Crônicas e Poesias

Fernando Pessoa: o poeta insatisfeito

Compartilhe:     |  13 de junho de 2015

No ano em que se completam oito décadas da morte dele, sua obra continua inabalável, sincera e irrequieta como nunca

Fernando Pessoa: Fernando Pessoa: “Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada”

Era 13 de junho de 1888 quando Portugal ganhou um de seus filhos mais ilustres. Nascia em Lisboa Fernando Pessoa, o poeta da insatisfação humana, que duvidava da própria realidade e que achava a existência algo absurdo. Ao rever parte de sua obra para essa homenagem, lembrei-me do quanto ler suas poesias me deixava… inquieto.

Os textos de Fernando Pessoa têm esse poder: levam-nos a questionar o que sentimos e pensamos. É como viver em uma realidade irreal. Tudo parece ser tão genuíno, tão verdadeiro, que parece fingimento. Que me desculpe Shakespeare, mas é lendo a obra do poeta português que a máxima “ser ou não ser, eis a questão” parece ganhar mais sentido.

Fernando Pessoa lia o mundo exterior pelas páginas de sua ecologia interior. Falava de natureza com uma simplicidade sincera, sem rodeios. Em suas palavras, renovava os mitos que criava para si e aqueles que eram do mundo. Para ele, a vida é o presente, e os instantes são tantos que o fizeram perder a própria identidade. “Não sei quantas almas tenho. Cada momento, mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi, nem me achei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê. Quem sente, não é quem é”, disse ele em um dos seus poemas mais famosos.

Pessoa é universal, irônico, sincero e, assim, inventou a própria arte. Escreveu seu primeiro poema aos 14 anos e sua personalidade não cabia em si. Por isso, criou heterônimos com biografias próprias – como Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, mostrando as suas diferentes formas de ser e estar no mundo. E conseguia transformá-las em versos.

Um ano antes de sua morte (faleceu vítima de cirrose hepática aos 47 anos, em 1935), o “poeta fingidor” entregou-se novamente a escrever quadras populares, em que resgatava um estilo mais simples de ver as coisas. Em sua última linha escrita, afirmou não saber o que o amanhã traria. Uma pena não ter sobrevivido para ver que, pouco tempo mais tarde, o mundo descobriria que a sua verdade também trazia os questionamentos que todos nós carregamos. Confira:

Verdade

“O público não quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade.”

Alma / Espírito

“Todo estado de alma é uma paisagem. Uma tristeza é um lago morto dentro de nós.  Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e sendo nosso espírito uma paisagem, temos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens.”

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena.”

Vento

“Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.”

Criar

“Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: viver não é necessário; o que é necessário é criar.”

Sentir

“Sentir é criar. Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias.”

“Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância.
Faço paisagens com o que sinto.”

Ser poeta

“Não tenho ambições nem desejos. Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho.”

Lucidez

“Ver muito lucidamente prejudica o sentir demasiado. E os gregos viam muito lucidamente. Por isso, pouco sentiam. Daí a sua perfeita execução da obra de arte.”

Arte

“A arte é a autoexpressão lutando para ser absoluta.”

“A ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidas.”

Escrever

“Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida – umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.”

Saudosismo

“O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.”

Campo

“O campo é onde não estamos. Ali, só ali, há sombras verdadeiras e verdadeiro arvoredo.”

Imagem: Raymond Wiggins

Desprezo

“Despreza tudo, mas de modo que o desprezar te não incomode. Não te julgues superior ao desprezares. A arte do desprezo nobre está nisso.”

Renúncia

“A renúncia é a libertação. Não querer é poder.”

Liberdade

“A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.”

Sonho

“Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.”

Passado

“Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto, que a passagem do animal, que fica lembrada no chão. A ave passa e esquece, e assim deve ser. O animal, onde já não está e por isso de nada serve, mostra que já esteve, o que não serve para nada. A recordação é uma traição à natureza, porque a natureza de ontem não é natureza. O que foi não é nada, e lembrar é não ver. Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!”

 

Pastor

“Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse. Minha alma é como um pastor, conhece o vento e o sol e anda pela mão das estações a seguir e a olhar. Toda a paz da natureza sem gente vem sentar-se a meu lado. Mas eu fico triste como um pôr de sol para a nossa imaginação, quando esfria no fundo da planície e se sente a noite entrada como uma borboleta pela janela.”

Tristeza

“A minha tristeza é sossego porque é natural e justa. E é o que deve estar na alma quando já pensa que existe e as mãos colhem flores sem ela dar por isso.”

Adeus

“É talvez o último dia da minha vida. Saudei o Sol, levantando a mão direita, mas não o saudei, dizendo-lhe adeus. Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.”

Biografia

“Se depois de eu morrer quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tenho só duas datas: a de minha nascença e a de minha morte. Entre uma e outra, todos os dias são meus.”

Travessia

“É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

Desapego

“Desapegar-se é renovar votos de esperança de si mesmo, é dar-se uma nova oportunidade de construir uma nova história melhor. Liberte-se de tudo aquilo que não tem te feito bem, daquilo que já não tem nenhum valor, e siga, siga novos rumos, desvende novos mundos. A vida não espera. O tempo não perdoa. E a esperança, é sempre a última a lhe deixar. Então, recomece, desapegue-se! Ser livre não tem preço!” 

Fonte: Revista Ecológico – Luciano Lopes



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