Evite o Desperdício

Fartura à mesa estimula o desperdício

Compartilhe:     |  23 de junho de 2019

Em média, cada família brasileira joga no lixo quase 130 quilos de comida por ano, informa pesquisa

Crise financeira, desemprego e empobrecimento escancarado de uma boa parcela da população não fazem diminuir o desperdício de alimentos no Brasil. Ao contrário, a redução do poder de compra das famílias contribui para o aumento das refeições preparadas em casa que, paradoxalmente, resulta em mais desperdício ainda, dado que os brasileiros tem uma arraigada propensão pela fartura à mesa – a famosa cultura do “é melhor sobrar do que faltar”. Ou seja, a economia pretendida acaba sendo mitigada por esse tipo comportamento, mais comum entre os povos latinos.

Uma pesquisa recém lançada sobre hábitos de consumo e desperdício de alimentos dentro do projeto Diálogos Setoriais União Europeia – Brasil, liderado pela Embrapa, com o apoio da Fundação Getulio Vargas (FGV), apurou entre as 1.764 famílias consultadas que as sobras de refeições anteriores são consideradas “comida dormida”, e o apreço à “comida fresquinha” contribui para o descarte de alimentos ainda próprios para o consumo.

Segundo o estudo, ter a despensa sempre abastecida é um traço cultural presente nas famílias brasileiras, mesmo as de classe média baixa, em cujo orçamento é dada prioridade à compra de alimentos. “O estoque abundante dá tranquilidade para essas famílias mas também pode contribuir para mais desperdício se as compras não forem bem planejadas”, diz o estudo.

As projeções sobre o tema também não são animadoras. Elas apontam que o desperdício tende a aumentar, principalmente em países em desenvolvimento, em função das mudanças nos padrões de consumo. “Se ações urgentes não forem colocadas em prática, até 2030 o desperdício global tende a aumentar para o equivalente a US$ 1,5 trilhão ante os atuais US$ 1,2 trilhão. Segundo o Boston Consulting Group (BCG) este montante equivale a 1,6 bilhão de toneladas de alimentos, o que corresponde a dez vezes a ilha de Manhattan (Nova York-EUA).

Essas projeções dão uma ideia do tamanho da dificuldade que será cumprir a meta do ODS 12.3, lançada pelo Desafio 2030 das Nações Unidas, de redução pela metade do desperdício de alimentos per capita mundial no período.

O relatório final da pesquisa, que pode ser acessado aqui, traz alguns casos europeus de combate ao desperdício de alimentos. Embora Holanda, Dinamarca, França e Inglaterra, países observados pelos pesquisadores, não tenham a mesma complexidade da cadeia agroalimentar brasileira, suas ações têm pontos em comum que podem ser adequados à realidade brasileira.

Entre observações nesse sentido, eles citaram a expansão de novos modelos de negócio, baseados em economia circular, que estão sendo estimulados pelo crescimento das start-ups e foodtechs. “Na Holanda, as indústrias estão transformando em produtos inovadores partes dos alimentos que seriam descartados no início da cadeia produtiva”, dizem os pesquisadores.

É o chamado upcycling, termo resultante da junção da partícula em inglês up com reciclagem, que significa gerar novos usos para matérias-primas que iriam para o lixo. “É um exemplo de solução ganha-ganha, pois reduz o impacto ambiental do descarte de alimentos, gera receita para o produtor e atende aos anseios do mercado consumidor por produtos sustentáveis”.

Veja os principais números levantados pela pesquisa:



Fonte: Página 22



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