão os senhores importantes, as crianças não podem votar porque não alcançaram o raciocínio suficiente. As crianças só querem se sentir satisfeitas, ser felizes e amar e ser amadas em um lugar aprazível, mas será que nós adultos conseguimos com nosso raciocínio metas melhores que as das crianças no mundo que temos construído e que eles herdarão?

Permita-me agora estender essa linha de argumentação às decisões que hoje em dia se tomam sobre o destino do mundo, a respeito da coexistência dos humanos com a biodiversidade. As áreas protegidas são, em um planeta dominado pela economia humana, os últimos bastiões onde se podem encontrar vestígios em bom estado do que uma vez foram biomas contínuos. De maneira similar ao processo anterior, as áreas protegidas passaram por uma fase autoritária de tomada de decisões, excluindo as populações locais e circundantes de voz e voto. Em uma etapa posterior, que insere no fluxo mais amplo da história, boa parte do destino das áreas protegidas depende hoje do consenso que se possa estabelecer com as populações envolvidas. Em um estudo macroecológico, verifiquei que 92% das 1511 áreas protegidas da América do Sul estão inseridas em populações humanas ou perto delas, de onde se poderia supor que estas áreas protegidas estão influenciadas pela vontade dos humanos de protegê-las, usá-las ou fazer com que o consenso queria fazer com elas. Então, comparando esta etapa com a descrita anteriormente, é uma etapa primitiva, não inclusiva de todos os atores envolvidos.

Como? Estão todos! – diriam os políticos – homens, mulheres, agricultores, índios, povoadores antigos, usuários, empresários, turistas, pescadores, caçadores, funcionários…

Não – digo eu – faltam 99% do consenso, não há quórum.

– Mas, como? Quem falta? A quem nós não convocamos?

– Às dezenas de milhares de espécies de plantas e animais que formam parte fundamental do funcionamento dos ecossistemas e que não estão representados, nem tem voz nem voto, como se excluíram a mulheres, índios, negros, tempos atrás. Como uma única espécie vai decidir por si só o destino de mais de um milhão de espécies? O progresso até o antropoceno nos retrocedeu à pior era imperial da história.

Imagine por um segundo, meu querido leitor, a cara que os políticos fariam escutando estes argumentos.

Esta concepção de igualitarismo biosférico pode rapidamente ser considerada ridícula pelos burocratas argumentando simplesmente que:

a) os animais e plantas não podem opinar porque, simplesmente… não falam (ou pelo não o entendemos o que dizem);
b) não são sujeitos de direito (como não são as crianças nem o eram os escravos, as mulheres, os índios, os negros).

Isso é correto, pelo menos por enquanto. Mas isso não implica que não possam ser representados por nós, os humanos, em uma proporção adequada à sua diversidade específica e sua funcionalidade ecossistêmica. Esta “representação” é o que se tem chamado “conservação biológica”, se algum de vocês já participou alguma vez de uma conversa deste tipo.

Com a utopia da justiça biosférica em mente, empreendi uma expedição em busca dos tímidos representantes dos animais em congressos nacionais de vários países do mundo. Comecei a escutar atentamente os discursos. Vozes sobre desenvolvimento sustentável, partição de benefícios, uso racional, mitigação da pobreza, inclusão e outras questões me deram esperança e a busca me entusiasmou loucamente.

Continuei sorrindo e cantando pelos corredores de secretarias, ministérios, congressos e assembleias em busca dos tais representantes… E sabem o que? Tive uma surpresa: os encontrei!

Bom, pelo menos as antas estavam muito bem representadas.

Foto do colunista convidado*Adrian Monjeau é ecólogo, pesquisador visitante na UFRJ, seus principais interesses são ligados à biogeografia da conservação. Coordena o programa de Ecofilosofia da Fundación Bariloche, Argentina.

Fonte: ((o))eco



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